Escolha as suas informações

Neste restaurante a ementa é uma vida nova
Viver 8 min. 25.09.2019

Neste restaurante a ementa é uma vida nova

Américo Nave, diretor da Crescer e responsável pelo projeto

Neste restaurante a ementa é uma vida nova

Américo Nave, diretor da Crescer e responsável pelo projeto
@Rodrigo Cabrita
Viver 8 min. 25.09.2019

Neste restaurante a ementa é uma vida nova

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Quase todos sentem que esta "é a última oportunidade" para sair das ruas, não voltar a cair nos vícios, e endireitar a vida. No 'É Um Restaurante" são os sem-abrigo que os recebem, os servem e confecionam os pratos. Um projeto inédito que abre portas em Lisboa.

À porta do novo restaurante, em Lisboa, fica um passado difícil, de consumos de drogas pesadas e vida na rua. Lá dentro, os 14 empregados de mesa e cozinheiros estagiários iniciam uma nova vida, com “trabalho a sério” e “otimismo” no futuro. “Eles não são coitadinhos”, são pessoas com competências, avisa a equipa que fez nascer este projeto da Crescer. A partir do dia 1 de outubro todos serão bem-vindos a ‘É Um Restaurante’.

A oportunidade de Maria

O chef David Jesus já com a equipa de cozinheiros estagiários todos os pratos da ementa.
O chef David Jesus já com a equipa de cozinheiros estagiários todos os pratos da ementa.
@Rodrigo Cabrita

Maria coloca cuidadosamente os gomos de tomate temperados com sal grosso num tabuleiro, já com um fio de azeite, enquanto pergunta ao chef David Jesus se está bem assim. Aquelas seriam as “pétalas de tomate confitado” para a “açorda de tomate e algas com o peixe do mercado”, uma das receitas do novo ‘É Um Restaurante’, situado no nº 54 da Rua de São José, em Lisboa.

Naquela cozinha a estrear, a vida de Maria ganhou um sentido, algo que perdera há muito, desviada pelos “maus vícios” que a levaram a viver na rua e, nos últimos meses, num prédio devoluto, em Santa Apolónia. “Já estou bem”, garante esta cozinheira estagiária, de 51 anos, e que há cinco não trabalhava. Até que surgiu esta “oportunidade” de “ter um emprego” e “uma casa” que agarrou o mais que pôde: “Estou a gostar muito e sinto uma grande responsabilidade”.

É de “oportunidade” e “esperança”, mas também de “trabalho a sério”, como contam os estagiários, que é feito este ‘É Um Restaurante’. Um projeto original, da associação Crescer, que em três meses recrutou 16 de entre uma centena de candidatos sem-abrigo “com teto”, para com eles fazer nascer e crescer este espaço. 

Neste período uma equipa, que incluiu uma psicóloga, trabalhou com o grupo ao nível das competências pessoais, regras de convivência social e autoestima. Depois frequentaram um curso na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa e estão agora no local, a ensaiar tudo para estarem muito bem preparados para a abertura do restaurante, no dia 1 de outubro.

Daqui a seis meses, este grupo concluirá o seu estágio e, se tudo correr bem, cada um irá trabalhar para outro restaurante, com quem a Crescer está a criar parcerias. Será a vez de dar a novas oportunidades a outros sem-abrigo no ‘É um restaurante’. E assim sucessivamente.

Cristina promete um sorriso a cada cliente

 “Boa noite, faça favor, é uma mesa para quantas pessoas?”, ensaia Cristina com um sorriso largo. O entusiasmo com que fala deste seu novo emprego denuncia o otimismo renascido.

A sala de 'É Um Restaurante', um projeto inédito que abre no dia 1 de outubro.
A sala de 'É Um Restaurante', um projeto inédito que abre no dia 1 de outubro.
@Rodrigo Cabrita

Antes Cristina trabalhava noutro local, mas dormia na rua. “Eu e o meu companheiro não tínhamos casa, mas as minhas colegas nunca souberam”, conta. 

O que ganhavam não dava para uma renda. Por isso, foi ter com a Crescer. Agora, o casal tem um quarto alugado, mas sonha ter uma casa, para viverem com a filha de dois anos, que está com os avós, fora de Lisboa. “É o que mais quero”, admite. 

A vida pregou-lhe duras partidas. Cristina e o marido estiveram 10 anos sem consumir. Nesse tempo, tentou engravidar durante sete anos. Finalmente, conseguiu. Só que, aos cinco meses, perdeu o bebé, porque deu uma “grande queda ao tentar amparar uma senhora de idade para ela não cair”. Caiu da pior maneira. Ficou com uma grande depressão, tal como o companheiro, que recomeçou a consumir. Cristina foi atrás.  

“Estamos limpos. Estamos no programa da metadona há mais de um ano”, afirma. Olha em redor para a sala, com as mesas postas para os ensaios. “Vou estar sempre com um sorriso na cara”, promete.

Cristina está confiante, entre este grupo de gente que de início era “incapaz de levantar os olhos do chão”.

Nova família e um “porto seguro”

Mais do que consultor do projeto e chef de cozinha responsável pela carta e pela formação dos cozinheiros estagiários, Nuno Bergonse, que participou no programa ‘Masterchef Portugal’, da TVI, tornou-se nestes três meses um dos pilares dos estagiários, a pessoa de confiança deles.  

"Queremos que as pessoas venham porque gostam da comida, não porque eles são coitadinhos", avisa o chef Nuno Bergonse.
"Queremos que as pessoas venham porque gostam da comida, não porque eles são coitadinhos", avisa o chef Nuno Bergonse.
@Rodrigo Cabrita

“O processo não foi nada fácil. Agora já estão à vontade, para falar sobre tudo, no final do turno, sento-me com eles e eles contam histórias da vida que tinham. Agora, "já sentem que este é o seu porto seguro, que aqui falamos todos a mesma língua”.

E volta ao estagiário que terá por função receber e servir os clientes mas que não olhava ninguém de frente: “Estas pessoas são muito solitárias, tímidas, sem relações sociais”. Contudo, a equipa conseguiu que ele voltasse a interagir com outras pessoas. A olhá-las nos olhos.

"Todos querem mudar de vida"

Não é a primeira vez que este chef é consultor de projetos para grupos desfavorecidos. Já serviu comida aos sem abrigo e participou num projeto com refugiados, em colaboração com a Crescer.

Nuno Bergonse tem estado com eles desde o início. Ele também fez as entrevistas aos 100 candidatos. No recrutamento, privilegiaram-se os candidatos que embora andem nas ruas tenham “teto”, em albergues ou comunidades, e que já não consomem drogas, pois a grande maioria está em “programas de metadona”.

Da centena inicial, ficaram cerca de 30 e finalmente 14 para o primeiro estágio. As entrevistas para o estágio foram uma fase muito dura para este chef. Num desses dias foi o caminho todo para casa a chorar, confessa. As histórias que ouviu foram autênticos murros no estômago. “Mas todos querem mudar de vida”, declara.

“Querem mesmo trabalhar”

Américo Nave, diretor da Associação Crescer, chega de bicicleta e junta-se à conversa. Desde 2001, que este responsável com a Crescer trabalha com populações desfavorecidas, tendo já desenvolvido inúmeros projetos como o ‘É Uma Casa’, onde atribui casas a sem abrigos.

A agitação na cozinha é grande, tal como a expetativa do dia de abertura.
A agitação na cozinha é grande, tal como a expetativa do dia de abertura.
@Rodrigo Cabrita

Como conta Américo, no ‘É Um Restaurante’ dá-se oportunidade a estas pessoas que estão ‘desacreditadas’ e a quem o mercado de trabalho dá raríssimas hipóteses. “Elas querem mesmo trabalhar”, garante.

Só que têm passado anos numa “vivência de sobrevivência”, pelo que é necessário ter uma certa “flexibilidade e compreensão” para que elas consigam mostrar como “são válidas e têm competências” e são capazes de voltar a estar “integrados” no mundo de trabalho e na sociedade.

"Somos todos família"

A ementa escrita nos azulejos da cozinha a estrear.
A ementa escrita nos azulejos da cozinha a estrear.
@Rodrigo Cabrita

“De início o grupo era tenso, desconfiado, agora eles estão muito mais serenos, orgulham-se do que já conseguiram e do que temos”, diz, com um certo orgulho, o chef Nuno.

Contudo, salienta, ainda continuam “pessoas fragilizadas, vulneráveis”: “Não é fácil, foram muitos anos de vida solitária, é um trabalho que demora”. Desde o início que a equipa tem estado a construir “as regras do jogo” com eles. E eles já estão a compreendê-las e aceitá-las.

“Agora, eles sentem que somos todos uma família”, mas apesar de “motivados”, haverá “contratempos” e situações delicadas a gerir.

A Rosa não foram as drogas que a levaram para a rua

 “O melhor de tudo é deixar de ser um número, o ‘M-4’. Não me chamavam pelo meu nome, era o ‘M-4’”, conta Rosa, 58 anos, lembrando como são tratados os sem abrigo no albergue onde pernoitou meses a fio: “Havia de tudo. Às vezes, dormia com assassinas ao lado, havia cenas de gritaria e pancadaria quase todos os dias e chamava-se a polícia”. Tempos que Rosa quer deixar enterrados no passado.

Cumprir horários e voltar ás rotinas é uma dificuldade para quem esteve anos sem regras.
Cumprir horários e voltar ás rotinas é uma dificuldade para quem esteve anos sem regras.
@Rodrigo Cabrita

Rosa “cresceu na Lapa”. E nunca foi viciada em “drogas ou álcool”. “Sei que sou um caso raro, nunca tive vícios, mas vim parar à rua por uma questão de saúde. Desisti de mim e não sabia porquê”, frisa. Rosa trabalhava na cozinha de um restaurante. Abandonou o emprego e passou a vaguear pelas ruas. Os irmãos, “licenciados” e com boa vida, não a ajudaram, ao contrário do filhos, de 39 e 23 anos, que sempre a apoiaram.

Agora está num quarto, graças à Crescer. E já descobriu a razão do seu problema: “o meu cérebro produz líquido a mais. Duas vezes por ano tenho de retirar o excesso”. Sente que a sua vida está a “endireitar-se”. Voltou a uma cozinha de restaurante, o problema de saúde está controlado, está a cuidar de si e tem emprego. Rosa já tem planos para o futuro.

N.R. Os nomes são fictícios a pedido da equipa.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.