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Turismo negro e série de TV fazem 'renascer' Tchernobil
Viver 17 5 min. 17.06.2019

Turismo negro e série de TV fazem 'renascer' Tchernobil

Turismo negro e série de TV fazem 'renascer' Tchernobil

Foto: AFP
Viver 17 5 min. 17.06.2019

Turismo negro e série de TV fazem 'renascer' Tchernobil

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Aumento da curiosidade em visitar estes locais a par com a nova série de TV sobre o maior acidente nuclear da história, Tchernobil é hoje uma atração para milhares de turistas.

Alguma vez teve curiosidade em visitar a central nuclear de Tchernobil ou os campos de concentração de Auschwitz? Isso considera-se atualmente 'turismo negro'. Este ramo do turismo está a ganhar cada vez mais adeptos em todo o mundo. Designa o ato de visitar locais históricos marcados pelo sofrimento e a morte, que pode ser considerado 'macabro' por muitos. 

A verdade é que até a Netflix dedicou uma série à temática. Em "Dark Tourist" (turismo negro, em inglês), o jornalista neozelandês viaja pelo mundo em visita a locais relacionados com acontecimentos históricos associados a morte e sofrimento, bem como rituais macabros, por exemplo, o "Dia dos Mortos" no México, a zona de Medellín (Colômbia)  marcada ainda hoje pela violência ligada aos cartéis de droga, incluindo o de Pablo Escobar, ou a central de Fukushima, no Japão, onde se deu um acidente nuclear a 11 de março de 2011 originado por um terramoto. 

Mas é outra central tem vindo a atrair a atenção de milhares de visitantes anualmente: a de Tchernobil, na Ucrânia, onde se deu o maior acidente nuclear da história a 26 de abril de 1986. Um problema no reator número 4 provocou gerou a libertação de uma grande quantidade de energia radioativa seguida de uma explosão. A partir daí a zona tornou-se uma área fantasma, como se o tempo tivesse parado subitamente a vida de quem habitava sobretudo em Pripyat, cidade satélite construída para albergar os trabalhadores e as respetivas famílias da central nuclear. Estimou-se que a área radiotiva se estendia num raio de 30 quilómetros, onde não poderia existir vida humana. 

O acidente foi classificado no nível 7, o nível máximo de gravidade segundo a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), tal como o de Fukushima em 2011. O número de mortes devido à libertação de substâncias radioativas no incidente ainda hoje continua controverso. A Organização das Nações Unidas (ONU) fala em 4000 vítimas mortais enquanto um estudo da Greenpeace refere 200 mil. Nas semanas e anos a seguir ao desastre há registo de vários casos de cancro e mortes entre os trabalhadores da central nuclear ou habitantes que residiam perto do local, mas ninguém sabe ao certo os números. 

Recentemente, uma minissérie da HBO (produtora de uma outra série de sucesso, "A Guerra dos Tronos") conta o que aconteceu baseado nos testemunhos de quem viveu a tragédia. "Chernobyl" está, aliás, melhor cotada do que "A Guerra dos Tronos" no site IMDB, uma base de dados online de informação com ratings e reviews de filmes e séries. A minissérie destrona as histórias de dragões e reinos medievais de George R.R. Martin com 9,7 pontos em 10. Por sua vez, "A Guerra dos Tronos" está classificada com 9,4 estrelas.

Hoje, Tchernobil é uma atração turística visitada anulmente por milhares. Com a descida dos níveis de radiação ao longo dos anos, a área começou a despertar a curiosidade de turistas e outros visitantes em 2002. Mas quem visita a área vai acompanhado de um medidor de radioatividade portátil, que solta uma espécie de beep sempre que deteta uma radiação acima do normal. Numa pesquisa rápida no Google, sugem inúmeras agências de viagens que organizam visitas guiadas à zona, privadas ou em grupo. Os preços variam entre os 81 euros e os 429 euros, este último por exemplo para uma visita à central e à cidade de Pripyat onde permanecem intactos os edifícios e estruturas que tiveram de ser abandonados. As duas são, naturalmente, as que mais atraem os curiosos à área. 

Mais recentemente, a série de ficcão que relata os momentos durante e após o maior desastre nuclear da história tem contribuído para um aumento do turismo na área. De acordo com as entidades de turismo em Kiev, capital ucraniana, até ao final de 2019 são esperados 150 mil visitantes em Tchernobil, o mais do dobro dos 70 mil em 2018.

Segundo escreveu a jornalista Sarah Johnstone do The Guardian, que visitou a central em 2005, a zona não constitui nenhum perigo radioativo para a saúde humana. O mesmo é reiterado pelas autoridades do turismo de Kiev. No entanto, não é seguro comer alimentos plantados na área, visto que os solos ainda registam níveis elevados de contaminação. E pelo sim, pelo não, todos os turistas são inspecionados à saída da zona de exclusão, segundo as autoridades ucranianas.

"Respeito pelos que sofreram e que se sacrificaram"

Um dos desafios relacionados com este tipo de turismo é o respeito ou não respeito pela história dos locais, geralmente associados a episódios de tragédia, sofrimento e morte. Num jornal académico dedicado apenas à investigação do turismo negro, "Current Issues in Dark Tourism Research", um investigador considera que este "não é obscuro nem desviante". 

"Eu argumento que os lugares obscuros do turismo podem incorporar e até fortalecer as noções de conectividade humana, traduzir a ética e reconfigurar os limites da moralidade e, em última análise, criar significados ontológicos para o 'eu' secular", escreve Philip Stone, o também editor da publicação.

Questões como estas chegaram mesmo a ser refletidas pelo criador da série sobre o acidente nuclear ucraniano. Recentemente, Craig Mazin escreveu na rede social Twitter que para quem visita Tchernobil não deve valer tudo e é preciso ter respeito pelas pessoas que aí morreram. "É fantástico que ChernobyHBO [referindo-se à série] inspirou uma onda de turismo na zona de exclusão. Mas sim, eu tenho visto as fotos que têm circulado. Se visitar, por favor lembre-se que uma terrível tragédia aconteceu neste local. Comportem-se com respeito por todos aqueles que sofreram e que se sacrificaram", afirmou na mensagem publicada a 12 de junho. 


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