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“O corpo e o cérebro dos homens também se modificam para cuidar do filho recém-nascido”
Viver 10 min. 24.07.2020

“O corpo e o cérebro dos homens também se modificam para cuidar do filho recém-nascido”

“O corpo e o cérebro dos homens também se modificam para cuidar do filho recém-nascido”

Foto: Rodrigo Cabrita
Viver 10 min. 24.07.2020

“O corpo e o cérebro dos homens também se modificam para cuidar do filho recém-nascido”

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
"Dá-me a Tua Mão e Leva-me”, é o título do novo livro do conhecido psiquiatra português. Uma conversa com Daniel Sampaio, sobre o seu novo livro centrado na importância da relação entre pai e filho.

Nos homens que acabam de ser pais, “dá-se uma diminuição da testosterona, tornando-os menos agressivos e com menor desejo sexual, revelam estudos científicos”. É o organismo masculino a modificar-se para a função de pai que cuida do seu bebé. Este é uma das provas científicas de que os homens também são capazes de tomar conta dos filhos, reveladas pelo psiquiatra Daniel Sampaio no seu novo livro “Dá-me a Tua Mão e Leva-me”. “É uma revolução”, vinca Daniel Sampaio, de 73 anos, um dos mais conceituados psiquiatras portugueses

Afirma que os divórcios hoje em dia estão banalizados. O Luxemburgo tem, segundo o Statec, uma taxa de divórcio de 98%, ou seja, em 10 casamentos realizados num ano, há quase 10 divórcios assinados. Tanta separação justifica-se?

Muitos divórcios poderiam ser evitados. Os jovens casais quando se casam ou vivem em união de facto fazem-no por amor, mas é inevitável que haja crises numa relação. Só que eles não estão preparados para estas crises. O problema é que não podem ficar presos às crises.

Como podem os casais resolver as crises?

Há que criar estruturas de vários tipos de apoio aos casais para se intervir nessas crises para que eles possam resolvê-las. Muitas situações não precisam de um técnico muito especializado, pode ser o médico de família, o psicólogo do centro de saúde, da autarquia, que tenha uma intervenção breve nessa crise e que vá ajudar na comunicação do casal. Porque em geral são crises de comunicação. Há muita investigação para ajudar as pessoas nessas crises.

Hoje em dia há a sensação de que à menor crise o casal pensa logo na separação. Por que é que não lutam pela relação?

Exatamente. Vejo casais novos que têm uma crise na relação após seis meses a viver juntos e pensam já em separar-se. “Isto assim não dá”, dizem. Hoje, põe-se logo em causa o amor: “Se não nos entendemos nesta questão, se não conseguimos conversar sobre este assunto é porque não gostas de mim”. É uma prova de “não amor” para eles. Por isso, é muito importante estes casais terem ajuda para ultrapassar as crises, por vezes, é uma situação breve que com o devido apoio fica resolvida.

Rodrigo Cabrita

Falemos agora da novidade que o seu livro traz. O corpo e cérebro do pai também se preparam para receber o seu filho recém-nascido. Conte-nos esta ‘revolução’.

Há duas explicações, uma de ordem social e outra científica. A nível social, a partir dos anos 70 as mulheres começaram a trabalhar fora de casa e conquistaram a partilha de tarefas em casa, por necessidade. Até aos anos 70 era a mulher quem tomava conta dos filhos, estando estabelecida a ideia de que só ela sabia cuidar de um filho bebé. Por outro lado, a partir do século XXI, e as primeiras investigações são de 2002, começa-se a dar atenção aos pais, começando a emergir o pai cuidador. Começam também a realizar-se estudos para perceber o que se passava do ponto vista biológico nesse pai cuidador. E é muito interessante, porque ocorrem modificações no seu organismo.

"A seguir ao nascimento de um filho há uma diminuição da hormona ligada à sexualidade masculina.”  


Como é que essas modificações que ocorrem no homem?

Em muitos homens o seu peso aumenta, ficam menos agressivos e mais atentos à criança. As investigações estudaram as hormonas e o cérebro dos homens quando acabam de ser pais e, de facto, diria que é uma revolução, porque provam que há modificações. A seguir ao nascimento de um filho há uma diminuição da hormona masculina, a testosterona, ligada à sexualidade e à agressividade, e os homens ficam menos agressivos e com menos desejo sexual. Ao mesmo tempo, o cuidar do bebé vai libertar nos pais a hormona ocitocina, tradicionalmente a hormona feminina, e isto verifica-se mesmo em pais que são do mesmo sexo. O corpo e o cérebro dos homens também se modificam para cuidar do filho recém-nascido.

O homem também é capaz de cuidar de um filho bebé. Como diz no seu livro citando um paciente seu, os pais passaram “das cervejas para as fraldas”.

(Risos) Claro que isto não é o mais importante para a relação familiar, mas é uma assinatura biológica. Prova que o pai também é capaz de cuidar de um filho com menos de três anos de idade. Durante muito tempo a psicologia e a psiquiatria achavam que o homem era periférico e que apenas a mãe tinha apetência para cuidar do bebé, devido à ligação uterina ao filho. Com esta mudança social e as provas destes estudos, há agora a possibilidade da mulher e do homem se encontrarem no cuidar do bebé e isso pode fortalecer a relação.

A relação da mãe com o bebé é tão forte que o homem acaba por sentir-se à parte?

Tenho muitas consultas de homens que foram pais há pouco tempo e sentem-se muito excluídos da relação da mãe-bebé, o que provoca um afastamento do casal. Defendo que é muito benéfico que se prepare o casal antes do nascimento para a nova realidade familiar e depois também.

Rodrigo Cabrita

Como se faz essa preparação do casal?

Atualmente as consultas pré-natal são quase sempre do foro da obstetrícia, mas é necessário trabalhar a relação, há que trabalhar a parte psicológica, e como o casal se vai organizar para o primeiro filho. No Luxemburgo, como em Portugal, o casal pode consultar um psicólogo para uma consulta pré-natal para se preparar para o nascimento da criança.

A grande mensagem do livro é que o homem pode ser um pai cuidador, tem capacidade de tomar conta da criança e mais tarde quando a criança cresce é ele que a leva para o mundo exterior. O pai tem muita importância na socialização dos seus filhos, deles estarem com amigos, e isso acontece logo desde o jardim de infância.

A mãe resguarda o filho em casa, o pai ajuda o filho a ir mais longe.

Sim, é o pai quem costumamos ver atirar o filho ao ar e o menino rir-se muito. Isto assusta geralmente as mães que não gostam nada. Esta é outra das competências dos pais. É o pai que desafia o filho a correr riscos, a vencer novos desafios.

 É o pai que desafia o filho a correr riscos, a vencer novos desafios. 

Nos divórcios, defende que a guarda partilhada dos filhos com residência alternada é o melhor para as crianças.

A grande vantagem da guarda partilhada é que os filhos mantêm sempre o contacto com o pai e com a mãe. E defendo-o pela minha experiência de muitos anos. O esquema clássico da criança ficar a viver com a mãe e passar fim-de-semana com o pai, de 15 em 15 dias, não é benéfico, pois o pai não passa tempo suficiente com o filho para acompanhar toda a evolução, as modificações que ocorrem desde a infância à adolescência do filho. Sempre que seja possível os tribunais devem considerar a guarda partilhada. Mas a recomendação deve ser feita estudando caso a caso.

Rodrigo Cabrita

Em seu entender, na guarda partilhada o ideal será existirem três casas, a antiga, das crianças, e a de cada pai. Como funciona este esquema?

Quanto às três casas tenho consciência que é uma solução utópica e escrevo isso no meu livro, pois é muito difícil tal despesa do ponto de vista financeiro. O ideal seria manter a casa onde os pais viviam com os filhos antes da separação, para as crianças continuarem lá, na sua casa de sempre. Cada pai teria depois a sua própria casa, mas no período em que cuidava dos filhos mudava-se para a casa antiga, onde ficariam sempre as crianças. Elas nunca andariam de um lado para o outro. Uma casa de família não são quatro paredes, são os espaços, os objetos caraterísticos onde as crianças deveriam permanecer, mas é praticamente inviável, nos dias de hoje. Está no livro por ser simbólico.

No seu livro apresenta um relato forte da luta de um pai pela guarda partilhada do seu filho com menos de três anos. Mas ele conseguiu acabar por ganhar em tribunal.

É um depoimento muito sincero da luta de um pai muito competente, decidi incluí-lo para mostrar que há lutas de pais cuidadores ainda muito difíceis. Mas que o homem é capaz de cuidar de um bebé, como o Tiago prova.

Também no livro, o seu ‘paciente’ Pedro diz que, para ele, a adolescência foi a fase mais difícil da paternidade. Porque é que em geral é assim?

A adolescência ganha-se na infância. A infância tem de ser de envolvimento afetivo de pais e filhos, mas tem de existir autoridade parental, que falta a muitos pais hoje em dia. Estou a falar de autoridade parental e não de autoritarismo.

Por que é que há falta autoridade parental aos pais atuais?

Muitos pais de hoje são muito afetuosos, muito camaradas dos filhos, todo o tempo livre que têm passam com filhos, o que é ótimo. O problema é que se tornam muito próximos dos filhos, esquecendo que um adulto não é igual a uma criança ou adolescente, e aí começa-se a pensar o que é a autoridade. Não estou a falar de autoritarismo, mas tem de haver firmeza. Os pais têm de saber dizer não aos filhos.

Dizer não aos filhos logo na infância?

Sim, porque se assim for, quando os filhos chegarem à adolescência irão respeitar melhor esse não, que foi construído na infância, logo ele parece natural. Se os pais construíram uma autoridade natural na infância é mais fácil.

Rodrigo Cabrita

Há pais portugueses do Luxemburgo, por exemplo, que trabalham muitas horas e só têm tempo para estar com os filhos ao jantar e aos fins de semana. Como podem eles manter uma relação forte com os filhos, especialmente na difícil adolescência?

Digo aos pais do Luxemburgo, como a todos os outros, que há momentos muito importantes na vida familiar que devem ser mantidos. De manhã, ao pequeno almoço, um quarto de hora, 20 minutos antes dos filhos irem para a escola, devem dedicar esse tempo à conversa em família, e depois ao final do dia, antes e durante o jantar, quando a família se reúne. Um tempo onde se privilegia a conversa em família e sem telemóvel. As famílias conseguirem falar ao jantar é um grande benefício para os filhos.

Mas os adolescentes, muitas vezes, não gostam que os pais lhe façam perguntas sobre eles.

Os pais não podem chegar e dizer aos filhos adolescentes “senta-te aí, vamos conversar” ou “vamos lá ter a conversa séria”. Isso não resulta. Se os adolescentes não querem conversar, os pais podem criar conversas a partir de pequenos momentos, como notícias de televisão que estão a ver juntos, acontecimentos, cenas quotidianas. Podem também ser criados espaços fora de casa. No confinamento por exemplo, pais e filhos passaram a ir correr juntos, ou andar de bicicleta, algo que antes não faziam.

Esses momentos em família devem ser mantidos agora.

Sim, continuar a manter o que faziam juntos no confinamento como exercício físico ao ar livre ou irem juntos ao ginásio, ou passear em família. São momentos ótimos para conversar com os filhos de forma natural, sem ser imposta.

“Dá-me a Tua Mão e Leva-me”, é o título do novo livro do conhecido psiquiatra português.


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