Escolha as suas informações

Missão de solidariedade de português em África travada pela pandemia
Viver 5 min. 07.05.2020

Missão de solidariedade de português em África travada pela pandemia

No Quénia, onde se assinala a passagem da linha imaginária do Equador.

Missão de solidariedade de português em África travada pela pandemia

No Quénia, onde se assinala a passagem da linha imaginária do Equador.
Foto: Carlos Nunes
Viver 5 min. 07.05.2020

Missão de solidariedade de português em África travada pela pandemia

Álvaro CRUZ
Álvaro CRUZ
Carlos Nunes, português residente no Luxemburgo, andou cinco meses por África e deu quase a volta toda ao Continente por uma causa solidária. Tinha previsto terminar a viagem no Cairo, mas teve de parar o périplo no Sudão por causa do coronavírus. Regressou a Moçambique para conhecer a terra onde nasceu e conseguiu 21.000 euros para distribuir por crianças orfãs e gente necessitada, numa viagem que considerou inesquecível.

"Na Nigéria cheguei a ter uma metralhadora apontada à cabeça, mas consegui manter a calma. A polícia, o exército e até milicias locais fazem habitualmente barragens para controlar as pessoas, perguntar de onde vêm e para onde vão. É uma corrupção pegada... vale tudo para sacar dinheiro. Na minha situação fui um alvo fácil e tive de sujeitar-me para poder seguir o meu caminho", recorda Carlos Nunes que começou a sua volta por África no final de outubro do ano passado.

Em missão de solidariedade

"Foi a grande vontade de ajudar as crianças, os mais necessitados e conhecer Moçambique, país onde nasci, que me levaram a empreender este périplo por um Continente que considero mágico. Nem tudo foram rosas, mas posso dizer que vivi uma experiência inesquecível".

Uma viagem de mota num total de 41.000 quilómetros que este motorista do Tribunal de Contas começou no Luxemburgo e terminou às portas [fechadas] da fronteira da Etiópia com o Sudão do Sul.

"Tenho pena de não ter completado o trajeto. Faltaram-me cerca de 3.500 quilómetros para chegar ao Cairo, no Egito, onde era previsto terminar a viagem. Pretendo regressar um dia para a concluir, mas vai levar o seu tempo", garante.

A Tanzânia foi ponto de paragem na viagem de Carlos Nunes. Na foto ainda se vê o monte Kilimanjaro, que com 5.895 metros de altitude é oponto mais alto de África.
A Tanzânia foi ponto de paragem na viagem de Carlos Nunes. Na foto ainda se vê o monte Kilimanjaro, que com 5.895 metros de altitude é oponto mais alto de África.
Foto: Carlos Nunes

Entrou por Marrocos, desceu e passou pela Guiné-Bissau, onde ouviu algumas pessoas a falar português. Fez a sua primeira paragem obrigatória no Togo, onde visitou o orfanato das Freiras da Providência, instituição que a associação 'Togo 50-50' – sediada no Luxemburgo – ajuda regularmente com donativos e com a qual Carlos colabora.

"Foi muito gratificante sentir um acolhimento maravilhoso por parte das crianças e pessoas que lhes proporcionam um crescimento com maior segurança e dignidade. Estas vivências humanas constituem experiências de uma riqueza inestimável", regozija-se.


Durante seis meses, Carlos Nunes vai dar a volta a África.
Motard português vai dar a volta a África em seis meses por causa solidária
Carlos Nunes partiu no sábado rumo ao Continente africano para uma aventura que vai implicar uma viagem de mais de 40.000 km. Angariar fundos para a associação grã-ducal ’Togo 50-50’ e conhecer a terra onde nasceu (Moçambique), são os seus objetivos prioritários.

A mota foi bem preparada e apetrechada para a viagem, mas teve dias inteiros em que não conseguia fazer mais de 60 ou 70 km.

"Saía por volta das 7h da manhã, mas havia zonas com muita lama e poeira. Aquilo não eram estradas, eram caminhos. Levei uma tenda, mas só a utilizei duas vezes. Andava sempre todo sujo e com pó. Dormi muitas vezes em hotéis e pensões sem eletricidade e sem água. Tinha de me lavar com um balde".

“Olha o branco”

Em contrapartida, viveu momentos que nunca mais vai esquecer. "Vi coisas que nunca pensei ver. Muita pobreza e precariedade, mas também paisagens de cortar a respiração, pessoas humildes e com um sorriso lindo. Gente acolhedora e simples. Às vezes saía e os miúdos viam-me e diziam ’olha o branco’ e vinham ter comigo a rir para pedir coisas e tirar fotos. Muitas vezes partilhava comida com eles e outras pessoas. Foram momentos fantásticos", recorda emocionado.

Em Angola, foi acolhido por um membro do clube de motociclistas de Luanda e por lá permaneceu alguns dias. “É um país bonito e mais desenvolvido do que muitos outros por onde passei. Gostei muito”, diz.

Desceu, atravessou a África do Sul e voltou a subir para rumar à terra onde nasceu, outra das paragens marcantes e obrigatórias do seu périplo: "Quando cheguei a Moçambique fiquei uns dias em Maputo, na casa de um português casado com uma moçambicana que também tem residência no Luxemburgo e gentilmente me ofereceu estadia. Depois, fui para Quelimane e em seguida para Gurué, terra onde nasci. Não conhecia nada, mas foi uma emoção muito grande. Há muito que queria conhecer esta cidade porque os meus pais falavam-me de tantas coisas e eu não me lembrava de nada."

Tensão crescente devido ao coronavírus

Deixou Moçambique e dirigiu-se para a Tanzânia. Visitou uma reserva de gorilas no Uganda e teve ainda passagens pelo Quénia e Ruanda, mas a tensão foi aumentando até chegar à fronteira do Sudão do Sul, já fechada, onde lhe recusaram a passagem.

"Mantinha-me em contacto com alguns amigos, quanto tinha acesso à internet, e ia acompanhando o evoluir da situação do coronavírus no mundo. Só comecei a perceber que as coisas estavam a mudar quando nos hotéis e na rua as pessoas olhavam para mim de forma agressiva e com receio. A tensão foi subindo de tom até que na Etiópia as reações extremaram-se. As pessoas evitavam o contacto comigo e algumas vezes até me atiraram pedras, como se eu estivesse infetado. Nem queriam tocar no meu passaporte e restante documentação com medo do vírus."

"Entretanto, fui obrigado a regressar. Apanhei um avião em Adis-Abeba, na Etiópia, para Francoforte, Alemanha, e depois vim para o Luxemburgo de mota, onde cumpri um período de quarentena num apartamento que aluguei."

Apesar de tudo, faz um balanço "muito positivo" da viagem que rendeu cerca de 21.000 euros, fruto de doações de amigos e anónimos que em breve serão destinados à ajuda humanitária.

Passou por 33 países, num  trajeto não foi cumprido, mas o mais importante foi conseguido para crianças e pessoas carenciadas a quem é destinada tão preciosa ajuda. 

 Regressou à cidade que o viu nascer, em Moçambique  

Carlos Nunes esteve em Moçambique, onde conheceu Gurué, a terra onde nasceu e eviveu com os pais até aos quase três anos.
Carlos Nunes esteve em Moçambique, onde conheceu Gurué, a terra onde nasceu e eviveu com os pais até aos quase três anos.
Foto: Carlos Nunes

Carlos Nunes nasceu na cidade de Gurué, perto de Quelimane. Os seus pais viveram alguns anos em Angola e depois da independência daquele país mudaram-se para Moçambique. 

Viveu em África pouco mais de dois anos e depois foi para Portugal e em 1978 instalou-se definitivamente no Luxemburgo. Cumpriu o sonho de conhecer a terra onde nasceu, emocionou-se, e diz que nunca mais vai esquecer.

"Tinha uma grande vontade de conhecer o local onde nasci. Os meus pais falavam-me disso, mas eu era muito pequeno e não me lembrava de nada. Era muito importante para mim satisfazer este desejo. Estou muito satisfeito por ter feito esta viagem que ficará para sempre no meu coração."  

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas