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E eu é que sou o avec?
Editorial Viver 4 min. 27.02.2021

E eu é que sou o avec?

E eu é que sou o avec?

Foto: Thomas Trustchel//GettyImages
Editorial Viver 4 min. 27.02.2021

E eu é que sou o avec?

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Como muitas redes sociais o fizeram no passado – o Facebook começou assim – no período de lançamento, o Clubhouse obriga quem queira inscrever-se a passar por um padrinho.

Inscrevi-me no Clubhouse. Quero dizer, a Suzana deu-me cabo da cabeça durante dois dias até me convencer a finalmente abrir uma conta.

Não, o Clubhouse não é um bar da moda ou um clube privado onde só entram membros, mas uma rede social.

Como muitas redes sociais o fizeram no passado – o Facebook começou assim – no período de lançamento, o Clubhouse obriga quem queira inscrever-se a passar por um padrinho. Ou seja, alguém que já esteja lá dentro tem de nos convidar para aderirmos.

A Suzana convidou-me. E não descansou enquanto não me inscrevi. Tens de lá ir. É o futuro. É altamente.

Fui ver. Descarreguei a app e, graças ao convite da Suzana, já estou no Clubhouse.

Para quem ainda não foi convidado pela Suzana, fiquem a saber que esta nova rede social é como se fosse uma camada de reuniões Zoom sem imagem.

Eu explico melhor. Há quartos, ou salas, ou lá o que é (em inglês é rooms), onde se debatem distintos temas.

Qualquer membro pode lançar um debate, criando a sua própria sala.

Como gosto de comunicação social, jornalismo, cinema, marketing, livros e afins disse à app que esses são os meus interesses.

Uns minutos depois comecei a receber alertas. O primeiro dizia que não sei quem estava a debater questões ligadas ao jornalismo e a forma como os meios de comunicação cobriram a pandemia. Que noutra sala se conversava sobre os desafios do marketing no novo normal.

Entrei na sala em que se falava de jornalismo e a pandemia. Uma senhora, muito bem falante, explicava que as “paywalls foram canceladas durante o confinamento”. Afirmou que não sabia explicar se isso foi click bait ou whatever ou uma forma de atrair novos subscritores.

Fui ver o perfil da senhora. Trabalha em comunicação social e mora em Lisboa. Não vive em Londres nem Nova Iorque mas usou mais palavras estrangeiras do que um emigrante de férias em Portugal em agosto.

Quando me deparo com tantos estrangeirismos tenho duas vontades: traduzir e insultar. Não necessariamente nesta ordem. Como sou bem educado não insulto, mas traduzir dá-me gosto. Noutra vida fui tradutor e admito sentir um certo gozo poder propor ao pessoal que digam acesso pago em vez paywall ou que subscritor é assinante.

Mas como sou novo no Clubhouse, e ainda não conheço as regras da casa, decidi seguir caminho.

Fui espreitar a tal sala onde se falava de marketing. Dei uma olhadela aos perfis dos participantes. Espantoso! Tanta gente interessante e com responsabilidades em grande empresas portuguesas do setor.

Comecei a ouvir. Um senhor com sotaque cuidado dizia que a entrada de novos players e o crescimento do digital vão influenciar o recrutamento de experts da área de marketing e sales. Quase vomitei. Estava a preparar-me para levantar a mãozinha digital para pedir a palavra quando ele acrescentou que cresce a procura de perfis como e-business, trade marketing e sales analyst, mas também de gestores de categoria e product managers.

Pedi a palavra fazendo o meu melhor sotaque de emigrante em França. Bonsoir, sou o Raúl, vivo em Luxemburgo com a minha madame, e fui agora ali levar a pubela mas estive sempre aqui a ouvir os messieurs já faz tempo e não compreendi tout à fait se o debate é em inglês ou português, mas vou ensaiar repetir o que ouvi para ver se foi isto que o monsieur que falou agora quis dizer.

E disse-lhes em bom português: penso que o que quis dizer foi que a entrada de novos atores e o crescimento do digital vão influenciar o recrutamento de peritos na área de marketing e vendas. E depois explicou que cresce a procura de perfis tais como os de comércio eletrónico, marketing da distribuição e analista de vendas, mas também de gestores de categoria e de produto.

Foi isto que o senhor quis dizer?

O silêncio foi sepulcral. Ninguém abriu o microfone. Ninguém pediu a palavra. O moderador nada disse.

Decidi bater no ceguinho. Se eu tivesse dito essas expressões em francês, tinham todos ficado a pensar que eu era emigrante em França, ou seja, um avec, um emigra. Mas parece que o uso e abuso de inglês não levanta problemas nenhuns, e tão pouco perguntaram a este senhor se ele vive em Darwin ou Chicago.

Desculpem incomodar, mas era só isto, só queria salientar que existem palavras em português que querem dizer exatamente a mesma coisa que o senhor disse em inglês.

O senhor que tinha usado os 70 anglicismos por metro quadrado decidiu defender-se. Caro Raúl, a gente não se conhece, mas apreciei o seu humor. Mas olhe que há expressões no marketing, e sobretudo no marketing, que infelizmente só se podem dizer em inglês e, entre nós, profissionais do ramo, entendemo-nos melhor assim.

Disse-lhe que tinha pena que assim fosse e que não estava convencido. Que a inserção de duas palavras em inglês em cada frase me parecia mais uma forma de excluir ou, então, de mostrar que se pertence a um setor de atividade quase como se fosse uma seita.

Afinal, os anglicismos no marketing são como o verbo do pedreiro: uma língua que só eles percebem para que mais ninguém saiba do que estão a falar.

No nosso caso, emigrantes, a mistura de línguas não é nem pretensão, nem exclusão, nem serve para nos armarmos em carapaus de corrida. Acontece simplesmente porque somos bilingues (ou mais). Mas nós temos outra vantagem: percebemos o significado e o sentido das palavras que utilizamos...

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