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Serra de Montejunto, um conto de realismo literário
Opinião Viver 6 min. 08.10.2021
Recantos de Portugal

Serra de Montejunto, um conto de realismo literário

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Serra de Montejunto, um conto de realismo literário

Foto: DR
Opinião Viver 6 min. 08.10.2021
Recantos de Portugal

Serra de Montejunto, um conto de realismo literário

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
"A única coisa que me interessa é escrever sobre o treino que adquiri no silêncio da montanha". A opinião do historiador Diogo Ramada Curto.

Há anos que passo os fins de semana numa casa isolada na Serra de Montejunto. O principal problema é conseguir lá chegar. Em Lisboa, no Campo Grande, apanho um autocarro até ao Bombarral, faço o transbordo para outro até ao Cadaval e acabo por chegar de táxi. No total, de porta a porta, na melhor das hipóteses, levo umas duas horas e meia. Parece muito, mas não me lamento. Quem me visita, também não. Ainda por cima, de carro, o trajecto pode levar menos de uma hora.  

O meu carácter introvertido levou-me a procurar a paz neste cenóbio. Trata-se de uma casa modesta, austera mesmo, com um alpendre encantador. A sua sobriedade, porém, é acompanhada por um, e só mesmo um, luxo: a existência de um sistema de aquecimento e de uma lareira que me protegem nos longos Invernos. Devo este conforto ao dono da casa, um amigo que emigrou para o Norte da Europa. Raras vezes por cá passa, mas, quando o faz, não está disposto a rapar o frio do tempo das cavernas.

Nos últimos vinte anos, posso dizer com tranquilidade que vivi ali as minhas maiores alegrias. Não falo, porque não vem agora a propósito, do que consegui partilhar em conversas e dádivas recíprocas com algumas pessoas que desafiei para o meu refúgio. Tão-pouco quero desenvolver o tema dos passeios e das vistas, incluindo a descoberta dos trilhos do gado, para cima e para baixo.  A única coisa que me interessa é escrever sobre o treino que adquiri no silêncio da montanha. Um silêncio tranquilo que me permitiu uma introspeção acerca dos sentimentos e do modo como tenho vivido.  

Impossível deixar de ver nisto tudo o que já foi chamado exame de consciência ou peregrinação interior. Tais práticas tiveram uma origem confessional, religiosa, e passaram pela Subida ao Monte Ventoso, até serem relançadas por livros de auto-ajuda e, nalguns casos, por uma série de profissionais da treta. Pelo menos no aspecto normativo, as mesmas convivem com alguns domínios, que vão do ioga à meditação. Sei bem que o simples facto de revelar essa passagem – que vai das peregrinações, mais ou menos confessionais, aos domínios que estão hoje no centro de uma dominante cultura psicologizante – irrita meio mundo. 

Desculpo-me, já, argumentando que há sempre excepções e nem todos são uns charlatães. Mais: ao sugerir uma crítica ao ioga e à meditação – que supõem abordagens holísticas do corpo e da mente, bem como práticas ancestrais sedimentadas durante séculos – , corro  o risco de pôr a descoberto visões eurocêntricas. Tal como se a relação romântica com a natureza, protagonizada por um “homem” solitário, pudesse só por si superar outras formas de reflexão interior, incluindo nelas as que se inspiram noutras culturas.   

Ao longo da minha vida profissional, como engenheiro e gestor de empresas (nacionais, mas sobretudo multinacionais), tive a oportunidade de percorrer os quatro cantos do mundo. Fora deste quadro quase idílico, localizado na Serra de Montejunto, fui responsável por várias operações de deslocalização da produção. Todas elas supunham uma busca de condições mais favoráveis do ponto de vista fiscal, bem como o aproveitamento de mão-de-obra barata. No meu ramo, que foi o da indústria automóvel, aprendi, desde muito cedo, que as minhas relações e capacidades dependiam do modo como me sentia. Sobretudo, da maneira como estava motivado. Por essa razão, comecei a frequentar o género de literatura de auto-ajuda que abordava o papel dos gestores. 

Nas noites que passei em quartos de hotel, por esse mundo fora, fui lendo livros de carácter prático. A minha convicçção era que ali encontraria a chave para vir a ser um profissional de sucesso. Quando fui dispensado pela última multinacional para a qual trabalhei, caí em mim. A razão imediata foi, talvez, ter-me sentido escorraçado, pelo simples facto de a operação de abertura de uma fábrica de componentes na Bulgária não ter começado a dar o lucro que se esperava logo ao fim do primeiro ano. Afinal, a minha função de fazer a indústria mudar de poiso e pôr gente na rua tinha-se virado contra mim.

Mas a razão mais profunda para ter caído em mim foi porque já começara a sentir a necessidade de levar mais fundo o conhecimento sobre mim próprio. Isto é, à força de ler tantas fórmulas acerca da importância do amor-próprio, assegurando que só assim poderemos estar seguros e transmitir aos outros a autoconfiança própria do gestor, fui desenvolvendo a minha própria introspeção. De início, confesso, fi-lo com base nesses livros de auto-ajuda, em vídeos do género, até mesmo em Ted-Talks. 

Com a entrada antecipada na reforma, vai para quase vinte anos, deixei de viajar, pelo menos ao ritmo a que me habituara. Reduzi, também, ao máximo as minhas necessidades e padrões de consumo. Desfiz-me do carro e, graças a um amigo emigrante, encontrei o meu refúgio de montanha. Passei a levar uma vida que todos os que me são próximos consideram de uma frugalidade exagerada, mas que, lá no fundo, invejam. Depois, percebi que todos esses livros orientados para a acção, cheios de conselhos e de fórmulas prontas a serem consumidas, eram um vómito simplista e esquemático. 

Vai para vinte anos, passei a viver o prazer da literatura. Transformei-me numa espécie de leitor profissional. O meu auto-conhecimento passou a depender do confronto com a literatura, sobretudo, de ficção. A sua riqueza é inesgotável e, se as minhas leituras começaram por ser erráticas e vagabundas, à medida que fui sentindo a necessidade de tomar notas, acabei por encontrar uma melhor organização. 

Na Serra de Montejunto, mais do que a contemplação da natureza ou do céu, sinto ter retomado antigos hábitos de ermitas. Só que os transferi da oração para a leitura. O meu realismo, o meu conhecimento dos outros, em especial em matéria variada de sentimentos (ódio, desprezo, vingança, amor, amizade, ciúme, et cetera), passou a depender de uma das mais ricas formas de pensar a vida real: a literatura. Em suma, o realismo literário salvou-me.

 

 

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