Escolha as suas informações

Só desconfio dos pedintes dos semáforos
Opinião Viver 5 min. 01.04.2021

Só desconfio dos pedintes dos semáforos

Só desconfio dos pedintes dos semáforos

Opinião Viver 5 min. 01.04.2021

Só desconfio dos pedintes dos semáforos

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
As desconfianças começaram-lhe na adolescência, infiltrado na mocidade portuguesa e disfarçado de rapaz com tino, anunciou aos mais próximos a passagem para a clandestinidade, nas fileiras do partido, ainda os pelos da barba lhe furavam a pele a custo. A crónica semanal de opinião de Filipa Martins.

Nasci e cresci sob o peso da desconfiança. Começou pela desconfiança em torno do meu sexo – e, quando me refiro a sexo, abordo o tema do ponto de vista de género, tendo surgido igualmente, a meio da vida, algumas dúvidas sobre o meu sexo, enquanto ato, mas não chegaremos tão longe neste texto. A minha mãe deitou-se na marquesa de seis médicos, antes de eu lhe sair pelas pernas, devidamente espalhados geograficamente pelo país e das mais diferentes origens. Noutros casos, não chegou a sentir o frio dos instrumentos médicos sobre o ventre porque o meu pai abalava com ela do consultório pela mão, sem lhe dar tempo de recolher as agulhas de tricô levadas entre os dedos na tentativa de não perder um ponto do casaquinho de lã. Abalava, quando a assistente incrédula o fitava muda de espanto, depois de lhe ser exigido, primeiro em surdida e mais tarde com voz militar, que jurasse a filiação do médico ao Partido Comunista. Assim era o meu pai, um comunista de lenço na lapela e casaco de linho, morador da Lapa e ar blasé, bocejador e pantufeiro, amante de mulheres tenras, mas capaz do melhor e do pior em nome do partido e, mais importante, profundamente desconfiado. Desconfiou, à partida, das garantidas das videntes, que adivinhavam de mão na barriga da esposa a vinda de um menino, saudável e roliço; porém, pouco dado a mostrar o sexo. O meu pai não queria mais soldados na família e condenou-me a envergar traje cor-de-rosa de lã, com bordados e gola redonda, até à idade de andar de gatas.

As desconfianças começaram-lhe na adolescência, infiltrado na mocidade portuguesa e disfarçado de rapaz com tino, anunciou aos mais próximos a passagem para a clandestinidade, nas fileiras do partido, ainda os pelos da barba lhe furavam a pele a custo. De clandestino teve pouco. Dois ou três dias com o estômago a ranger nas caves do Cais do Sodré fizeram-no desistir, mas comunicou à família – com medo na voz – que tinha sido denunciado, fechando janelas e pondo ferrolhos nas portas por uma semana. Ficou-lhe a desconfiança.

A mesma desconfiança que me levava pela mão ao miradouro do Cristo Rei, para lá da meia-noite, e se esquecia de me calçar os sapatos. A minha irmã Celeste segurava a saia ao vento e dizia ‘paizinho’ e o outro, com ar de flamingo encostado ao capô, apressava-se a tirar-lhe a mão da cinta, já o meu pai parecia, a meus olhos, o Al Pacino, mas de barba feita e roupa clara. Acabávamos numa cervejaria para lá de Setúbal, aberta 24 horas, com o outro com a boca cheia de choco frito e a minha irmã Celeste a chorar copiosamente. O meu pai abriu conta no restaurante, tínhamos quatro ou cinco refeições de choco frito por mês, a minha irmã chorava copiosamente e eles desapareciam, talvez por indigestão, no final de cada jantar. A cervejaria já fechou, mas foi o único sítio onde não vi o meu pai conferir a conta, que pagava em cheque no final de cada trimestre.

Vivi ainda treze anos com uma mulher desconfiada. Por muito que me lisonjeasse a desconfiança, quando me deitava ao sol da praia das Maçãs, uma morsa de Record aberto na barriga, e lhe garantia que só apanhávamos o trânsito de Colares porque estava provado que aquele mar tem mais iodo e o areal boas bolas de Berlim. Difícil foi convencê-la de que não comunicava através do bater de pestanas com a menina dos gelados, talvez húngara, talvez romena, que entendia à lei dos gestos as minhas preferências pelos Cornettos, ou que não marcava mesa, ao lado da nossa, no restaurante de grelhados para a dita menina, que me aparecia à frente em calções e apertava a bochecha do meu mais novo com um sorriso de pediatra.

A Margarida alugava, com um ano de antecedência e cinquenta por cento de desconto, a barraca na praia das Maçãs, junto ao quiosque da Olá, e discutia comigo, pelo caminho, a minha insistência em apanharmos o trânsito de Colares. Provavelmente por causa do SEF, que descobriu a menina dos gelados sem visto de residente, dei por mim, anos mais tarde, no papel de desconfiado. Sem a menina dos gelados, a nossa família ficou reduzida à Margarida, aos dois miúdos que se diziam nossos filhos quando se perdiam na piscina municipal e a um mamífero marinho de uma tonelada.

Num Inverno, um amigo alertou-me de mão sobre o ombro, e os homens percebem o peso deste gesto, para o facto de as professoras primárias não terem reuniões de madrugada e houve uma noite em que tirei o mais pequeno da cama, sem lhe calçar os sapatos, e atravessámos a ponte, vendo Lisboa pelo retrovisor. Voltei para casa satisfeito, tinham construído três prédios, dois deles embargados, pouco restava do antigo miradouro do Cristo Rei e não havia pista da Margarida. Talvez por ter sabido das minhas dúvidas, a Margarida saiu de casa três meses mais tarde, tem dois cães e vive no Seixal com um fulano mais alto do que eu. Nesse dia prometi pôr a desconfiança de lado.

Ainda não nos separámos de papel passado, vai para vinte anos; a Margarida diz que está sem dinheiro para o advogado e eu pago, de forma atempada, a Zon da casa de férias dos meus ex-sogros na Costa da Caparica, as vitaminas para a calvície do fulano mais alto do que eu e a pensão de alimento dos miúdos. Só desconfio dos pedintes dos semáforos, esses não me levam mais do que cinquenta cêntimos, como se ser coxo fosse razão para não se trabalhar.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.