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Na Rua da Grande Cidade: Apatia cultural

Na Rua da Grande Cidade: Apatia cultural

Foto: Shutterstock
Editorial Viver 3 min. 29.03.2018

Na Rua da Grande Cidade: Apatia cultural

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Recebi um pedido via Facebook para, com a minha voz, fazer a diferença. A minha participação é necessária. O meu voto é importante, escreveu-me o amigo que me enviou o incentivo, por sinal alguém com responsabilidades políticas junto da diáspora. “Toda a comunidade portuguesa, mas também brasileira, deve unir-se em uníssono a esse sonho”. Sonho esse que é… ajudar a Andreia Rio, uma portuguesa a residir na Bélgica, a passar à fase seguinte num concurso televisivo de cantigas naquele país.

Posso ao menos pedir um pouco de noção do ridículo? A Andreia Rio tem uma voz jeitosa; se ela for a melhor do programa, certamente vencerá, e se não for, espero que a melhor voz vença. Ou seja, nada me move contra a Andreia e nem sequer contra o telelixo televisivo; deve haver espaço para todos os gostos. O que não admito é ver tempo, esforço e vontade aplicados nesta tontice quando, das mesmas pessoas, não conheço quaisquer ideias para melhorar a vida dessa tal “comunidade portuguesa/brasileira”, nem sequer iniciativas para que essas mesmas pessoas a quem é pedido um voto (pago) num programa de TV se interessem, se envolvam, e deem o seu contributo para os temas que tenham impacto nas suas vidas – a começar pelo verdadeiro voto, aquele (grátis) em urna, que quase ninguém na diáspora se dá ao trabalho de usar.

O mais irritante aqui é a) que a estratégia resulta, ou seja, que este apelo nas redes sociais dá muitos votos à Andreia e lucros aos anunciantes; b) e que tudo isto seja considerado natural. Seria bom que os cidadãos fossem considerados como adultos desenvolvidos, e tratados como força potencial para o progresso comum – em vez de clientes acéfalos de produtos saudosistas.

Também seria bom que partisse de cada um de nós essa exigência e essa curiosidade, mas sou forçado a concluir que somos um povo apático e comodista. Pensava nisso ao verificar, por exemplo, como os portugueses têm a terceira taxa de diabetes tipo 2 mais alta da Europa, e também das mais baixas médias de desporto/actividade física entre os maiores de 55 anos, enquanto está totalmente demonstrado que o esforço físico previne e melhora os sintomas da diabetes. Mas nem assim abandonamos o sofá, entretidos a ver cantigas.

Atentem só nesta selecção de acontecimentos ocorridos nos últimos dias deste mundo que gira cada vez mais rápido: o mundo ocidental e a Rússia sobem o tom da confrontação para nos lembrar que o fim da Guerra Fria não significa que a paz vá durar para sempre. Na Europa, dois Estados “democráticos”, a Espanha e a Alemanha, cooperaram para capturar um líder regional exilado, voltando a criar, como nos tempos da ditadura franquista, a figura do preso político. Em França ocorreu mais um atentado terrorista com ligações ao extremismo islâmico. Em Itália, o partido mais votado, que existe há menos de uma década e chegou ao topo graças à democracia direta e à retórica do “anti-sistema”, vai formar um governo consistente apenas no populismo de extrema-direita e na demonização da Europa e do euro. Nos Estados Unidos, a enorme “Marcha pelas nossas vidas”, liderada por adolescentes (uma das mais eloquentes oradoras era uma jovem adulta de 11 anos), composta por tantos que estão cansados de ver os seus próximos morrerem por alguma bala perdida e alguns deles sobreviventes de ataques em escolas com armas automáticas, encheu Washington para exigir uma mudança nos políticos pró-armas do país, aos gritos de “Votem-nos dali para fora!”. E a maior rede social foi ferida, talvez mortalmente, por mais um escândalo (as revelações sobre a Cambridge Analytica, a firma que utilizou os dados de 50 milhões de utilizadores para ajudar a eleger Donald Trump), mostrando não haver limites para a indecência e ganância da empresa Facebook, que grava nos seus registos todas as chamadas e SMS já feitas ou enviadas pelo seu telefone, caro(a) leitor(a).

Qualquer um destes assuntos acabará por nos dizer muito mais respeito, e afetar incomparavelmente mais as nossas vidas, que a classificação final do The Voice Belgique. Qualquer um deles (e muitos outros) justificaria muito mais facilmente uma campanha nas redes sociais iniciada pelos nossos responsáveis políticos, e merecem muito mais que o nosso desinteresse e apatia. Temos muito mais poder para influenciar as nossas vidas do que pensamos, mas de nada serve se nos demitirmos de o usar.

Ah, a Andreia Rio perdeu a votação do público, mas foi repescada por um membro do júri – que não era português nem sequer brasileiro.