Escolha as suas informações

Na Rua da Grande Cidade: Os cordatos
Diogo Rodrigues.

Na Rua da Grande Cidade: Os cordatos

Diogo Rodrigues © Foto Facebook
Diogo Rodrigues.
Editorial Viver 3 min. 16.05.2018

Na Rua da Grande Cidade: Os cordatos

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Diogo Rodrigues foi o proverbial homem do leme, um marinheiro explorador que subiu a pulso nos rígidos códigos hierárquicos da nobreza medieval portuguesa até se tornar capitão, cavaleiro e governador de terras na Índia, culminando com a honra máxima de deixar o nome para a História como descobridor: depois de ele ali ter chegado em 1528, uma das ilhas da República da Maurícia chama-se “Rodrigues” em sua homenagem.

Talvez seja do nome? Cinco séculos mais tarde, um outro Diogo Rodrigues faz história, mesmo que de forma bastante diferente. Este madeirense de 28 anos acaba de ser escolhido como “mayor” de uma pequena cidade inglesa. “Mayor” é ali um cargo equivalente a presidente da Câmara ou burgomestre (embora com cariz mais simbólico e menos administrativo). A cidade é Bridgwater, no sudoeste do país, e Mr. Rodrigues, entronizado na sexta-feira seguindo tradições (e vestes) seculares, não é só o mais jovem de sempre a ocupar o cargo: é também provavelmente aquele que vem de um estrato social mais humilde, é o primeiro declaradamente gay, e sobretudo – é isso que interessa para este texto – é o único vereador de origem estrangeira, ou seja, não inglesa. Foi eleito pelos seus pares, todos britânicos, pelas suas muito elogiadas (inclusive pelos que não são trabalhistas, como ele) qualidades políticas.

A história da imigração de Diogo tem parecenças com muitas outras. Chegou a Londres bebé de um ano, o pai foi trabalhar na recolha de lixo e a mãe era empregada de limpeza. Mais tarde, a família abriu um restaurante português numa pacata vila costeira, onde Diogo trabalhou até se mudar para Bridgwater e abrir o seu estabelecimento de espetadas na brasa – que vai continuar a gerir, mesmo como “mayor”. Ouvir as reações dos (relativamente poucos) portugueses da região permite reconhecer atitudes bem conhecidas: há os que pedem ajuda, os que querem fazer evoluir uma comunidade pouco qualificada e muito pouco interessada, os que querem “criar uma associação”. E há o orgulho de mãe, que se diz “muito abençoada e feliz, ele é sempre dedicado e com interesse em envolver-se e ajudar”. O discurso de Diogo é desassombrado, fala no simbolismo da sua eleição em tempos de xenofobia e Brexit, refere a inclusividade e a diversidade que para ele são bem-vindas.

Talvez seja da origem? Diogo Rodrigues é madeirense. Uma visita à África do Sul, onde grande parte da comunidade de 400 mil portugueses tem raízes na Madeira, deixa ver uma mentalidade diferente em relação aos imigrantes portugueses sacrificados, silenciosos e obedientes do Luxemburgo, ou da Suíça, ou de França. Longe do rincão pátrio, os portugueses ganham empreendedorismo; visíveis em todos os ramos de atividade económica, mesmo na restauração não se ficam sempre pelo café da esquina.

Duas das mais importantes cadeias do país, já internacionalizadas, são a “Vida e Café” e a “Nando’s”; além de criadas e detidas por imigrantes lusos, usam nomes e símbolos portugueses com indisfarçável – e bem-sucedido – orgulho.

Talvez seja do país de acolhimento? Comparem-se estes exemplos com o panorama do Grão-Ducado e é fácil perceber que o atraso é estrutural e nunca obra do acaso. Não é necessário aqui bater na tecla cansada da enorme importância dos imigrantes portugueses no Luxemburgo: a economia real do pequeno país pararia sem eles. Mas essa força só se sente ao nível do trabalho e do consumo. Assim se querem os cordatos portugueses, bons para trabalharem, pagarem impostos e comprarem salsichas e iogurtes no Cactus, além de uns voos na Luxair.

Procuremos um pouco mais além e há uma espécie de barreira invisível, de teto de vidro no exercício pleno da cidadania, vidro esse que – é impossível escamoteá-lo – os próprios portugueses parecem não saber ou querer estilhaçar. Só assim é possível explicar que uma língua que é falada por um quarto da população ativa não seja (nem esteja para vir a ser) oficial. E só a essa luz é possível compreender a ausência quase total de representação política da comunidade; por exemplo, e depois da ligeiramente humilhante recusa de José Vaz do Rio em Bettendorf, ainda está por chegar um(a) burgomestre lusitano(a). O calendário já marca 2018, o relógio continua a contar e nós, cordatos ou menos cordatos, estamos cansados de esperar.


Notícias relacionadas

Mudar de nome
Portugueses são quem mais pede para mudar de nome no Luxemburgo, uma possibilidade prevista na lei da nacionalidade luxemburguesa. Eliminar apelidos é o pedido mais frequente.
A menina luxemburguesa que pediu para aprender português
Chama-se Maria e fala português desde menina, mas é luxemburguesa dos quatro costados. Maria Hoffmann aprendeu português em criança, em Larochette, nos anos 1970. A menina luxemburguesa pediu para frequentar um dos primeiros cursos de língua portuguesa organizados para imigrantes.
ITW Maria Hoffmann - Photo : Pierre Matgé
Editorial: Que idade tem a comunidade portuguesa?
O CONTACTO festeja este ano o seu 45° aniversário. O jornal foi fundado em Janeiro de 1970, para informar a comunidade portuguesa no Luxemburgo. Ao comemorarmos esta data, surgiu-nos uma questão natural. Em que ano exacto situar o início da emigração portuguesa para o Luxemburgo?
Em Junho de 1965 uma missa na catedral do Luxemburgo juntou meio milhar de portugueses para celebrar pela primeira vez o Dia de Portugal no Grão-Ducado.
Depois disso houve um almoço eu ma festa. Foi o primeiro evento organizado pela comunidade portuguesa no Grão-Ducado de que há registo