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Não brinques que te sujas!
Opinião Viver 2 min. 08.04.2022
Diário de uma mãe imigrante a mil

Não brinques que te sujas!

Diário de uma mãe imigrante a mil

Não brinques que te sujas!

Foto: Shutterstock
Opinião Viver 2 min. 08.04.2022
Diário de uma mãe imigrante a mil

Não brinques que te sujas!

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
De onde vem esta coisa muito portuguesa? Porque é que não deixamos as crianças brincar livremente em prol da limpeza?

Há um tique que me acompanha desde a adolescência ­- detesto sujar-me. Uma nodoazinha arruína por completo o meu dia. Fico ali a remoer e ela fica ela, negra, a olhar para mim. É um lembrete da minha pequena miséria. 

Na família, o mesmo. O meu pai tem sempre os sapatos impecáveis, a minha madrinha tem sempre as roupas imaculadas. Pudera, ai deles que chegassem sujos a casa quando eram pequenos. 

Mas eu estou longe de ter tido essa experiência. Quando era pequena não eram raras as meias rotas, joelhos esfolados. E não tenho memórias de raspanetes devido à sujidade. Passava tardes nos campos com os meus primos. Na terra. Nódoas era coisa que não nos assistia.  

Mas cresci a ouvir constantemente à minha volta, nas escolas, nas casas, nos parques, na rua: "Olha lá que te sujas", "já sujaste a camisola a estrear", "olha para esses sapatos!", "tás todo suado, se isso tem algum jeito!".  

Os anos foram passando, e a verdade é que eu fui ficando mais pudica para com as nódoas. E o meu filho, claro, põe-me todos os dias à prova. Quando lhe comecei a dar alimentos sólidos, lembro-me que virava a cara para não ver a esterquice que para ali ia. Beterraba, laranja, arroz. Ainda sonho com isso.  

E no parque? E quando decide limpar o chão do aeroporto? Ou lamber a mesa no restaurante? E os 'nanopedaços' de plasticina na roupa?

Decidi desde muito cedo fazer as pazes com isto. Deixo-o brincar livremente, tocar, sentir, cheirar, lamber, saltar nas poças de água. (Dica: Nestes países, Luxemburgo e arredores, os fatos impermeáveis - como o da foto - para brincar no exterior são muito comuns e práticos, recomendo.) Em suma, deixo-o fazer o que ele quer, em termos de sujidade.  

Ainda nos Países Baixos, lembro-me que não era mãe e fiquei chocada quando vi miúdos com pouco mais de dois anos a brincar descalços e felizes na relva onde tinha acabado de chover. Os pais ali, a uns metros numa mesa, a desfrutar de um copo de vinho. Chama-se a isto brincar de forma não estruturada, sem que os adultos interrompam. E não é que eles sobreviveram? 

De onde vem esta coisa muito portuguesa? Porque é que não deixamos as crianças brincar livremente em prol da limpeza? Porque é que rezingamos com coisas que não interessam para nada? 

Sinto-me cada vez mais feliz quando o Martim vem sujo da creche. Comida agarrada nas calças, plasticina nas malhas das camisolas, t-shirts pintadas, botas que são autênticos depósitos de areia.  

Ele que brinque à vontade. Só não me suje é a mim. 

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