Escolha as suas informações

Quando António foi pregar a Budapeste
Opinião Viver 6 9 min. 13.06.2021
Euro 2020

Quando António foi pregar a Budapeste

Euro 2020

Quando António foi pregar a Budapeste

Opinião Viver 6 9 min. 13.06.2021
Euro 2020

Quando António foi pregar a Budapeste

José REIS DOS SANTOS
José REIS DOS SANTOS
Retratos de uma sardinhada de portugueses em plena Budapeste na contagem decrescente para a estreia da seleção de Portugal no Euro2020. Uma crónica de José Reis Santos.

Um monge sobejamente conhecido por quem se atente à lusofonia nasceu em Lisboa a 15 de Agosto de 1195, então baptizado como Fernando Martins de Bulhões. Educado no Convento de São Vicente de Fora, tornar-se-ia franciscano, altura em que se assumiu como António. Como muitos na sua condição eclesiástica, cedo iniciou viagens pelo mundo cristão e pagão, espécie de programa Erasmus da época para quem sentia a vocação - com o devido respeito teológico que o filósofo de Roterdão merece - , desamimando a sua fé a quem o quisesse ouvir, ganhando fama pelas suas prelações em Portugal, Marrocos, França, até atingir terras que hoje chamamos de Itália, onde atingiria tamanho estatuto de celebridade, nomeadamente em Pádua, que muitos o julgam nativo desta cidade transalpina. António acabaria por morrer novo, nesta cidade do Véneto, a 13 de Junho de 1231, sendo canonizado logo no ano seguinte. Mantendo sempre a sua popularidade, apenas séculos mais tarde, seria institucionalizado o feriado municipal de Lisboa a 13 de Junho, durante o período do Estado Novo, o mesmo acontecendo com a tradição das marchas populares.

A noite véspera de Santo António é a noite onde a cidade se celebra nas ruas e vielas, becos e avenidas, praças e pracetas, com arraiais e brasas dedicadas ao seu santo. A noite de Santo António, aliás, ombreia com os grandes eventos colectivos e bairristas que pontuam a energia emergente e competitiva de cidades complexas, diversas e multiculturais, como o são o Palio de Siena, as Falles valencianas ou mesmo o Mardi Gras de Nova Orleães, esta já no novo mundo. No caso lisboeta, basta seguir um ano o desfile na Avenida (da Liberdade), ou irmos passando pelos bairros da cidade, para assistimos ao despique entre Alfama e a Mouraria ou entre o Bairro Alto e a Bica, para exemplificar alguns dos derbies. Toda Lisboa se representa, recebe, e se celebra. Menos este ano.

Este ano, por razões sobejamente conhecidas, o nosso António acabou por ser novamente cancelado. O Junho de festas da cidade, de sardinhas e sangria, de arraiais e casamentos, de convívio e fado vadio, ficou confinado à espera de autorização divina. Fruto destas condicionantes, quem sabe inspirado por trilhas missionarias galgadas em épocas de outras línguas por outros evangelizadores, as sardinhas mudaram-se para Budapest, quase que simbolicamente acompanhando a selecção de todas e todos nós, para que de facto não lhes falte, por aqui, nenhum tipo de apoio.

O que começou por ser uma carolice desenhada para a curta comunidade lusitana em torno do dia de Portugal com um tema de Santos Populares, organizado pela dupla Diogo Pimenta e Mónika Deak acabou por se tornar num verdadeiro arraial de Santo António com direito a sardinhada e outra comida bem tradicional portuguesa, com um toque bem madeirense, ou não fosse o chefe original desta pérola do Atlântico. O conceito e a organização coube a esta dupla maravilha, casal que se conheceu Manchester em 2011, quando ambos já trabalhavam no sector da restauração. Juntaram-se anos depois quando, sempre em terras da Rainha Isabel, se apaixonaram, e tiveram a Ariana, filha nascida em 2016 ainda na cidade industrial do norte de Inglaterra. Com a Ariana de berço, decidiram vir para a Budapeste, onde ainda 2016 nasceria o Enzo. O Diogo manteve-se dedicado ao sector HORECA (no restaurante OK Itália), mas o início da pandemia colocou-o, como milhares neste nosso continente europeu, num layoff sem fim nem perspetiva à vista.

Com o restaurante fechado, um par de forints no bolso, e dois rebentos em casa, tiveram a ideia de pegar no negócio que a família materna da Mónika explora vai para duas décadas, num pequeno lago no 17º distrito de Budapeste, perto de Gödöllő, palácio construído para assinalar a institucionalizada dualidade imperial Austro-húngara e receber especialmente a imperatriz Sisi, que rapidamente o assumiu, junto de Budapeste, como sua residência preferencial, muito para dissabor dos seus súbditos austríacos, mas para grande apreciação dos húngaros, que ainda hoje a estimam como poucas.

Como todas as boas ideias, esta pautava pela simplicidade: à actividade piscatória já existente no Csali-Tó és Vendéglő, o cenário idílico que nos recebeu, e à pequena taberna de apoio, acrescentarem um recanto português temperado pelos anos de experiência deste casal cosmopolita e condimentada com os melhores sabores não só lusitanos como madeirenses e húngaros. Só em peixe, onde a especialidade é o peixe-gato, o lago, que antes apenas alimentava os campos circundantes, roda mais de 1 tonelada por ano, mais coisa menos.

O Diogo é madeirense de gema, funchalense, daqueles cidadãos do mundo sem insularidade que o prenda, mas que o destino o fixou primeiro no Norte de uma ilha um pouco maior que a sua natal. Quem sabe se o fez para conhecer a Mónika, nascida e criada em Budapeste, que tinha acabado de decidir ir estudar turismo e Marketing. Manchester foi a escolha de ambos. Aqui cresceram como pessoas nesta cidade industrial, qualificaram-se, fizeram-se à vida, mas estarem onde o sol apenas amassa de fininho, e onde o cinza domina, com uma filha recém-nascida e sem apoio familiar, decidiram mudar, referia-me a Mónika. E a escolha foi Budapeste, com passagens por Portugal, ou mais concretamente a Madeira, onde a Mónika em 6 meses aprendeu a falar português. Já o Diogo, com estes anos de Budapest é practicamente fluente em Húngaro, e mantem a sua veia empreendedora, acabando de inaugurar com um conjunto de sócios a taberna Santo António, em Santo António, na Madeira, naturalmente, pois nem outro nome nem geografia poderia ter.

Altura talvez para introduzir o terceiro elemento neste tripé gastronómico, o chef e brewer Oliver Benda, húngaro, chefe de cozinha no hotel Nárad em Mátraszentimre ali nas montanhas Mátras, a cordilheira mais elevada do que é hoje a Hungria, próximas da Eslováquia. Tendo sido um stakehouse chef, o Olivier trouxe para o nosso Santo António um forno «reverse flow» Louisiana style concebido e desenhado por si e construído à mão pelo seu avô, antigo engenheiro aeronáutico e metalúrgico competentíssimo nas horas vagas. Este forno específico tem um desenho que obriga que o ar entre na sua camada inferior, devidamente protegido, para que percorra o caminho inverso duplamente e de forma a que o calor seja simultaneamente disperso ascendente e diagonalmente pela carne, de forma a providenciar uma cozedura perfeita, estando o exaustor próximo do ponto de entrada do lume. Toda a lenha utilizada no processo é criteriosamente selecionada e descascada, para dar o fumado certo, e que no caso do Olivier, como produtor de cerveja artesanal, encaixa na perfeição na oferta da escolha da cerveja escolhida, e fermentada para a ocasião. Escusado será dizer que o resultado final derretia na boca e, sem desprimor à nossa Bairrada, foi talvez do melhor leitão que tenho comido, especialmente depois do corte aplicado pelo Diogo, cena aliás amplamente divulgada pela imprensa portuguesa, juntamente com as imagens das sardinhas na brasa que contribuíram para que os lisboetas pudessem cheirar um pouco de santos, e quem sabe tenha levado alguns à rua a pensar que o arraial divulgado na TV fosse algures pelo seu bairro.

O restante comensal somente acrescentou ao Luisiana Style roast, pois quer o bolo do caco com manteiga de alho, como o milho frito, ou o pão de queijo, os pasteis de camarão, as coxinhas de frango de entrada – todas criações do chef Diogo Pimenta e cozinha da Mónica Deak -, não desrespeitavam nenhum restaurante da moda, e daqueles bem cotados. No mesmo sentido saiu o leitão do espeto, também ele de chorar por mais e, como uma qualquer boa marcha lisboeta, a fazer concorrência ao seu adversário do bairro do sul dos Estados unidos e causar aceso debate entre a audiência. E mesmo as entremeadas, a lembrar as roulottes da bola, forneceram o perfeito prefácio para dia 15, essa nossa antecipada entrada no Euro 2020 com a Hungria. Já na parte que nos toca, as sardinhas, e sem acesso ao Atlântico, a alternativa local foi a Croácia, ou seja, tivemos sardinhas, mas mais pequenas. Saborosas, excelentes na grelha, mas mais próximas das petingas do que das boas e gordas que pelas ruas da Sé ou do Castelo nos habituamos a mandar vir acompanhadas com um prato de pimentos. Diga-se, no entanto, que quer a sangria como as ponchas (de Limão e Laranja) se sentavam bem em qualquer mesa portuguesa. Nada a reclamar, portanto.

A enquadrar o Csali-Tó, a tasca de apoio, ou koscma como por aqui se referem a este tipo de locais, tínhamos a nos receber um grande escudo heráldico de 1848, ano onde a Hungria de juntou à Primavera dos Povos clamando liberdade do jugo austríaco, o que viria a concretizar somente em 1867, quando se consagra a tal dualidade imperial. Estamos definitivamente num espaço de orgulho magiar, mas não necessariamente nacionalista. Isto porque dentro da tasca encontramos uma parafernália mista de peças Kádár (líder húngaro de 1958 a 1989), mapas de 1914 referentes à zona húngara do Império Austro-Hungaro, antigos televisores, máquinas fotográficas vintage, aparelhos de rádio do tempo quando só havia radiofonia, pintando um ambiente retro digno de série bem produzida onde não falta uma bubos kemence, as incríveis lareiras interiores desta zona da Europa central, uma mesa de bilhar, e claro as házi Pálinkas, especialidades destiladas húngaras, sendo que as à disposição no Csali-Tó são todas caseiras e produzidas de forma artesanal, com destaque para as de pêssego (barack), ameixa (szilva), morango (eper) e melão (dinnye), estas nada comuns, e altamente recomendadas.

 Durante o evento passaram pelo Csali-Tó bem mais de uma centena de pessoas, representantes diversos da comunidade portuguesa, uns nascidos e criados em Portugal, provenientes de todos os pontos do país e ilhas, outros de Angola e Cabo Verde, o senhor embaixador e senhora embaixatriz, também diversas famílias luso-húngaras aqui criada, a que se juntaram muitos húngaros locais, uns no seu programa piscatório de fim de semana, outros especificamente para associaram ao nosso convívio, e a imprensa portuguesa em massa. E com tanto jornalista e repórteres de imagem presentes, tantos directo para o mundo português a assistir ao Santo António a pregar em Budapest e a dissertar acerca do cruzamento entre o bolo do caco com Gulyás, e a ver os conceitos de fusão desenhados pelo Diogo Pimenta, só nos resta lhe solicitar, ao nosso santo de dia 13, que continue nas suas caminhadas missionárias aqui e em Munique, e que substitua o seu tradicional menino pela seleção, para que a leve ao colo até ao último jogo de Wembley.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas

Adeptos portugueses e franceses tiraram dezenas de selfies em conjunto antes do pontapé de saída. "Já o jogo foi de loucos" como conta nesta crónica, José Reis Santos, em direto de Budapeste.