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Plantas. Como a pandemia tornou as casas dos portugueses mais verdes

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Plantas. Como a pandemia tornou as casas dos portugueses mais verdes

Plantas. Como a pandemia tornou as casas dos portugueses mais verdes

Plantas. Como a pandemia tornou as casas dos portugueses mais verdes


por Ana TOMÁS/ 22.04.2021

Os confinamentos têm transformado os apartamentos e as moradias portuguesas em mini selvas interiores e a moda parece ter vindo para ficar.

Em mais de um ano de covid-19 a casa tornou-se o espaço onde as pessoas gastam quase o tempo todo. Para muitos, trazer a natureza e o verde para dentro de portas tem sido a forma de contornar a monotonia criada pelas restrições ao usufruto do exterior e de quebrar a rotina, quando, por exemplo, o domicílio passa a ser também o escritório.

As plantas têm-se convertido nas melhores amigas para se ter ao longo desta crise sanitária, tornando-se ainda mais presentes na vida de quem já as apreciava antes ou cativando novos amantes que já não vivem sem um vaso em cada divisão.

É o caso de Sandra Ferrás, que ao longo deste ano e meio tem somado exemplares das mais variadas espécies. "No ano que passou, em plena pandemia, mudei-me para o interior alentejano, transformando o teletrabalho em algo definitivo. Quando montava o escritório onde me iria instalar, ofereceram-me uma planta para o espaço. E isso fez-me um clique que acordou um gosto que já tinha tido em tempos e que deixei adormecer. Juntando ao facto de aqui ter muito mais espaço, janelas e luz. A partir daí, tem sido uma loucura", conta ao Contacto.

A crise sanitária e os confinamentos contribuíram para avivar e recuperar essa memória, reconhece. "Acho que ajudou. Estar fechada em casa, mais horas de trabalho, menos convívio, mais stress... Trazer algo vivo para dentro de casa quando passamos tanto tempo sem conviver com a vida lá fora."

Foi também a covid-19 que levou Diogo Gomes e Celso Teixeira a decidirem criar, no Instagram, a "PlantoDependente". A conta, com quase nove mil seguidores, "surgiu inicialmente como um diário de quarentena", que tinha como objetivo principal "mostrar um pouco da rotina cá de casa durante o primeiro confinamento que Portugal passou", explica Diogo, que se formou na área de som e imagem e trabalha atualmente como produtor de conteúdos, mas que, juntamente com Celso, define a sua relação com as plantas como mais do que a de mero apreciador das suas possibilidades decorativas. "Vemo-nos como hobbyists que possuem conhecimentos sobre este mundo das plantas de interior".

Com o crescimento que a "PlantoDependente" foi registando, ao longo dos meses, os dois jovens passaram também a orientá-la para ajudar e aconselhar os seguidores nas dúvidas que fossem colocando sobres estes seres vivos mais complexos e trabalhosos do que aparentam à primeira vista.  "Inicialmente era apenas eu nesta página e mostrava algumas plantas que tínhamos cá em casa e alguns dos cuidados que eram necessários", diz Diogo. "Depois, e para grande surpresa, a página começou a crescer e entrou o Celso, para auxiliar na comunicação. Começámos a criar conteúdos mais sérios e a ideia inicialmente prevista, do diário da quarentena, foi alterada e passámos a mostrar a nossa jornada pelo mundo das plantas, por intermédio de dicas, conselhos e curiosidades sobre elas."

Diogo e Celso criaram a página Plantodependente no Instagram em abril de 2020, no primeiro confinamento geral por que Portugal passou nesta pandemia.
Diogo e Celso criaram a página Plantodependente no Instagram em abril de 2020, no primeiro confinamento geral por que Portugal passou nesta pandemia.
DR

Pela crescente interação com os seguidores da conta foi possível perceber que houve um aumento do número de interessados e de novos dependentes, com o aparecimento da covid-19. "Não temos dúvidas que a pandemia e, consequentemente, os confinamentos vieram alavancar este hábito que era associado aos nossos avós e que em muitos casos não passaram para os nossos pais. Com o confinamento, as pessoas tinham que se dedicar a algo, até mesmo para se abstrair de tudo aquilo por que o mundo passava, e muitas viram as plantas como a solução. Ainda para mais, o primeiro confinamento decorreu na primavera, a melhor época para se comprar plantas", lembra Diogo.

A pandemia não parece ter despertado apenas o entusiasmo naqueles que embarcaram pela primeira vez na aventura de ter uma selva doméstica. Mesmo os que já eram apreciadores reforçaram o número de exemplares. "Temos também muitas pessoas que antes da pandemia já tinham algumas plantas em casa, mas com o confinamento começaram a comprar mais e mais", acrescenta.

Sónia Carvalho é um desses exemplos. Apesar de não ter sentido que a crise sanitária veio influenciar o gosto por esse tipo de flora, no seu apartamento, nos subúrbios de Lisboa, tem atualmente o dobro de espécimenes. "Antes da pandemia penso que teria entre 12 a 15 plantas de interior. Atualmente tenho umas 30, o que quer dizer que num ano comprei o mesmo número de plantas que tinha adquirido nos cinco anos anteriores".

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Beleza e terapia em tempos de confinamento
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Ao contrário de Sandra, a sua realidade laboral durante os confinamentos não se alterou significativamente e o teletrabalho não se tornou numa opção mais presente, por isso Sónia não considera que as plantas tenham tido para si "um papel preponderante" na vivência desses momentos de maior isolamento social. Mesmo assim admite que a forma como as passou a distribuir pelo seu T2 mudou depois da pandemia ter começado. "Tinha plantas principalmente na cozinha e na lavandaria. A principal diferença que notei no último ano é que senti necessidade de as espalhar pela casa toda. Atualmente tenho-as em todas as divisões, inclusive na casa de banho."

Tendo sempre continuando a sair de casa para trabalhar, Sónia não sente que as plantas tenham funcionado como terapia para as alturas de confinamento mais apertado. O motivo para as ter em casa continua a passar sobretudo pela decoração. "Gosto de as ver, de olhar para elas, de cuidar, vê-las crescer, florir e procriar. Dão vida e cor. Sem elas fica tudo mais cinzento."

As plantas chegaram ao apartamento citadino de Sónia Carvalho muito antes da pandemia, mas mesmo assim no último ano duplicou o número de exemplares e passou a ter todas as divisões da casa com estes apontamentos de verde.
As plantas chegaram ao apartamento citadino de Sónia Carvalho muito antes da pandemia, mas mesmo assim no último ano duplicou o número de exemplares e passou a ter todas as divisões da casa com estes apontamentos de verde.
DR

Sandra partilha dessa perspetiva. "O pessoal que corre diz que a corrida liberta endorfinas, o que pratica meditação e yoga diz que traz bem estar mental. Tratar das plantas faz isso tudo com o bónus de estar a tratar de seres vivos e a recompensa é vê-las reagir a isso e crescerem. É uma festa a cada rebento novo!"

No seu caso, as plantas têm sido, ao longo do último ano, também uma terapia para a pandemia. "Consigo desligar tudo quando ando a tratar delas. Mesmo durante um dia de trabalho, se estiver mais stressada, levanto-me um pouco, faço uma ronda, vejo se alguma precisa de água... é um reset. E é um hobby fantástico."

Esse aspeto, que se reforçou com a crise sanitária, é percetível também entre os seguidores da "PlantoDependente" e assumido pelos próprios gestores da página. "Não há nada melhor do que, ao final de um dia de trabalho, nos sentarmos ao lado delas e ficar a admirá-las. São seres vivos, são parte da natureza e é incrível conseguirmos tê-las dentro da nossa própria casa. Cá em casa, e falo por muitas casas, grande parte do tempo é dedicado a cuidar delas, seja a regar, a fertilizar ou a limpar o pó. Para nós e para muitos amantes de plantas esta é uma verdadeira terapia e acredito verdadeiramente que veio ajudar a ultrapassar o confinamento de uma forma mais ligeira", diz Diogo.

A atmosfera tropical da Madeira, de onde, tal como Celso, é natural, é um dos elementos que tenta reproduzir no apartamento que ambos partilham em Lisboa.

"Desde pequenos que estamos habituados a ter imensas plantas em casa e a Madeira tem um clima perfeito para a grande maioria delas. Esta paixão vem daí e ao trazê-las para dentro de casa estamos a trazer também um bocadinho da ilha até nós. Sempre que lá vamos trazemos alguns cuttings de plantas."

Sónia herdou o gosto da mãe, que tinha algumas em casa, e quando foi morar para o seu apartamento atual, há seis anos, comprou logo "duas, grandes, uma yucca e uma dracaena". A estas vieram juntar-se mais de duas dezenas de diferentes tipos, todas de interior, face à ausência de varanda ou terraço.

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Uma vaga pandémica ou um hábito que veio para ficar?
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Na casa de Sandra, no Alentejo, cabe quase tudo - ou, pelo menos, faz-se por isso. Há plantas de interior e exterior e as divisões têm sido sucessivamente dominadas pelo verde das plantas tropicais, dos cactos e suculentas e pelas cores das sardinheiras e dos lampranthus.

"Tenho no escritório e no quarto. Ainda não ocupei a sala. Fui aproveitando espaços que teriam outras funções. A secretária tem um prolongamento em L - era para papelada e apoio, agora é para meter plantas. Aliás, em cima da secretária também tenho plantas. Gosto de trabalhar com elas mesmo ao meu lado. Uma estante de livros, mais perto da janela também foi sendo ocupada. E entretanto cravei umas prateleiras montadas por cima da secretária. Estão lá a crescer pendentes e plantas baby. No quarto, a cómoda à janela foi ocupada. Também pedi ao homem da casa para me montar lá duas prateleiras coladas à janela e ainda lá encaixei mais uma estante que estava sem uso. Está cheia de begónias. Mas o quarto tem uma luz fantástica. Não se pode desperdiçar!"

O entusiasmo de Sandra Ferrás com as plantas acompanhou a mudança da sua rotina com a pandemia e é tanto um hobby como uma terapia contra os dias cinzentos e incertos criados pela covid-19.
O entusiasmo de Sandra Ferrás com as plantas acompanhou a mudança da sua rotina com a pandemia e é tanto um hobby como uma terapia contra os dias cinzentos e incertos criados pela covid-19.
DR

Tudo somado faz quase uma centena de plantas e o difícil é parar. E nem mesmo o desconfinamento e a liberdade para voltar à vida e às atividades do exterior parecem fazer abrandar o gosto entretanto apurado quase ao nível de obsessão ou fazer pairar a ameaça de abandono. 

"Para mim o teletrabalho veio para ficar. Vão ser sempre as minhas colegas de trabalho", diz Sandra Ferrás. Já para Sónia Carvalho não há um antes nem um depois da pandemia, nesse aspeto. "A minha vida não mudou muito durante os confinamentos, por isso o meu tempo disponível é exatamente o mesmo. Cuido delas principalmente aos fins de semana."

Diogo Gomes, da "PlantoDependente", também acredita que a moda veio para ficar, mas será difícil repetir o boom do primeiro ano da pandemia. "O ano de 2020 foi muito atípico. As pessoas viram-se em casa fechadas e precisaram de um escape. Muitas compraram dezenas de plantas em menos de um mês, porque no início da pandemia pararam de trabalhar umas semanas devido ao confinamento. Isso levou-as a começar a entrar neste hobby. À medida que a vida for normalizando, a maioria não terá tempo para disponibilizar como tinha anteriormente, porque as plantas são seres vivos e, como tal, precisam de cuidados e atenção. Penso que nos próximos anos continuará a existir a febre das plantas, mas não tão intensivamente como em 2020."  

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Uma selva interior num T0 no Luxemburgo? Sim, é possível
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Shutterstock

O clima de Portugal e as horas de sol que tem ao longo do ano ajudam à criação destes jardins interiores, se observados os cuidados que cada planta requer. Mas também é possível trazer um pouco do ambiente exótico da flora tropical para um apartamento minúsculo, num país mais cinzento, como o Luxemburgo.

"Há plantas de todas as formas e tamanhos, por isso é sempre possível ter plantas em espaços mais pequenos", nota Diogo Gomes. 

A luz é vital para as plantas mas nem todas precisam da mesma quantidade. "Há plantas que necessitam de sol direto ou de muita luz indireta, outras que gostam apenas de luz média difusa. Aí as pessoas têm que ter um pouco de jogo de cintura, ou seja, ou compram plantas indígenas, que não terão o problema se é ou não adequada ao ambiente, ou escolhem plantas que gostam de luz difusa e agregam-nas às janelas da casa."

Por outro lado, há formas de suprimir a carência de luz natural, recorrendo a meios artificiais.  

"A melhor solução, para casas e locais mais cinzentos, são as luzes de crescimento, normalmente são leds e por essa razão não gastam muita eletricidade. Como são luzes 'brancas', integram-se muito bem no ambiente da casa", aconselha.

DR/PlantoDependente


Além da luz, a humidade, a rega, o tipo de terra e a fertilização são aspetos a ter em conta quando se escolhe uma planta e os cuidados variam de espécie para espécie.

A par disso, o facto de muitos exemplares para espaços interiores não serem indígenas da Europa implica uma atenção extra, porque, como explica Diogo, "as plantas que vemos a serem vendidas como plantas de interior são, na realidade, plantas tropicais. Ou estão no chão das florestas ou são epífitas, crescem em cima de outras plantas. Daí termos que lhes dar a luz indicada, que geralmente é muita luz indireta e muita humidade no ar, entre os 50 e os 80%."

Outro fator muito importante, lembra, é o substrato, ou terra, próprio para cada planta. As plantas tropicais "requerem um substrato mais arejado e que retenha muita humidade. Plantas epífitas muitas das vezes ou não precisam de substrato, como o caso das plantas 'aéreas', ou precisam só de casca de pinho, como é o caso das orquídeas". 

A rega é outro cuidado essencial a ter e um erro comum em que incorrem muitos marinheiros de primeira viagem neste mundo das plantas naturais, "porque há plantas que requerem um substrato constantemente húmido e outras que precisam que o substrato seque por completo antes de ser novamente regado". 

A altura da primavera é por norma a que dá início ao crescimento das plantas, que costuma ocorrer entre março e setembro, e a que requer uma fertilização recorrente do solo, "pelo menos uma vez por mês".

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