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Um mergulho na cibersegurança

Um mergulho na cibersegurança

Foto: Matic Zorman
Viver 13 3 min. 09.05.2018

Um mergulho na cibersegurança

Paula CRAVINA DE SOUSA
Paula CRAVINA DE SOUSA
Paulo Veríssimo é um dos maiores especialistas mundiais na área de cibersegurança. Desde 2014, é investigador no Luxemburgo, mas o seu tempo não é passado apenas em frente ao computador.

“A partir dos 40 anos é sempre a descer. O segredo é descer devagarinho.” Esta é a máxima do especialista em cibersegurança, Paulo Veríssimo. Mas o que parece uma ideia fatalista é, para o investigador na Universidade do Luxemburgo, uma regra até “bastante zen”. “É perceber que já não temos 20 anos e que há que ir devagarinho”, explica. O mote aprendeu-o nos desportos radicais – Veríssimo foi praticante de montanhismo, fez caça submarina, fazia exercícios de orientação no terreno e ainda pratica mergulho. “Hoje mergulho menos fundo... há que ir devagarinho.”

O Contacto passou um dia com Paulo Veríssimo e mergulhou no quotidiano do investigador. Se imagina alguém pouco ativo, enfadonho, com os olhos cravados no ecrã azul dos computadores, desengane-se. À agilidade física corresponde a rapidez mental e de raciocínio em várias áreas de conhecimento, praticando-a a todo o momento. Uma conversa que começa na tecnologia do ’blockchain’ acaba facilmente na importância de Afonso de Albuquerque e a influência que Portugal teve na Índia e no mundo.

O dia foi atarefado, os minutos estavam contados entre vídeoconferências, entrevistas e reuniões. Para alguém que se preocupa com a sua saúde – Paulo Veríssimo faz questão de dormir oito horas e ter refeições completas –, o dia foi bastante atípico. “Só comi uma sandes ao almoço, porque o dia tem sido corrido.”

Normalmente, o tempo divide-se entre encontros com os alunos de investigação, de doutoramento e pós-doutoramento, a sua própria investigação, as suas leituras e os treinos.

É que, para o antigo jogador de andebol do Benfica, o desporto continua a estar presente. É sempre o último a sair, entre as 19h e as 20h, mas tem tempo para o exercício físico. No Luxemburgo, opta pelo ginásio e, como atividade ao ar livre, pela bicicleta trial.

O dia do investigador começou com uma entrevista para o Fundo Nacional para a Investigação (FNR, na sigla em francês), à qual o Contacto assistiu, com a jornalista e o fotógrafo a seguirem o trabalho de outros jornalistas, como num efeito de espelho. Luzes e câmara focadas, microfone colocado, maquilhagem para prevenir os brilhos na pele, som afinado, passa-se à ação... que é como quem diz às explicações sobre o trabalho concreto de Paulo Veríssimo. “Em palavras simples”, pede o entrevistador com um sorriso. O investigador e a sua equipa desenvolvem trabalho em torno da tecnologia que envolve carros autónomos, privacidade da informação de saúde e o muito falado ’blockchain’, tecnologia que ganhou particular destaque nos últimos meses, com as criptomoedas.

É precisamente o emaranhado de fórmulas relativas ao ’blockchain’ que surge nos quadros de acrílico da sala de Veríssimo. Um amontoado de fórmulas complexas, incompreensível para o comum dos mortais, leva a olhares encantados para os quadros. “Posso fotografar?”. Veríssimo reflete: “Pode, já está tudo patenteado”, responde.

Antes da última reunião do dia, há tempo para uma pequena pausa e café. O investigador bebe cerca de três cafés por dia, há uns anos deixou de beber o último do dia... que era o da noite. Além disso, e porque como “a partir dos 40 é sempre a descer”, abdicou de alguns alimentos em nome de uma vida mais saudável. “O desporto radical molda-nos a mente”, explica. “A separação entre o risco e o perigo depende de nós e atravessar a linha pode significar a morte. Perceber isso é chegar a uma capacidade de se auscultar a si próprio”, concretiza.

Na sala de reuniões, com a equipa de oito pessoas, reina a informalidade e o multiculturalismo. O inglês é a língua falada. Um ecrã exibe números e códigos como no filme ’Matrix’. A discussão gira em torno do chamado ’spectre’ e ’meltdown’, que exploram vulnerabilidades nos sistemas informáticos, e desemboca num debate mais profundo sobre cibersegurança: saber se se trata de uma guerra terrorista ou de ataques fortuitos de ’hackers’.