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Diz-me o que fazes nas redes sociais, dir-te-ei quem és…
Opinião Viver 6 min. 19.01.2022
Dicas/Educação

Diz-me o que fazes nas redes sociais, dir-te-ei quem és…

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Diz-me o que fazes nas redes sociais, dir-te-ei quem és…

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Viver 6 min. 19.01.2022
Dicas/Educação

Diz-me o que fazes nas redes sociais, dir-te-ei quem és…

Ana Cristina LOPES BARBOSA
Ana Cristina LOPES BARBOSA
Dicas para que as crianças na internet não se tornem nem vítimas nem agressoras.

(Ana Cristina Barbosa, psicóloga e Alexandra Brito, professora)

As nossas crianças e jovens são uma geração muito diferente do ponto de vista do conhecimento e da utilização das tecnologias.  São aquilo a que ouvimos chamar "nativos digitais", mas esta expressão induz-nos no erro de pensar que já nascem ensinados, o que não é de todo o caso. O que acontece é que já nasceram numa era em que o acesso a smartphones, tablets e computadores é comum desde muito cedo.  Os ecrãs interativos são o prolongamento dos braços e servem para distrair com imagens, vídeos e música, servem para brincar, para acederem à informação, para jogar, para comunicar a todo o tempo com as pessoas de quem gostam... tudo muito rapidamente e à distância de um click ou um swipe.

Isto representa novos desafios educativos quer para as famílias quer para as escolas, algo que tem necessariamente que passar primeiro por fazer refletir também os adultos, para depois estarem preparados para saber como melhor o fazer com as crianças.

A internet e as redes sociais são um tema abordado recorrentemente pelos perigos que implicam – avisamos as nossas crianças e adolescentes para se protegerem de estranhos, do desconhecido ameaçador... e vamos tentando dar dicas tecnológicas de como o fazer: aceitar só amigos reais, manter os perfis privados e sem informação pessoal, quer em texto ou imagem, etc.... Mas será que os estamos a saber educar para a forma como devem usar estas novas ferramentas nas suas relações próximas?... será que estamos a fazê-los pensar nas diferenças entre enviar mensagens, imagens e vídeos virtualmente ou apenas mostrá-los cara a cara,  quer do ponto de vista das oportunidades, quer dos riscos e dos limites da interação nas redes sociais! Será que estamos a educar intencionalmente para a ética nas relações, educar para que tenham noção do certo e do errado nas redes sociais entre amigos e conhecidos?

 Ora hoje queríamos falar um pouco sobre isto... a forma como as tecnologias estão a ser utilizadas pelos jovens para se relacionarem uns com os outros. Esta é a realidade incontornável, muito diferente daquela que foi a nossa realidade enquanto jovens... e não adianta fantasiar no regresso ao passado, na ideia de que só as interações cara a cara são válidas e positivas, até porque este é claramente um caminho de não retorno... como os carros foram para as carroças...


Um dos principais problemas dos jovens é o da viciação nos jogos online e nas redes sociais.
Crianças em perigo por trás dos ecrãs
Psicólogos e outros especialistas dão conselhos sobre como evitar o flagelo do vício dos ecrãs, e outros problemas como o cyberbullying ou pornografia infantil.

Como em tudo na vida há os dois lados da moeda. Redes sociais como o Instagram, o Facebook, o Whatsapp, entre outros, permitem aos jovens ligação constante com os seus contactos, bem como fazer rapidamente mais contactos. Se pensarmos bem, isto é uma oportunidade fabulosa e um facilitador nos primeiros passos do estabelecimento de relações, principalmente para aqueles miúdos que forem mais tímidos ou que por alguma razão se vejam limitados na interação com os outros. Para além disto, permite que a rede de relações seja geograficamente ilimitada e possa ser muito rica do ponto de vista multicultural - desde que se ensine a salvaguardar alguns comportamentos de segurança face a estranhos potencialmente perigosos.

Mas tratando-se sempre de relações entre pessoas, mesmo com as próximas e da nossa intimidade, há-de acontecer o que sempre aconteceu: alguém amigo/namorado hoje pode não ser amanhã; confidências vão ser traídas; rumores vão ser espalhados; vão acontecer conflitos e aborrecimentos e vão em algum momento ser ditas coisas desagradáveis e às vezes insultuosas no calor do momento. 

E apesar de sabermos que tudo isto é expectável, o impacto de ser feito pessoalmente ou nas redes sociais é totalmente diferente, pelo que temos mesmo que abordar esta questão com os nossos jovens, não só para se saberem proteger, mas para serem bem conscientes da dimensão do que possam fazer, para que percebam que tudo o que escrevem, enviam ou publicam na internet fica registado para sempre e pode a qualquer momento ser disseminado de forma viral - e coisas publicadas vão ser potencialmente alvo de escrutínio e alvo de "maus fígados" das formas mais inesperadas, acéfalas e até violentas que  comentários e memes podem assumir ...

E para que enquanto crescem não estejam nem do lado das vítimas, nem do lado dos cyberbullies, é importante trabalhar o sentido ético de todos:

  • Primeiro, é importante trabalhar as noções de confiança, consentimento e intimidade: se alguém me envia uma mensagem, uma imagem ou um vídeo seu, quer dizer que confia em mim, eu não o posso partilhar com outras pessoas sem o seu consentimento... isso é errado e desleal, em última análise até poderá ser crime.
  • Ao mesmo tempo há que explicar que existem pessoas desleais e que infelizmente muitas vezes são pessoas que antes considerávamos amigos ou eram namorados... por isso, há que confiar desconfiando, nunca correndo muitos riscos, ou seja, como critério explicamos que só devemos enviar coisas que não tenhamos problemas que venham a público, agora ou no futuro... tudo o resto mostramos ou partilhamos presencialmente. E se alguma amiga ou amigo está a ser desleal e a passar vídeos, imagens ou mensagens de outras pessoas, se formos coniventes ou também o fizermos estamos a ser cúmplices.
  • Segundo, é importante trabalhar a noção de violência psicológica e a diferença entre dizer uma piada ou um insulto cara a cara ou fazê-lo nas redes sociais. Nenhum é bom, entenda-se, mas fazê-lo nas redes sociais rapidamente se torna num achincalhar coletivo... e para que percebam, fazer a comparação física entre o que seria um empurrão ou mil empurrões... insultar, falar mal em redes sociais é covardia e potencialmente de uma violência sem controlo. Assim, devemos ensinar que se não houver nada de útil, construtivo ou gentil a dizer ou escrever, mais vale não dizer nada. E vendo alguém a ser vítima de achincalhamento coletivo se deve intervir, pedir ajuda ou denunciar. Portanto, as redes sociais têm que ser vistas por todos como um carro veloz e fabuloso do ponto de vista das relações interpessoais, mas que por isso mesmo também implica uma curva de aprendizagem, muito mais atenção na sua condução e limites definidos muito claramente. 
  • É primordial, por fim, que este educar para as relações virtuais (ou pessoais) não se faça apenas com um momento de conversa, mas num acompanhamento e diálogo continuados a partir das vivências e experiências que os nossos filhos vão tendo ou vão vendo outros ter e, desejavelmente, com o bom modelo dos adultos.

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