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Cunhar Amor*
Opinião Viver 3 min. 10.06.2021
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Cunhar Amor*

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Cunhar Amor*

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Cunhar Amor*

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
A ONU emitiu um comunicado esta semana. Ao ritmo a que o amor está a desaparecer não haverá amor que chegue para as gerações futuras.

O alerta é internacional: o amor está a escassear. A ONU emitiu um comunicado esta semana. Ao ritmo a que o amor está a desaparecer não haverá amor que chegue para as gerações futuras. O Presidente da República falou ao país: poderá ser necessário decretar estado de emergência. A escassez de amor é visível na efetivação de afetos, na materialização de gestos de carinho, cozinhados caseiros das gerações mais velhas, trabalhos manuais – vulgo, artesanato, no tempo despendido a cultivar a terra, a apascentar animais, a contemplar a paisagem e num aumento galopante da solidão. O conselho de ministros reuniu, a Assembleia da República votou, o Banco Central Europeu aceitou. Os Estados vão passar a cunhar amor.

Eu já sabia que o amor era um bem transacionável, mas desta vez vinha no jornal. Com medo do impacto da solidão na economia, o governo decidiu cunhar amor em grande escala. Deixou de ser raro ou coisa de tipos com sorte. Ficou vulgar como as águas de um charco em que qualquer pândego se pode banhar.

Quem levou a vida a juntar amor para dias de provação viu-se tão rico como se tivesse investido em grãos da praia e, num passeio ao litoral, se deparasse com o mais extenso areal. Expliquem-me, então, a volatilidade dos mercados: de um dia para o outro, eu, que julgava ter garantido neste cofre a que os românticos chamam coração as poupanças de uma vida, vi a minha fortuna depreciar por excesso de liquidez e um aumento da inflação galopante. Achava-me de classe média e afigurei-me pobre num crash de sentimentos que tornou os bens mais básicos como o carinho, subir a encosta de mão dada com o vento, um beijo no lábio inferior respirar o ar da serra um chá de carqueja quente – bens a que qualquer punhado de amor dava acesso, recordemos – incomportáveis para mim que, se não abastada, sempre me achei remediada e, sem remédio, me tornei miserável.

Eu já sabia que o amor era um bem transacionável, mas desta vez vinha no jornal. Como o lobo ibérico, passou a ter estatuto de espécie protegida. Caberá ao Estado cunhar amor, providenciar um ambiente ideal em cativeiro para que os gestos de afeto possam florejar. Amor em habitat selvagem será a exceção, naturalmente. Haverá regiões demarcadas, devidamente regulamentadas de acesso limitado aos mais abonados.

Os outros? Cumprirão as regras como bons cidadãos, amando na medida das suas possibilidades. Não serão mais responsáveis, porque a responsabilidade implica liberdade, mas bem-comportados na gestão deste recurso. Depois da mercantilização da água e do vento e da nacionalização da serra, a monetização do amor seria uma questão de tempo. Os bardos chorarão pelo fim do lirismo como antes choraram a velocidade dos rios represados.

Há muitas interrogações. Quanto custará um poema de amor? O caudal de um ribeiro? O martelar da cascata na pedra? A linha do horizonte orvalhada pela espessura do transcendente?

O decreto regulamentará as especificidades, serão elencadas as exceções e definidas as paridades. A comissão de técnicos trabalha dia e noite na matriz. Aos cidadãos apela-se que sejam moderados no usufruto das poupanças de que dispõem. Nada lhes garante que a cotação se mantenha. O mais provável é que se crie uma certa volatilidade até que haja consenso em relação ao valor de mercado de certos produtos que provêm do amor.

Uma coisa é certa: tudo terá de ser declarado. Criaram um anexo novo na entrega do IRS. Há que fazer o levantamento.

* texto escrito no âmbito de uma residência literária em Terra de B

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