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Deslocações casa-trabalho afetam a saúde mental
Viver 4 min. 17.06.2019

Deslocações casa-trabalho afetam a saúde mental

Deslocações casa-trabalho afetam a saúde mental

Foto: Shutterstock
Viver 4 min. 17.06.2019

Deslocações casa-trabalho afetam a saúde mental

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
Quanto mais tempo investido em trânsito menor a disponibilidade para momentos em família ou atividades de lazer.

Casa-trabalho, trabalho-casa. De transportes públicos ou de carro próprio, percorremos todos os dias o mesmo trajeto para o emprego. Quanto mais tempo demorar a chegar ao destino, maior o impacto negativo na saúde mental e satisfação no trabalho, revela um estudo inglês. 

Trabalhar longe de casa muitas vezes não é opção mas uma necessidade. Veja-se por exemplo, o Grão-Ducado onde as filas de trânsito ou horas intermináveis no autocarro ou comboio constituem a realidade  diária para muitos. De acordo com os números mais recentes do instituto de estatísticas luxemburguês (Statec), em abril de 2019 havia 200.528 trabalhadores transfronteiriços que diariamente atravessam a fronteira da Bélgica, Alemanha e França para trabalhar e/ou regressar a casa. 

Um estudo vem agora dizer o que já se suspeitava. O tempo gasto nestas viagens pode ter um impacto na saúde. Segundo uma equipa de especialistas ingleses, cerca de duas horas por dia dispendidos nestes trajetos - o equivalente a 10 horas por semana e 40 horas por mês -  têm consequências na maneira como o trabalho afeta a saúde mental. 

A investigação foi um trabalho conjunto entre as universidades inglesas de Bristol, Leeds e Napier. Os cientistas compararam dados de 26 mil trabalhadores do Reino Unido, entre 2009 e 2015. Segundo os dados, os participantes sentiam que o tempo que passavam a ir para o trabalho ou a regressar afetava o tempo livre. Ou seja, quanto mais tempo investido em trânsito, menor a disponibilidade para momentos em família ou atividades de lazer. 

O resultado varia também de acordo com os setores da população e parece afetar mais intensamente pessoas com uma carreira já estabelecida e com rendimentos mais elevados. "A ligação entre percurso para o emprego e satisfação profissional não se aplica a jovens adultos e pessoas com rendimentos baixos. Pessoas mais novas podem ver este tempo como um investimento profissional e pessoas mais velhas tendem a ter mais exigências em relação ao tempo passado em família. 

"Ou, simplesmente, quem está em início de carreira e tem ordenados abaixo da média tem menos escolha no que diz respeito à distância entre casa e local de trabalho", explica Chatterjee, sugerindo que "encurtar a distância para o trabalho pode aumentar o nosso bem-estar mas pode também significar que se perde os benefícios alcançados como mais dinheiro ou ter a casa e trabalho de que se gosta. 

"É preciso investir em políticas de transporte, habitação ou emprego para que as pessoas consigam ter a casa que podem pagar perto do emprego onde se sentem bem", salienta ainda.

O meio de transporte também é relevante para o impacto das deslocações na saúde mental. Ir de comboio para o trabalho revela-se mais satisfatório do que ir de carro. Apesar do estudo não conseguir explicar  as razões para tal, pode estar associado a menos stress provocado pelo trânsito ou aproveitar o tempo de transporte para fazer outras atividades como ler, adiantar trabalho ou mesmo descansar. 

No que toca ao impacto por género, a relação de tempo de trabalho/vida pessoal revela-se particularmente negativa para as mulheres, já que "estas, tipicamente, ficam encarregues de mais responsabilidades para com a família e o lar", refere Kiron Chatterjee, um dos responsáveis pelo estudo.

Já num outro estudo inglês recente, os investigadores concluíram que ser mãe e manter um trabalho a tempo inteiro pode ter consequências graves para a saúde mental das mulheres, já que tendencialmente, estas assumem mais responsabilidades familiares. Em concreto, os cientistas observaram que os níveis de stress crónico são 40 por cento mais elevados entre o grupo de mulheres que tiveram dois filhos e trabalham em horário completo, em comparação com as mulheres sem filhos e que fazem o mesmo horário.    

Na conclusão do estudo sobre as deslocações casa-trabalho, os investigaddores sublinham dois pontos a ter em conta: distâncias curtas entre trabalho e casa aumentam a satisfação profissional e saúde mental. Por outro lado, ir a pé para o trabalho acarreta benefícios físicos e mentais para a rotina do dia-a-dia. O ideal seria, por isso, optar por um deles, se possível.