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Do Amor
Opinião Viver 4 min. 17.09.2021
Relações

Do Amor

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Do Amor

Foto: Robert Doisneau
Opinião Viver 4 min. 17.09.2021
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Do Amor

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
O amor sobre que escrevo existe num corpo concreto e tem rosto. Quando fecho os olhos consigo vê-la.

Hoje, escrevo sobre o amor. Não acerca do amor banal e passageiro, que habita nas músicas ligeiras, morre nas praias e desaparece com a mudança de estação. Nem do amor livresco, construído como esfera autónoma de sentimentos. E embrulhado numa linguagem engravatada, onde se sente a canga da literatura e das paixões ficcionadas, desde La Princesse des Clèves até à Madame de Bovary, que mandaram às urtigas contratos e estratégias familiares. 

Tão pouco sei falar do amor aos outros, vivido e praticado como se de uma redenção se tratasse. Mas tenho pena. A sua carga sacrifical enternece-me, por tocar no que aprendi e pratiquei na infância e na adolescência. E confunde-se com um sentimento elevado de generosidade com os outros, que receio ter perdido, apesar de o continuar a procurar. O que mais me irrita são os que julgam ser necessário andar por aí a falar sobre o amor próprio, como chave da propalada meditação, em modo de autoajuda e de espiritualidade de aviário. 

O amor sobre que escrevo existe num corpo concreto e tem rosto. Quando fecho os olhos consigo vê-la. Esse amor tem uma história que é única. Feita de acasos e de um itinerário que nada tem de linear. Os medos, as hesitações, a interrogação sobre este ou aquele falhanço, até o sofrimento, são mais importantes do que as assunções perentórias. Como eu gosto de ouvi-la dizer, serenamente, quem é. E o que pensa. Mais a musiquinha do toca-e-foge que me deixa atónito e preso.    

Nú feminino
Nú feminino
Desenho a tinta da China sobre papel de Alice Jorge, 1961

A beleza do nariz e do olhar, sem esquecer o sorriso ou a frontalidade da fala, compõem o rosto do meu amor. Talvez, por isso, tenha razões de sobra para não gostar desses troncos sem cara das pinturas do Julião Sarmento. Que ele me perdoe, lá onde está! É que me era difícil suportá-lo quando parecia investir nas texturas do branco, para depois equiparar os corpos femininos a cadeiras, ou seja, a objectos. Pior ainda era quando se justificava com a sua curiosidade pelo erotismo.

É que o amor que gostaria de ter sempre à minha frente tem rosto e fala. Quando fecho os olhos, consigo vê-la com nitidez. Que não haja enganos: penso e escrevo acerca da minha pulsão para conseguir estar junto dela a toda a hora.  O mais perto possível. Fazendo-me de engraçado, contando-lhe uma história ou trazendo à baila uma referência que desconhece. Tudo o que quero não é impor-me, muito menos rondar o terreiro. Ela que o faça. Caso contrário, fico ansioso ou sinto-me sozinho. Os desencontros e as resistências doem-me. 

Há, também, qualquer coisa de infantil no amor. Por isso, não me venham com a bazófia da experiência acumulada e da maturidade. Todo o amor verdadeiro tem traços de inocência, de regressão e até de patetismo, por parte de quem perde a cabeça e fica disso orgulhoso.

Miguel Esteves Cardoso ensinou, a uma data de gerações de portugueses, a viver os prazeres mais primários, que são ao mesmo tempo os mais refinados. Mas, ao fazê-lo, parece que impôs como condição principal que mimetizássemos o amor dele pela sua amada. 

Aprecio a sua lição epicurista, mas não sei se a receita é válida. O que sei é da exaltação provocada em mim pelo meu amor. Do estado em que fico, sem conseguir pensar em mais nada. Às vezes prostrado, outras esperando por ela. Vou à janela, vezes sem conta, para a ver chegar. Procuro perceber os seus silêncios ou intuir os seus jogos, tanto quanto imagino o que foi a sua vida, que em boa parte desconheço. 

Se dizem que o amor é profundo, eu prefiro convencer-me da sua leveza. Uma leveza que não precisa nem de referências, nem do peso do passado. Pelo contrário, sei bem que só se torna leve quem consegue enterrar o que lá vai. Para depois se emancipar, num futuro não muito longínquo, transformando-se naquilo que é feito do desconhecido. Por isso, digo, o meu amor é corajoso.

O amor que sinto e no qual penso, esse amor que nunca chegou a ser propriamente revelado, é uma espécie de loucura que foge a todas as regras e convenções. Uma construção voluntária, mas sem plano. Um abismo permanente para se descobrir aquilo que está ainda por inventar.

Tudo coisas que guardo para quando o meu amor me quiser. Até lá, saboreio este contentamento descontente, penso em como conseguirei concretizar o que o amor causou em mim. E, tal como me disse, ontem, a minha maior amiga, a quem contei tudo: que bom, aproveita, a vida não nos dá muitos despertares!

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