Escolha as suas informações

Retratos escondidos de Paris à beira das eleições
Opinião Viver 6 min. 22.04.2022
Viagens

Retratos escondidos de Paris à beira das eleições

Viagens

Retratos escondidos de Paris à beira das eleições

Foto: DR
Opinião Viver 6 min. 22.04.2022
Viagens

Retratos escondidos de Paris à beira das eleições

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
No início desta semana, estive dia e meio em Paris. Nada mau! Podia ter-me limitado a participar na reunião a que tinha de ir por zoom, sem sair do meu buraco. Mas a universidade que me convidou insistiu em pagar-me avião e estadia. Por isso, não quis desperdiçar a oportunidade.

No início desta semana, estive dia e meio em Paris. Nada mau! Podia ter-me limitado a participar na reunião a que tinha de ir por zoom, sem sair do meu buraco. Mas a universidade que me convidou insistiu em pagar-me avião e estadia. Por isso, não quis desperdiçar a oportunidade. Foi a minha primeira saída para o estrangeiro, depois da pandemia. O hotel com entrada curiosa e uma porta pintada de azul-turquesa tinha uns quartos lúgubres e minúsculos – o costume! Mas não me queixo, julguei que me poriam num outro, bem melhor, onde já tinha estado, mesmo em frente da Sorbonne.

A viagem correu bem, dispus de um fim de tarde e de uma manhã só para mim, uma vez que a reunião foi no dia da volta e durou toda a tarde. Andei a pé e perdi-me nalgumas livrarias. Só assim conseguir ensacar uma quantidade de livros velhos e novos. Não consegui ir a nenhuma exposição, nem entrar num único museu. Infelizmente o Jammes, um dos mais importantes centros do livro antigos do mundo, estava fechado. Mas lá estive a esborrachar o nariz na vitrine. No único jantar a que tive direito, comi um belo “filet de boeuf saignant à la citronnelle et au basilic”. Depois, como um verdadeiro animal, fui dormir de barriga cheia.

As minhas viagens profissionais, tal como os meus interesses são tudo coisas demasiado livrescas e académicas para interessarem seja a quem for. Considero, cada vez mais, que a escrita e a investigação vivem de rotinas e são estas práticas mais sedentárias que me permitem trabalhar. E, se uma viagem, por breve que seja, se apresenta como algo de excepcional frente a um quotidiano marcado pela repetição dos hábitos, as minhas idas e vindas são ou, antes, eram quase sempre feitas em função das minhas necessidades de trabalho.

Por todas estas razões, tenho pudor em impingir ao leitor, sob a forma de crónica, as minhas impressões de viajante e até me sinto ridículo em presumir que lá porque fui a Paris posso vir agora fazer um arrazoado do que me ocorreu durante as minhas deambulações. É que o registo autobiográfico, confessional, ainda por cima feito a propósito de uma viagem, grande ou pequena, resvala quase sempre no ridículo quando nos tomamos demasiado a sério e julgamos que aquilo que nos interessa pode, mesmo que de forma breve, interessar aos outros.    

Todas estas desculpas servem de introito a uma questão que se me pôs enquanto me debruçava sobre o dito “pavet” e bebia um “pichet” de tinto da Borgonha. Afinal, o que mudou em 35 anos de visitas e de estadias em Paris? Desenganem-se os que pensam que irei responder a esta pergunta com uma cronologia dos acontecimentos ocorridos desde 1987 para cá, isto é, desde o momento que antecedeu a Queda do Muro de Berlim até ao início da Invasão Russa da Ucrânia. Prefiro escolher, apenas, dois ou três fios mais pessoais.

O primeiro diz respeito ao esforço que inicialmente tive de fazer para me apresentar e começar a participar nos seminários de historiadores da Escola dos Altos Estudos. O mundo familiar de onde vinha era demasiado fechado e a universidade portuguesa em que me tinha formado – que acantonara no departamento de sociologia Vitorino Magalhães Godinho, o mais internacional dos historiadores portugueses – não me tinham preparado para viajar para outras paragens. Por isso, cheguei a Paris num Outono magnífico, cheio de camisolas e casacos, com medo do frio. Levava uma mala de rodinhas que um parente me emprestara, mas que eu não sabia se devia puxar ou empurrar. E fui, de carta na mão e com um envelope com livros de Magalhães Godinho, apresentar-me a alguns dos historiadores que mais admirava.

Fi-lo, de início, com um colega com quem dividi projectos e partilhei certezas. Pensávamos, então, que acumular conhecimentos fora nos ajudaria a mudar o que achávamos atrasado cá dentro. Passávamos os dias na Biblioteca Nacional e, quando esta fechava, mudávamo-nos para a biblioteca do Centro Pompidou. A ideia de que ali podíamos aceder a livros que cá não havia era o nosso ópio.  

Quando voltei, no ano seguinte, o meu amigo Luís Bernardo, que ali vivia desde os dezoito anos, sempre a trabalhar em diferentes empresas, mas que se licenciara em literatura na Sorbonne, mostrou-me uma outra Paris. Foi com ele que jantei tantas vezes fora e comecei a sair à noite, nos sítios que estavam a dar. Aos domingos, corríamos pelos parques e almoçávamos. Ao arroz de refogado, por mim cozinhado, chamávamos-lhe a memória da nação... 

Na meia dúzia de anos que se seguiram, dependi do acolhimento de tanta gente, cada um com a sua Paris para me mostrar. Entre muitos, destaco Jorge da Glória, o conhecido investigador de psicologia social do Centro Nacional de Investigação Científica francês, que me mostrou o seu Marais. Sempre viveu do desperdício da sua inteligência e enorme cultura, concentrando-se tanto na lógica da sua argumentação, quanto na extravagância das suas referências e personagens inventadas. Estar com ele, sempre foi e continua a ser melhor do que ler um livro de ficção.

Décadas passadas, na entrada deste Outono da vida, sentado numa esplanada do Boulevard Saint-Michel, claro que lamento o fecho de tantas livrarias, bem como o notório declínio do mundo intelectual e académico parisiense, em benefício de uma cada vez maior dependência dos grandes centros anglo-americanos e alemães. Também me horroriza que a sombra dos confrontos entre Valéry Giscard d’Estaing, François Miterrand, Jacques Chirac e Raymond Barre, dessas décadas longínquas, possa ter dado lugar ao recente e pobre debate entre Macron e Marine Le Pen.


Macron alerta para risco de guerra civil em caso de vitória de Le Pen
O Presidente cessante francês e candidato à reeleição, Emmanuel Macron, dramatizou hoje o discurso em relação à candidata de extrema-direita Marine Le Pen, alertando que o programa governativo da adversária poderá desencadear uma "guerra civil" em França.

Em mais de três décadas, também muita coisa mudou em Portugal. Não escondo que, desde então, sempre em conjunto com outros colegas, ajudei a publicar duas colecções de livros de história e ciências sociais, primeiro na Difel, depois nas Edições 70. No total, conto quase sessenta títulos. Um esforço colectivo impressionante, contra ventos e marés, os silêncios da imprensa e as invejas da parte mais mesquinha do mundo académico. Sobretudo, as traduções de livros oriundos de centros mais avançados e escritos por investigadores de diferentes áreas, com grande capacidade de inovar, acabaram por se constituir em referências, neste quadro bastante atrasado em que continuamos a viver.

Ora, esse foi um legado que, em parte, dependeu da ajuda inicial de alguns investigadores franceses, tais como Pierre Bourdieu, Roger Chartier, Jacques Revel e outros. Oxalá as novas gerações, muito mais bem preparadas e cosmopolitas que a minha, saibam intensificar e alargar esse testemunho, feito tantas vezes em esforço e com a falta de meios adequados.  Reconhecer as condições e as razões do nosso atraso, centrando-nos nos caminhos da investigação e do conhecimento científico inovador, continuará a ser a melhor forma de continuar a progredir. No fundo, trata-se, uma vez mais, de insistir na necessidade de apelar ao ideal iluminista, francês e não só, das luzes da razão. Contrapondo esse mesmo ideal a tantas formas de barbárie e descivilização com as quais nos confrontamos, hoje, devido à guerra causada pela invasão da Ucrânia pela Rússia.

 

 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.