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OPINIÃO: #ElaTambém

OPINIÃO: #ElaTambém

Foto: AFP
Editorial Viver 2 min. 02.11.2017

OPINIÃO: #ElaTambém

E de repente, as redes sociais começaram a ver-se inundadas por declarações enigmáticas: “MeToo” (eu também) ou “BalanceTonPorc” (denuncia o teu porco).

Por Hugo Guedes - E de repente, as redes sociais começaram a ver-se inundadas por declarações enigmáticas: “MeToo” (eu também) ou “BalanceTonPorc” (denuncia o teu porco).

Mulheres (quase nunca são homens as vítimas) que nos contam como também elas já foram objetificadas pelo seu chefe ou colegas de trabalho.

A cada nova revelação, torna-se mais chocantemente óbvio que estamos perante um problema agudo e generalizado.

Um estudo recente conduzido no Reino Unido afirma que mais de metade (52%) das mulheres já foram vítimas de assédio, quase metade destas já foram tocadas inapropriadamente, e um quinto do total sofreram avanços sexuais fortes.

Infelizmente, temos que admitir que em sociedades mais machistas como a portuguesa, onde os maus tratos domésticos, por exemplo, são ainda um flagelo, a situação atual é muito provavelmente ainda pior.

O gatilho que trouxe o problema para a discussão pública chama-se Harvey Weinstein, o todo-poderoso chefão de Hollywood que durante décadas construiu e destruiu carreiras em série – e a decisão entre a primeira ação ou a segunda dependia muitas vezes do facto de a jovem aspirante a atriz estar disposta a frequentar o seu quarto de hotel, ou não.

O caso Weinstein é extremado – durou muito tempo, afetou centenas de mulheres, parte de alguém condecorado e reconhecido –, mas ali encontramos os mesmos padrões que caracterizam agressores menos mediáticos: eles estão numa posição de poder em relação à vítima, que é frequentemente alguém jovem ou com contrato precário; e há sempre, crucialmente, uma rede cúmplice composta por todos aqueles que sabem e calam, ou que tentam não ver e não saber, ou que sabem e ativamente procuram abafar o caso com ameaças e chantagem.

Como afirmam as signatárias (entre elas, Suzanne Cotter, nova diretora do Mudam) de uma carta coletiva a publicar esta semana em vários jornais globais: “fomos apalpadas, minadas, assediadas, infantilizadas, desprezadas, ameaçadas e intimidadas por aqueles que estão em posições de poder que controlam o acesso aos recursos e oportunidades”. E mesmo quando há uma queixa, o que é raro, as vítimas relatam posteriormente que na esmagadora maioria dos casos a situação no local de trabalho não muda, e inclusive pode ainda piorar.

Este estado de coisas não é admissível. A boa notícia é que depois deste outubro fervilhante, nada será como dantes. Mais um excerto da carta: “Não vamos mais ignorar comentários condescendentes, as mãos teimosas nos nossos corpos, as ameaças e intimidações tenuemente veladas como ’flirt’, ou o silêncio de colegas ambíguos. Não toleraremos ser envergonhadas ou desacreditadas, e não toleraremos a recriminação que vem com a denúncia”. Sim, acabou a cultura do silêncio.

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