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Na Rua da Grande Cidade: Um vício difícil de largar

Na Rua da Grande Cidade: Um vício difícil de largar

Editorial Viver 4 min. 28.02.2018

Na Rua da Grande Cidade: Um vício difícil de largar

“O Facebook é considerada a sexta companhia mais detestada dos EUA, logo a seguir à McDonald’s (num universo de milhares de marcas).”

Por Hugo Guedes - O que melhor caracteriza os nossos tempos é o ritmo crescente a que hábitos aparentemente bem enraizados se transformam e acabam substituídos. Isto – apesar da nossa resistência patológica à mudança – acontece-nos repetida e rapidamente. No livro que ando a ler, a escritora descreve a sua infância na Polónia comunista dos anos 80 – e, num dos capítulos mais tocantes, ela perde a sua melhor amiga quando esta se muda para o outro lado da cidade e deixa de haver qualquer contacto entre as duas crianças, já que ambas as famílias estão há oito anos na lista de espera para receber um telefone fixo. É uma história que hoje soa totalmente improvável – incluindo à própria escritora, que tem hoje apenas 38 anos.

É igualmente quase impensável hoje em dia, mas há apenas uns poucos anos todos adorávamos incondicionalmente o Facebook. E porque não? Afinal, era apenas um novo sítio web de visual refrescante que nos permitia reencontrar amigos distantes… e ir lendo umas coisas divertidas e umas coscuvilhices por aí. De caminho sentíamo-nos parte integrante e ativa da tal “revolução digital”, e ainda íamos recebendo umas festinhas no ego sob a forma de “gostos” e “flirts” virtuais. A rede era o “amigo” que estava sempre presente, sempre cool. Tornou-se um hábito tão natural como lavar os dentes.

Tudo isto mantém-se mais ou menos verdadeiro. Só que este Golias foi crescendo até se tornar num Big Brother que tudo sabe e tudo usa, manipulando-nos e tornando-nos objetivamente mais infelizes. Apercebemo-nos de que esta multinacional, longe de ser neutra, fixe ou futurista, é mais uma corporação gananciosa ao estilo de um banco ou uma seguradora ou uma cadeia de fast-food. A diferença é que não nos vende um produto, pois é grátis; ou seja, o seu produto somos nós. Consumidores e consumidos. Nada mais.

Eis-nos em 2018 num ponto de charneira nesta história. Como diria Hamlet, “algo vai podre no reino do Facebook”: a maré mudou, a empresa passou de amada a odiada – a ponto de pôr em dúvida a sustentabilidade do negócio. Neste momento é considerada a sexta companhia mais detestada dos EUA, logo a seguir à McDonald’s (num universo de milhares de marcas). Tornou-se já claro que os seus vendedores trabalharam afincadamente com a campanha de Donald Trump para ajudar a eleger o atual presidente (Zuckerberg alega que não sabia de nada). É evidente que a plataforma reduz todas as notícias ao mínimo denominador comum, não distinguindo entre informação e palhaçada, nem sequer entre verdade e mentira. Sabemos que esta empresa coleciona e vende toda e qualquer informação que detenha sobre cada um de nós – e somos 2 biliões de pessoas ali –, ao ponto de afirmar, em arrogante jeito de desafio, “conhecemos-te melhor que tu a ti mesmo!”; há uma preocupação crescente sobre aquilo a que estamos sujeitos, uma devassa constante de privacidade – a tal ponto que esvazia a própria palavra de qualquer sentido.

Penso que a imagem e a perceção da empresa começaram a cair por aí, mas o mal-estar vai muito mais fundo: também vamos conhecendo mais sobre como nos redesenham o mapa cerebral e, francamente, a imagem é assustadora. Não é por acaso que muitos dos gurus das empresas de tecnologia afirmam limitar ou mesmo proibir os seus filhos de passar muito tempo em frente a um ecrã; é alarmante que C. Palihapitiya, um respeitado vice-presidente da rede social, tenha declarado o seu “sentimento de culpa” pelo trabalho que fez na empresa, “criando ferramentas que destroem o tecido de que são feitas as nossas sociedades… nada de discurso civil, nada de cooperação, apenas desinformação e inverdades… é um problema global e devemos todos sair dali a frio, e parar”. É ainda altamente revelador que Sean Parker, um dos criadores originais do Facebook, declare que este “altera profundamente a nossa relação com a sociedade e com o Outro… interfere com a nossa produtividade e só Deus sabe o que está a fazer aos cérebros dos nossos filhos. Nós desenhámo-lo de propósito para explorar uma vulnerabilidade na psicologia humana, tal como um hacker que explora uma falha num sistema informático: para ocuparmos o máximo do teu tempo, oferecemos-te uma pequena dose de dopamina, uma hormona viciante, sob a forma de um like ou de um comentário, que te vai levar a publicar mais coisas”.

Uma vulnerabilidade psicológica explorada para melhor me manipular, me sacar mais informação e levar-me a agir como o pretendido – quiçá propondo-me que carro comprar, em que candidato populista votar… somos nada mais que cobaias de laboratório com uma conta bancária. E eu, cobaia, gostaria de abandonar o vício, mas, tal como um fumador inveterado, não consigo fazê-lo e assisto, angustiado e com sentimento de culpa, à minha continuada dependência.

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