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Dor e sofrimento
Viver 9 min. 21.10.2022
Confissões

Dor e sofrimento

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Dor e sofrimento

Vieira da Silva
Viver 9 min. 21.10.2022
Confissões

Dor e sofrimento

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Quando precisamos de dar sentido à vida, no confronto com a morte, não há engenharia que nos salve!

Se, no Ocidente, a morte se tem transformado cada vez mais num tabu, como argumentam muitos historiadores, essa não foi a minha experiência. Vivi rodeado de mortos. Estiveram sempre presentes em retratos, fotografias, heranças mas, sobretudo, nas conversas.

Na casa que tinha sido do meu avô, quando o meu pai morreu, a minha mãe e nós, os seus cinco filhos, ficámos a viver com a minha avó. Sogra, casada pelo civil com um republicano, e nora, de família católica e origens numa linhagem muito antiga, pertenciam a mundos bem diferentes. Mas tiveram de se unir, por terem ficado viúvas num espaço de sete meses.

As profissões liberais de advogado do meu avô e de médico de meu pai não deixaram uma situação financeira folgada. Apesar de vivermos rodeados de uma pequena corte de tias-avós, damas de companhia, dependentes, empregadas, moços de fretes e até, em dias de festa, do Ernesto, criado de mesa.

Perdi o meu avô, quando tinha dois anos, e o meu pai aos três. Guardo dos dias de ambas as mortes recordações da casa cheia de gente. A minha mãe, que ficou viúva aos 37 anos, representou no seio da família alargada o modelo da mulher honrada não só por ter educado cinco filhos, mas também por nunca mais se ter voltado a casar.

Neste último ponto, a minha mãe estava situada nos antípodas da D. Matilde. Era assim que era tratada, sem o título de senhora, a vizinha que vivia por baixo de nós. Tinha sido casada, em segundo casamento, com o capitão Fernandes, que fora cunhado da minha avó. Um homem mais velho que ainda conheci, mas já entravado. Sem sabermos ao certo de onde vinha, suspeitávamos que a D. Matilde andara a servir. Depois da morte do Fernandes, acabou casada com o médico que a assistira na doença do velho. Com o novo marido chegou a renovação do apartamento, num mau gosto que era em nossa casa etiquetado de estilo Matilde. O Julinho, o impedido do capitão, o zarolho que vivia num quarto interior que dava para as escadas, lá continuou. Sabe Deus a troco do quê.  

Aos domingos, desde que me lembro de mim próprio a dar milho aos pombos no Largo do Camões, a minha mãe comprava um raminho de violetas à saída dos Mártires, para pôr numa pequena jarra ao lado do retrato do meu pai. Os outros mortos, constantemente lembrados em casa, eram o meu avô e o meu tio Nuno, que morrera, no final da década de 1920, vítima de uma das últimas epidemias. Um facto dado como certo era que a sua morte ocorrera seis meses antes da descoberta ou da comercialização da Penicilina, que o teria salvo, segundo o rumor que corria na família.

Por estranho que possa parecer, a minha avó – cuja inteligência me pareceu sempre ser tão grande quanto o sentido da resignação que demonstrou frente à dor de ter perdido o marido e o único filho, num lapso de tempo tão curto – tinha uma particular devoção pelo tio Nuno. Sobretudo pelo retrato tirado por um fotógrafo profissional, talvez o Bobone, que se encontrava numa moldura oval de prata, com um lacinho em cima do mesmo metal, sempre acompanhado por uma jarra com flores. Mas havia muitas outras fotografias do tio Nuno, em diferentes tamanhos, espalhadas pela casa e em álbuns que estavam numa gaveta que conheci bem.

Até muito recentemente, prolonguei dentro de mim a mesma devoção, acompanhada de um sentimento de injustiça, pela sua morte prematura. Mas afinal, o tio Nuno, disse-me um dia o meu irmão, nunca existiu. – Nunca foi nosso tio, porque morreu aos treze anos! Afinal, a memória que dele guardámos, como um rapaz anafado, que no campo gostava de andar aos pássaros e a explorar tudo o que havia para conhecer, não podia fazer dele o nosso tio. E, no entanto, a memória do seu sofrimento – a que se somava a imagem do gigantesco cortejo no dia do seu enterro, transformado em homenagem ao meu avô e à falecida República – permaneceu devido às histórias que ouvíamos acerca dos anos sucessivos em que os meus dois avós visitavam o seu caixão, no jazigo de família aos Prazeres.

A Júlia, uma antiga criada – para utilizar um termo hoje caído em desuso, mas difícil de substituir a não ser por anacronismo – contava que, num dia de maior desespero, os meus avós tinham aberto o caixão. As saudades do filho eram tantas que queriam voltar a vê-lo. Mas deste episódio, verdadeiro ou falso, não se podia falar, a não ser às escondidas.

Por estranho que possa parecer, só não havia flores em casa junto do retrato do meu avô, pintado por Abel Manta, talvez por se encontrar no escritório ou biblioteca, rodeado de livros. Ali existia uma enorme cabeça em gesso de Molière, que alguns julgavam ser o busto da República, que nos metia medo e nos afastava desse universo livresco.   

Ao longo dos anos, aprendi a gerir a minha situação de órfão de pai. No fundo, talvez por ser o irmão mais novo, o meu sentimento de perda era mais fabricado, consoante as ocasiões, do que real. Sempre pensei que, se tivesse tido pai, a minha personalidade seria diferente. O que me fazia sofrer era a solidão da minha mãe. Apesar de ter, agora, de reconhecer que participei, desde cedo, nesse largo processo de controlo que as famílias exercem sobre os seus membros, no sentido da preservação da sua honra. É que, no início dos anos sessenta, no seio das famílias lisboetas de classe média alta (onde nós ocupávamos o seu extracto mais baixo), o estatuto da mulher honrada equivalia ao que hoje se chamaria castração: uma mulher só podia ter ou ser de um único homem. Assim viveu a minha mãe.

Uma das últimas provas da sua honradez, isto é, do seu reconhecimento ouvi-a, há pouco meses, no enterro de uma tia, sua irmã, quando um primo-direito de ambas atravessou a igreja para me lembrar que a grande referência de toda a família era a minha mãe. Sempre o soube, digo-o com uma ponta de orgulho, por me parecer que esse mesmo reconhecimento e demonstrações constantes de deferência foram a grande fonte de compensação do sofrimento em que viveu.

Tudo isto seria demasiado triste se não tivessem existido outras dimensões da vida familiar que a minha avó e a minha mãe souberam incutir em casa. A ideia de fazer bom ambiente era uma delas e concretizava-se em longas horas de conversa à mesa. Almoços, jantares e lanches, o famoso chá com torradas, eram obrigatórios. Tudo se passava ali, nessa vontade de estarmos juntos, a recordar, a mexericar e a argumentar, tal como se a discussão valesse por si, independentemente do ponto de vista que se pretendia defender.

A preocupação pela conversa e esse modo de fazer bom ambiente levaram a minha avó a autorizar a que as minhas irmãs, então no início da sua adolescência, fossem autorizadas a fumar à mesa. Pior do que isso seria levantarem-se para fumar às escondidas e desfazer o bom ambiente de estarmos todos juntos.

Outra das dimensões que contrariava a ideia lúgubre da família rodeada de mortos encontrava-se numa espécie de intenção permanente de organizar festas, onde fosse possível dar largas às piadas, à música e ao riso. Numa palavra, o sentido do divertimento implicava um esforço permanente de organização de lanches a custo reduzido, e lá vinham outra vez as torradas com a luxuria do doce e o capilé, à base de gelo e água. Festas e divertimentos surgiam, também, como uma forma de comunicação com outras famílias, a começar pelos primos que moravam perto e a terminar nos pretendentes das minhas irmãs que vinham rondar o terreiro aos sábados à noite e aos domingos à tarde.

Toda esta arcádia da minha infância, se era em parte soturna, também foi composta de outras dimensões feitas de conversas e divertimentos. Guardei-a na minha memória com nitidez, porque me marcou e fez pensar nessa boa banalidade, tantas vezes repetida, acerca da enorme resistência ao sofrimento de que todos somos capazes. Mas recordo tudo isto, porque atravesso um momento de enorme sofrimento pela perda do meu irmão. Sei que não estou só neste sentimento de perda. E não estranho que, de forma mais intuitiva do que consciente, em lanches e jantares, nas conversas à volta da mesa e nalguns encontros com família e amigos, esteja a encontrar as forças de que preciso para me conformar com a sua ausência.

Se Deus existisse, queria muito que o meu irmão estivesse no Céu e que não tivesse sofrido. Mas também me importa – tal como me disse um outro amigo quando a minha mãe morreu – conseguir preservar e transmitir, às minhas filhas e aos meus sobrinhos, o seu melhor lado. Concretamente, os traços da sua personalidade tutelar, generosa e insubstituível desse grande contador de histórias que escrevia maravilhosamente, mas era preguiçoso. Claro que o seu humor, também, fazia parte do melhor que ele tinha e era capaz de dar. O modo como assumia não ser nenhum espelho de virtudes fazia parte da sua enorme capacidade para brincar consigo próprio. 

Quanto aos aspectos negativos, como a incapacidade de ouvir opiniões contrárias à sua, a mais de um mês da sua morte, já se estão a esfumar. No fundo, é como se a dor que sinto pela sua perda tivesse de ser compensada pela memória do seu lado bom. 

É, com toda esta psicologia barata, a única de que disponho, que procuro dar sentido a algumas das minhas experiências de sofrimento, encontrando os instrumentos de que tanto preciso para lidar com uma situação que estou longe de conseguir controlar. Seria também necessário conseguir comparar sentimentos de dor e perda, causados por separações amorosas, com as ausências para sempre criadas pela morte dos que mais gostamos. Ou, num quadro mais diversificado de experiências, gostava de perceber melhor como nos afastamos daqueles que sofrem um acidente ou são vítimas de uma doença, por nos sentirmos incapazes de lidar com o nosso próprio sofrimento de perda.

No entanto, tenho muitas dúvidas acerca de todos os exercícios destinados a racionalizar, a medir ou a quantificar a intensidade da dor e da nossa capacidade de resistência ao sofrimento. Quando precisamos de dar sentido à vida, no confronto com a morte, não há engenharia que nos salve! 

  (Autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

 


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