EDITORIAL: Não perder o terceiro comboio

Cerca de 60 mil pessoas, a maioria dos quais quadros superiores provenientes de mais de 170 países, estão em Lisboa para assistirem à segunda edição do Websummit. Aquele que é o maior evento mundial da tecnologia trouxe este ano até Portugal cerca de 12 mil oradores. Figuras de topo como Al Gore, Margrethe Vestager ou António Guterres, que se juntam a uma plateia de especialistas do setor tecnológico para uma maratona de conferências difundidas para todo o mundo por mais de 2.500 jornalistas.

Por José Campinho - Quando em finais do século XVIII, em Inglaterra, as máquinas começaram a substituir o homem em muitas das suas tarefas, temeu-se pelo emprego e pela economia em geral. Em vez disso assistiu-se ao início de um dos períodos mais prósperos da história mundial, que ficou conhecido como a primeira Revolução Industrial.

As pessoas e as nações (como Portugal) que tardaram a adaptar-se a essa nova realidade ficaram para trás, mas o mundo, de uma forma geral, progrediu. As máquinas passaram a ser parte integrante do quotidiano das nações mais industrializadas, capazes de fazer mais e melhor com menos pessoas e em menos tempo.

Cerca de um século depois, esta revolução evoluiu para uma segunda. Depois do ferro e do carvão, surge o petróleo e com ele os motores de combustão que, aliados às linhas de produção, entretanto criadas pelo norte-americano Henry Ford, permitem aumentar exponencialmente a produtividade das diversas indústrias. Desta(s) revoluções (muitos historiadores consideram que a segunda foi apenas uma evolução da primeira), surge também uma diferença fundamental na forma e na velocidade com que pessoas e bens se deslocam. Portugal chegou mais uma vez atrasado. A locomotiva, desta vez, passou a ser alemã e norte-americana.

Se a internet e as novas tecnologias merecem ou não o estatuto de revolucionárias, ao mesmo nível das revoluções industriais nos séculos XVIII e XIX, é uma questão que continua a dividir opiniões. Talvez na fase em que nos encontramos as inovações não sejam ainda tão disruptivas como foram as das Revoluções Industriais. Mas para lá caminhamos. E a passos largos.

Em muitos aspetos é, tal como aconteceu na segunda revolução, apenas uma evolução em relação às anteriores. Mas cujo impacto na qualidade de vida das pessoas é ainda inestimável e que permitirá corrigir (e esperemos remediar) muitos dos danos colaterais das revoluções industriais.

É, tal como disse Stephen Hawking, convidado surpresa da cerimónia de abertura do Web Summit, que decorre pela segunda vez em Lisboa, uma época de grandes desafios, de oportunidades inimagináveis, mas também de riscos imprevisíveis. Um deles é a Inteligência Artificial. Outro é ficar, mais uma vez, a ver o comboio passar.

Em vésperas deste que é o maior evento mundial da tecnologia, Marcelo Rebelo de Sousa queixava-se da pouca importância que os portugueses ainda dão à educação. Apesar de não ser um “digital native”, o Presidente da República sabe do que fala. A Revolução Digital deixará, tal como as anteriores, muita gente para trás. A começar pelos que não apostaram na formação.

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