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Notas, castigos e prémios
Opinião Viver 6 min. 10.11.2021
Dicas/Educação

Notas, castigos e prémios

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Notas, castigos e prémios

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Viver 6 min. 10.11.2021
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Notas, castigos e prémios

Que o lema dos nossos alunos seja : (Ainda não fui, mas) Eu vou ser capaz! Dicas de uma psicóloga e de uma professora.

(Alexandra Brito [professora] e Ana Cristina Barbosa [psicóloga])

Estamos sensivelmente a meio do primeiro período deste ano letivo. Neste momento, qualquer que seja o nível de escolaridade, já terão sido realizados e recebidos inúmeros testes de avaliação. Assim, estamos já perante as primeiras notas do ano e este tende a ser um assunto delicado em todas as casas.

 Obviamente, quando são boas e estão dentro das expectativas de estudantes e famílias, não haverá muito a (re)pensar. Contudo, quando as notas não são assim tão boas - e isto pode ser desde os insuficientes a notas positivas, mas abaixo do esperado/desejado - começam a gerar-se tensões. Infelizmente, como sugere a nossa ilustração de hoje, a escola parece estar associada a um registo de competição entre os alunos e, a cada rodada de testes, há um rótulo que se vai colando a cada criança, que acaba por a classificar, para os outros e para si mesma, como sendo “bom aluno” ou “mau aluno” em dada disciplina comparativamente com os colegas. Estes rótulos acabam por se tornar em profecias auto-cumpridas - as crianças começam a acreditar que são assim e aqueles que se passam a ver como maus alunos acabam por desanimar e desinvestir na aprendizagem. 

Tudo isto tem o seu quê de irónico, porque, supostamente a escola existe com o objetivo oposto, ou seja, ajudar cada criança a desenvolver o seu potencial individual, de acordo com as suas características e ao seu ritmo, numa lógica de melhoria contínua. Por isso mesmo, as aprendizagens estão previstas para ser feitas por anos e às vezes ciclos, não terminam findo o teste!  Assim, cada teste teria um valor informativo para professores e alunos de forma a que sejam feitos os devidos ajustes para uma aprendizagem cada vez mais bem-sucedida - se não atingi os objetivos na matéria sobre os vulcões neste teste, terei o resto do ano para os atingir e assim sucessivamente. No fim da escolaridade obrigatória, sucesso seria que dado aluno gostasse de aprender, soubesse como aprender, se sentisse capaz e competente a procurar aprender, e reconhecesse utilidade às aprendizagens feitas. 

Naturalmente, para pais e mães há sempre a preocupação com o futuro dos filhos. As notas, consequentemente, são muitas vezes sentidas como o antecipar do seu insucesso ou sucesso no futuro: “Eles têm que ser preparados para a vida! São sete cães a um osso! Ter suficiente é insuficiente! Abaixo de 80% é mau!”. Com este sentimento a apertar o coração, as famílias tentam um pouco de tudo para fazer com que as notas subam. Uma das estratégias mais utilizadas inicialmente é tentar motivar as crianças e jovens para o estudo com prémios aliciantes associados às notas - isto é, dinheiro, brinquedos, tecnologias, etc. Curiosamente, quem trabalha com crianças sabe que quando estas conseguem bons resultados, o orgulho e o sentimento de competência são as melhores recompensas (e devem continuar a ser) e as más notas são sempre uma desilusão, mesmo quando fazem ar de fortes (quando deixam de ser significa que já desistiram de si próprios). 

Isto para dizer que não há alunos que não queiram tirar boas notas, há sim alunos que acham que são capazes (porque a experiência e as notas assim lhes têm dito) e há os que, pela mesma ordem de ideias, se sentem incapazes, e nestes os que até desistem de tentar.  Aqui o ênfase não deveria ser posto no motivar para as notas boas em abstrato mas sim, no quotidiano, motivar para estudar e motivar para a auto-superação realista, sem comparações com os outros - “tiraste 50%, ok, vamos tentar perceber aquilo que conseguiste fazer bem e as coisas em que podes melhorar, a ver se conseguimos melhorar 10% da próxima vez”, “se tu estudares e deres o teu melhor, não é a nota que importa, é o que sabes de facto e o que aprendeste, e vais ter outras oportunidades para o mostrar ao ou à professora”.

Que o lema dos nossos alunos seja : (Ainda não fui, mas) Eu vou ser capaz!


Ensinar o coração a falar
Todas as emoções são do mais instintivo que temos e são fundamentais, mesmo aquelas que ao sentir não são tão agradáveis, pelo que importa aceitá-las como tal e aprender, bem como ensinar, a geri-las…

Lamentavelmente, outra das estratégias frequentemente usada para as más notas são os castigos… mesmo que a intenção seja boa e que se pretenda incutir algum medo e com isso encorajar maior investimento, salvo no caso de adolescentes com potencial mas que se “baldam” às aulas e ao estudo, normalmente a punição é contraproducente e só vai aumentar a frustração, a pressão, o desânimo e a desmotivação face à(s) disciplina(s) em questão. A utilização dos castigos parte sempre da premissa de que não houve “esforço” ou “estudo” suficiente, de que seria necessário mais tempo dedicado, como se a quantidade fosse sempre a resposta. Esta é, no entanto, uma visão simplista e básica da questão. Muito frequentemente a questão não está na quantidade, mas sim na qualidade do estudo/aprendizagem. Passar mais tempo a ler ou a tentar fazer exercícios de coisas que não se entendeu de base é infrutífero … e se não se entendeu, há que tentar encontrar outras formas de, junto dos professores, colegas, pais, passar a entender. 

Mais do que olhar para as notas, importa refazer os testes em ambiente sereno e seguro, pedir para explicarem alto o processo de pensamento, ver o que falhou pergunta a pergunta - não sabia? não entendeu a questão? agora já conseguiu fazer... foi uma questão de interpretação? de ansiedade? problema de gestão de tempo? Todas estas variáveis têm enorme impacto nos testes e têm soluções específicas para pôr em prática da próxima vez. Escusado será dizer que os castigos não resolvem nenhuma delas.

Em suma, nisto da aprendizagem e das notas sugerimos que se elimine, pelo menos no ambiente familiar o ímpeto de competição e comparação com quem quer que seja, a não ser com o próprio, optando-se por valorizar a autossuperação gradual e realista. E ao invés de cenoura ou chicote para os resultados, valorizar o processo, o estudo, a progressão e tentar, junto com os professores, perceber o que pode ser melhorado concretamente, analisando os testes e trabalhos passo a passo, para estabelecer estratégias eficazes de melhoria - que objetivos e competências melhorar, como fazer concretamente para os melhorar.  

 

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