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Nómadas 2.0: À boleia pelo mundo
Há sempre quem anda à boleia

Nómadas 2.0: À boleia pelo mundo

Foto: Simona Sadzevičiūtė
Há sempre quem anda à boleia
Viver 9 min. 26.06.2014

Nómadas 2.0: À boleia pelo mundo

Fazem da vida viagem, da viagem vida. Correm o mundo quase sem dinheiro. Destroem o mito de que viajar à boleia era coisa de antigamente. E servem-se das melhores possibilidades da web 2.0. Eis uma nova tribo nómada, a desertar do mundo do consumo e do trabalho – e a redefinir o verbo viajar, em busca da liberdade.

Fazem da vida viagem, da viagem vida. Correm o mundo quase sem dinheiro. Destroem o mito de que viajar à boleia era coisa de antigamente. E servem-se das melhores possibilidades da web 2.0. Eis uma nova tribo nómada, a desertar do mundo do consumo e do trabalho – e a redefinir o verbo viajar, em busca da liberdade.

O vulto de Puneet surge, mochila às costas, a rasgar o verde da colina e o calor de Agosto. É acolhido num tremendo aplauso. A mesma recepção espera todos os que chegam a este lugar remoto junto às montanhas Tatra, no norte da Eslováquia. Vêm de lugares muito diferentes, mas todos com um mesmo gesto: o polegar esticado.

O Hitchgathering junta duas centenas de viajantes à boleia. Habituados a ser estranhos em terras estranhas, “às vezes fartamo-nos de ser vistos como um animal no zoo”, brinca Puneet. “É bom estar entre pessoas que partilham os teus valores e forma de viver, e aprofundar o desejo de viajar e descobrir.”

Desde 2008, os encontros juntam todos os anos velhos amigos, veteranos viajantes ou estudantes de férias à boleia pela primeira vez. “Sentimos que pertencemos a uma comunidade, mesmo que não conheçamos ninguém”, revela Anja. Esta fisioterapeuta do norte da Polónia começou a viajar à boleia há quatro anos. Aproveita agora para recolher informação sobre a Índia, seu próximo destino. “Aqui inspiras-te com as histórias e experiências dos outros, conversas em várias línguas, com pessoas conscientes sobre política, ambiente e questões sociais. Faz-te questionar o ‘estilo de vida normal’: ter um emprego, um patrão, ir às compras, ter contas para pagar....”, prossegue Anja, sentada junto ao rio depois de dar um atelier de malabarismo. “Na ‘vida normal’ as pessoas são tremendamente possessivas. Quando vives assim não estás presa a nada. Desfrutamos de viver dos desperdícios da sociedade, aprendemos a partilhar e a cuidar.”

“Numa vida de rotina, há essa ficção da ‘normalidade’”, concorda Lara. “Quando viajas estás em constante mudança: o que achavas normal era simplesmente aquilo que a tua família e os teus amigos faziam”. Chegou há umas horas da cidade mais próxima, onde recuperou caixas repletas de comida do lixo dos supermercados. Deixou há poucos meses a Argentina, onde durante cinco anos foi professora de espanhol na Universidade de Buenos Aires.

“A primeira preocupação era como arranjar dinheiro para viajar. Agora é como não utilizar dinheiro!” Está na estrada há 15 meses. Sempre à boleia. “Aprendi imenso sobre o mundo, a história, as pessoas – e sobre mim mesma.”

“Na estrada estamos habituados a ser auto-suficientes”, explica Mathieu. É o seu terceiro Hitchgathering. Reúne uma pequena multidão em torno da caixinha artesanal de jogos de sociedade com que sempre viaja. “Aqui funcionamos em auto-gestão, as pessoas participam de forma colectiva na comida, nas limpezas. Não precisamos de um governador ou de alguém que nos diga o que fazer!”

A internet é um excelente recurso para esta tribo urbana
A internet é um excelente recurso para esta tribo urbana
Foto: Francisco Colaço Pedro

A ESTRADA

“Andar à boleia é uma técnica de meditação”, afirmava Puneet num evento Ted Talks em 2012, na Índia. “Num estado de movimento constante, não há forma de te agarrares às tuas crenças e referências, e encontras algo que é fundamental dentro de todos nós. Sei que quanto menos carregar mais leve me sentirei, no sentido físico como metafísico. Viver assim ensina-te de que é que realmente precisas para viver e ser feliz.”

Viaja sozinho, sem usar mapas nem sinais de direcção, sem recusar uma só boleia, sem gastar nada em transporte ou alojamento, sem aceitar qualquer dinheiro. E já lá vão mais de cem mil quilómetros.

Ei-lo no sul de Espanha, em direcção a Portugal.“Pontos altos: pendurei-me num semáforo para ser mais visível, convenci os polícias que depois apareceram a dar-me boleia até à bomba de gasolina seguinte, beijei uma empregada de uma área de serviço”, partilha na sua página no Facebook, “Puneet – the colorful hitchhiker”.

“Adoro a incerteza”, exclama Lara. “Nunca sabes quando chegará a próxima boleia, para onde te levará, onde vais dormir. É impossível prever o que vai acontecer. Aprendes a aceitar e a dar graças, a apreciar cada aqui e agora. Aprendes a apreciar a beleza do mundo – e tornas-te mais consciente de como cuidar dele, política e ambientalmente.”

Depois de viajar na América do Sul, Lara vê “tremendas contradições na Europa”.

“Para não-europeus é um espaço super restritivo. A cada dia há tantas pessoas a serem expulsas e impedidas de entrar. Vê-se tanta riqueza e tanto desperdício de comida e de energia. Magoa-me muito.”

“Viajar fez-me perceber que tenho uma serie de privilégios, na cor da pele, no género, no estatuto social, que antes me pareciam perfeitamente normais. Posso atravessar fronteiras simplesmente porque possuo um privilégio que a maior parte das pessoas não tem”, desabafa Mathieu.

“Viajo para me livrar de todas as minhas crenças e desfrutar das inseguranças da vida”, diz Puneet. “As nossas crenças dão-nos um quadro de referências, uma segurança. E eu digo: atiremos tudo isso fora! Há uma imensa beleza e alegria em estar perdido!”

Vista parcial sobre Lisboa
Vista parcial sobre Lisboa
Foto: Francisco Colaço Pedro

O TELHADO

Cinco meses mais tarde, três mil quilómetros mais a oeste: no topo de um telhado de Alfama, reencontram-se vários participantes do Hitchgathering. Para Puneet é o regresso saudoso a Lisboa, cinco anos depois de aqui ter trabalhado em inteligência artificial no Instituto Superior Técnico.

Mikael, da Finlândia, e Simona, da Lituânia, alugaram este minúsculo apartamento. “Somos um casal viajante, a tornar os nossos sonhos realidade. Estradas, aventuras e amigos por todo o mundo preenchem a nossa ‘rotina’”, lê-se no seu blogue, Wanderlust.lt, um entre inúmeros blogues de nómadas na web.

“No inverno, como os pássaros, procuramos um lugar mais a sul para passar uns meses”, conta Mikael. Este programador é um dos rostos por trás de várias ferramentas online bem conhecidas de quem vive estrada fora. E o telhado onde nos sentamos tem albergado dezenas de nómadas e programadores voluntários, juntos para as desenvolver ao longo de uma ‘hackaton’.

O centro das atenções chama-se BeWelcome.org: uma rede de troca de hospitalidade, baseada em democracia e software livre.

“O Couchsurfing tornou-se uma empresa. Muitas pessoas não gostaram que alguém se tenha posto a lucrar com a sua vontade de ajudar”, explica Mikael.

“É importante criar alternativas fora da esfera do dinheiro, geridas realmente pelas pessoas que as utilizam”, concorda Remi, que participa na hackaton antes de seguir para Marrocos.

Já o HitchWiki.org é como a bíblia online da boleia: soma três mil artigos e um mapa interactivo onde estão anotados milhares de lugares onde pôr o polegar no ar.

“Estes sites são um pouco como eu gostaria de ver o mundo: que as pessoas tivessem confiança e se ajudassem mutuamente. Gosto de desenvolver ferramentas para o tornar realidade”, explica Mikael. São ilhas virtuais de partilha e entreajuda, dizem, quando na realidade do mundo capitalista, sobretudo nos países mais ricos, a hospitalidade cedeu lugar ao medo e ao individualismo.

“Neste sistema cada um quer ter o seu carro. Antigamente era impossível. As pessoas tinham menos, partilhavam mais. Viajar à boleia era muito mais popular”, lembra Mikael. “Mas se antes tinhas de ir pelas ruas para encontrar um viajante, hoje abres a Internet e está lá tudo. Com estes sites que fazemos, ajudamos as pessoas a conectar-se, a partilhar informação e hospitalidade. Antes não era possível.”

Remi vê semelhanças entre a vida na berma da estrada e atrás do computador: “Quem trabalha em projectos de software livre está a tentar fazer algo diferente na sociedade, está a ‘hackar’ o sistema, para dar o poder às pessoas. Quando recuperas comida nos contentores e andas à boleia, estás também a ‘hackar’ o sistema.”

Ao fundo, no cais de Alcântara, chega mais um enorme cruzeiro a Lisboa. Ao contrário dos turistas, esta nova tribo nómada vive de forma humilde, de tenda ou rede às costas, e não precisa de consumir para se deslocar, alimentar ou divertir. Para o pouco dinheiro necessário, há quem tenha um trabalho freelance a partir da estrada, quem pare para fazer biscates, quem troque a sua arte por moedas nas ruas das cidades.

Há quem lhes diga que vivem de graça, sem contribuir para a sociedade. “É tão triste que haja milhões de contentores repletos de comida, e de carros a circular vazios. Deixa-me feliz que alguém os use”, observa Mikael. Puneet dispara: “Estamos a ajudar outros a reduzir a sua pegada ecológica. Estamos sempre a aprender novas competências e a retribuir a boa vontade que recebemos. Aprendi a tornar-me mais útil pela vida na estrada do que pelos anos passados nas escolas de engenharia mais selectivas do mundo.”

Mathieu importa-se pouco com quem os critica. “Estamos a viver o sonho deles! Adorariam fazer o que fazemos, mas continuarão a sonhar com essa imagem de liberdade, e a dizer que não é para eles.”

Simona é optimista: “Parece que nos últimos anos as pessoas se viram cada vez mais para uma economia de partilha, para alternativas. Também tenho a sensação de que com a precariedade e o desemprego muitas se fartam desta forma de viver. Simplesmente deixam tudo e vão embora.”

“Precisamente porque temos este tamanho desejo de nos libertarmos, é razão suficiente para acreditar que algo como a liberdade total existe”, filosofa Puneet. Consulta o Hitchwiki, faz a mochila e despede-se da sua Lisboa amada. Amanhã parte à boleia. Destino? “A estrada o dirá!”.

Francisco Colaço