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Milu, por favor
Editorial Viver 5 min. 19.02.2021

Milu, por favor

Milu, por favor

Foto: Reuters
Editorial Viver 5 min. 19.02.2021

Milu, por favor

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
A crónica semanal de Filipa Martins.

Diga-me, doutor, porque não acreditam em nós quando garantimos que estamos bem, que a nossa vida é uma alegria? Aparecemos no ginecologista de pele bronzeada em Fevereiro, cintura de chapéu-de-sol - daqueles que fecham a velcro – óculos escuros. Violência doméstica? Que patetice, doutor. Nem violência. Nem vida doméstica. Sou lá mulher para estar em casa. Olheiras, isso sim. Cruzamos a perna em frente à médica e basta um bater de pestanas para nos apercebermos da inveja que lhe morre nos cantos da boca. Trata-me pelo nome de batismo a velhaca, quando lhe disse desde a primeira consulta: Milu, por favor.

(Remexe a carteira)

Aqui está, doutor, o meu cartão-de-visita: Milu, apenas Milu. Vá ao Algarve, corra da Praia Verde a Portimão. Vá doutor e pergunte pela Milu. Garanto que nunca será mais bem tratado.

(Pausa. Olhar baixo. Recomposta.)

Ai, doutor, a minha vida é uma alegria e aquela velhaca a dizer que tinha que vir cá. Não que me aborreça conversar com o doutor. O consultório é simpático, o sofá é um pouco rijo, mas até me esquecia disso se me servisse um gin. Agora, doutor, há lá hora certa para se beber um gin tónico. A morte e o gin não têm hora marcada, doutor. Percebo que não beba em serviço, doutor. Mas o meu serviço é beber. Como eu costumo dizer: rodelas de pepino no gin, rodelas de pepino nos olhos, rodelas de pepino no gin… A vida ensinou-me que as rodelas dos olhos podem ir para o gin, mas o contrário já não é possível. Ora, doutor, o álcool arde nas pálpebras.

(Duas gargalhadas.)

Não se importa que o trate por doutor? Não gosto da palavra terapeuta, sabe. Agora tudo vai ao terapeuta, ainda mais os quarentões saídos do primeiro divórcio. Compram uma camisa de estampados florais, fazem o circuito dos cafés em frente à Cidade Universitária e arranjam um terapeuta, melhor se for uma terapeuta. Acham, coitados, que têm a validade dos medicamentos, quando têm a dos iogurtes. ‘Os homens a partir dos quarenta é que têm interesse’, dizem eles. Aprenderam a pôr o tampo da sanita para baixo. Grande coisa. Alguns que conheço tiveram de usar uma mnemónica no pulso para se lembrarem.

(Pisca o olho. Nova pausa.)

Sento-me, peço um Bombay, evidencio o decote e digo: ‘estou no terapeuta’. Vem a pergunta a medo: ‘mas estás bem?’. E eu respondo: ‘Não, estas cadeiras são rijas que nem cornos. Fazem-me lembrar o sofá do terapeuta. De resto, a minha vida é uma alegria’. Não passam cinco minutos para ser apenas eu e o copo. Agora um quarentão… Um quarentão senta-se, pede um Dry Martini – voltam a ser adolescentes até na escolha do que bebem – abre o segundo botão da camisa floral e diz: ‘estou no terapeuta’. Vem a pergunta: ‘É meu camelo, fizeste depilação definitiva no peito?’

(Abana a cabeça. Sorri.)

Esta conversa faz-me sede, doutor. Não sei porque vim cá, doutor. Estava a pensar nisso quando marquei a consulta. A minha vida é uma alegria. A médica diz que escondo tudo por baixo de uma máscara de aparente felicidade. Ela esconde o Machu Picchu debaixo da mesa do consultório. Aquele rabo poderia ser escalado pelo João Garcia, doutor. Já o meu, doutor... Não se importa que lhe mostre?

(Levanta-se. Roda nos saltos. Senta-se.)

O doutor caía para o lado se lhe dissesse a minha idade. Pedia-me documentos e testemunhas, pedia-me que jurasse à frente do Cristo que tinha visto a revolução de Abril. E olhe que não era menina de colo… Lembro-me bem da farda do Salgueiro Maia no cerco dos ministérios do Terreiro do Paço. Não sei porque vim cá, doutor. Estava a pensar nisso quando marquei a consulta. Mas disse para mim: Milu, é a curiosidade que te leva ao terapeuta. Desse pecado não me livro, doutor. Não sou coscuvilheira, doutor. Isso não. Tenho curiosidade por coisas tolas. Gosto de saber quantas vezes come a gata do quinto esquerdo e quem comprou a casa do rés-do-chão ou onde vive o meu ex-marido. Não é que tenha interesse nele. 

Percebe, doutor? É curiosidade. Por curiosidade, abanava-o à noite para perceber se estava a dormir e eu a contar-lhe como assaltaram a retrosaria por debaixo dos arcos. Por curiosidade, desfraldava-lhe os bolsos e cheirava-lhe a camisa. Por curiosidade, pedia-lhe o carro emprestado e vasculhava o porta-luvas a caminho de casa. Por curiosidade, também o seguia depois do trabalho. Não é que tenha interesse nele, doutor. Quem é que tem interesse naquilo? Só aprendeu a pôr o tampo da sanita para baixo depois da vasectomia e, agora, depilou o peito. Aos quarenta e cinco, foi depilar o peito, doutor. Consegue imaginar coisa mais triste? É tudo por curiosidade, doutor. 

Também gosto de saber quem comprou o rés-do-chão e como se fazem os truques de magia. Nunca fui de achar normal os coelhos saírem de cartolas. Não é interesse, doutor. E quando ele emalou as tralhas e desceu escada abaixo suado, com tudo de rojo, foi a curiosidade, doutor. Foi a curiosidade que me fez pegar no telemóvel, que ele larga há doze anos na entrada, entre a Nossa Senhora e o livro de receitas em fascículos. Foi a curiosidade, doutor, que me fez ler as mensagens da Belinha, que o trata por ‘ursinho’, doutor. Não é interesse, doutor. Quem tem interesse naquilo? Toma o pequeno-almoço no bar da faculdade, doutor, e bebe Dry Martini. 

E foi a curiosidade que me fez pegar no Audi, que ele me deixou para consolo, acelerar na Avenida da República, contornar a rotunda de Entrecampos, e apanhar a Belinha à saída da Cidade Universitária. Os apontamentos da Belinha no ar, doutor, pareciam poemas de amor. Mas com a rapidez que sou curiosa deixo de ser e antes de a ambulância chegar já estava a caminho do Algarve, porque da Praia Verde a Portimão não há ninguém que não me conheça. Francamente, não sei porque vim cá, doutor.

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