Escolha as suas informações

Desconversar
Opinião Viver 8 min. 10.12.2021
Socializar

Desconversar

Hernâni Miguel, um dos reis da noite do Bairro Alto.
Socializar

Desconversar

Hernâni Miguel, um dos reis da noite do Bairro Alto.
Foto: Rodrigo Cabral
Opinião Viver 8 min. 10.12.2021
Socializar

Desconversar

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Confesso ser sensível ao que um dia me disse uma amiga: "os teus amigos não alinham uma conversa de jeito".

Vivi muitos anos fora. Tantos que acabei por perder os contactos que tinha na cidade onde nasci e cresci. A distância que sinto em relação aos meus vinte ou trinta anos, antes de ter emigrado, em lugar de apagar as minhas memórias, devolve-me, cada vez com mais nitidez, a consciência do que aprendi por esses anos. Paradoxalmente, recordo-me melhor desses tempos, em que pude participar de uma espécie de arcádia, do que das experiências que tive fora de Portugal, talvez, por aí me ter concentrado demasiado no trabalho diurno. Por isso, é dessa arcádia noturna, dos anos oitenta e início da década de 1990 que quero falar.

Dizer que ela foi uma confraternização permanente, interrompida pelas jornadas de trabalho, mas rapidamente reposta pela noite fora, só tem sentido se se perceber que essa arcádia era uma festa. Uma boémia bebida e comida, acompanhada por música e dança, sem esquecer as gargalhadas. Pouco importa, hoje, fazer o inventário dos sítios e das mesas à volta dos quais tanta gente se reunia. Só importa reter alguma topografia, a benefício de inventário.  

Em Lisboa, o eixo Príncipe Real-Bairro Alto até ao Cais do Sodré só tinha duas variantes: uma que descaía até à Praça da Alegria, chegando até ao Ritz Club e ao velho Hot Club; outra que ia até S. Bento, descrevendo um círculo que ia do Trumps até à Lontra. Fora de portas, já em Campo de Ourique, só o Bana se constituía em alternativa séria. E, no lado oposto, para o Martim Moniz, o Bolero ainda funcionava. 

Dizer que tudo começara à volta das mesas da cervejaria Trindade, onde tudo fora planeado, pode não corresponder à verdade. Mas o certo é que o início da “invasão” do Cais do Sodré pode ser visto como uma espécie de descida dos grupos que frequentavam a noite e que chamaram a si os lugares que eram considerados marginais. 

Quais as bases sociais em que assentava a vida boémia? É uma pergunta que não tem uma resposta fácil. Pensei, em tempos, que uma certa ambição de experimentação estética, por parte de quem frequentava as Belas Artes e Arquitectura, teria sido um elemento agregador das aventuras onde convergiam: prostitutas reformadas, travestis, novos looks mais ou menos pós-modernos, uma catadupa de novas ondas musicais, uma mistura de universitários com gente que trabalhava nos mais diferentes serviços, uma certa libertinagem sexual só em parte assustada pela Sida, pessoas extremamente politizadas que se diluíam ou confrontavam com outras cuja criatividade tinha deixado de caber num espectro que ia da esquerda à direita, uma afirmação clara e sustentada de grupos de homossexuais com as suas capelinhas próprias, mas também com um desejo de romper com as convenções, não sei quantas formas de duplicidade por parte de quem frequentava a noite, em contraste claro com as ocupações mais convencionais exercidas durante o dia, uma atracção ambígua e biunívoca entre as margens e o centro, que contava com muitos indivíduos casapianos, à cabeça dos quais estaria o Mário Pilar, do Bar Artis no Bairro Alto.  

Hernâni Miguel, um dos reis da noite do Bairro Alto.
Hernâni Miguel, um dos reis da noite do Bairro Alto.
Foto: Tiago Fezas Vital

A este caldo da boémia noturna pertenceu também uma primeira afirmação de sujeitos racializados. Há quem pense que se tratou, apenas, de uma concessão excepcional por parte de brancos privilegiados. Discordo. É que o Hernâni Miguel, o Zé da Guiné ou o Chinês do Mahjong eram a ponta de um iceberg de agentes independentes, com um enorme poder carismático. Longe de mim fazer esta evocação, pouco sistemática e trapalhona, para insinuar que essa mesma boémia trazia consigo uma espécie de multiculturalismo. As clivagens eram enormes e havia hierarquias bem estabelecidas, as quais eram determinadas, sobretudo, por diferentes padrões de consumo e o acesso desigual a recursos de vária ordem. Por exemplo, ir às Primas não era a mesma coisa que ir ao Frágil ou aos Pastorinhos.  

Contudo, não resisto a descrever esses anos – que foram tempos de generalização de consumo e diversificação das drogas, a ponto de ter deixado de ser possível distinguir entre drogas leves e duras – como um momento em que se impôs esse movimento dos Narcóticos Anónimos. Neste, era possível juntar em salas, cedidas pela Igreja, os pobres e os ricos, mais as suas famílias, pois todos eram agarrados à procura de uma saída. As suas partilhas sempre me pareceram, aliás, exemplares, tanto quanto discretas. Partilhas, insista-se, fundadas em pequenos passos, bem como na capacidade de lidar com as debilidades de cada um e de saber conversar acerca delas.  

Se este cortejo da boémia e da gargalhada não tinha propriamente um rumo, nem obedecia a uma grande estratégia ideológica (pós-moderna, multiculturalista ou outra qualquer), havia nele uma expressão de recomposição de fragmentos com sentidos muito diversos. Claude Lévi-Strauss tinha, a respeito do pensamento selvagem, evocado, já no início dos anos sessenta, a figura do bricoleur e do bricolage para expressar essa mesma criatividade individual. Esta foi vivida, em Portugal, numa espécie de contraciclo do que se passara na década de setenta, com os seus modos de politização partidária. Porém, mais do que esta mesma referência livresca, prefiro ser sensível ao que um dia me disse uma amiga alentejana, filha de um militante histórico do PCP, que inspirara Saramago em Levantados do Chão: “os teus amigos não alinham uma conversa de jeito”.   

Durante anos guardei essa frase, entendendo-a como sinónimo de uma boémia inconsequente, sem plano, nem estratégia. Mais recentemente, quando me confrontei com as experiências dos anos oitenta, tal como surgem representadas no filme recente sobre António Variações, realizado por João Maia (2019), arrisquei dizer que uma política que construiu novas identidades nasceu à noite. Uma política identitária onde se praticavam novas experiências de género, de antirracismo e até de emancipação classista, criando uma tensão permanente entre grupos e indivíduos, normas e modos de transgressão. 

Hoje, em face do mesmo quadro – provavelmente, demasiado idealizado como uma arcádia de relações afectivas e de respeito mútuo, donde sempre achei que estavam ausentes as relações de violência – , chocam-me duas coisas. 

Por um lado, choca-me a amnésia ou o modo deturpado com que são lembrados esses mesmos tempos que, para abreviar, definiria como de uma enorme experimentação culturalista e de explosão de significados. Uma amnésia tanto maior quanto é o ressentimento daqueles que nunca conseguiram passar as portas do Frágil, porque a Guida Gorda – vá-se lá saber porquê – nunca os deixou entrar. 

Por outro lado, impressiona-me que se perca o sentido sociológico das referidas práticas sociais e culturais e, em sua substituição, se passe a considerar apenas as instituições e organizações políticas que chamaram a si a defesa de certas identidades. No caso do antirracismo, por exemplo, mais importante do que tentar perceber por que razão queria ir o Alcindo divertir-se ao Bairro Alto, já fui contemplado, por um dos meus críticos mais assanhados, com a estopada de uma história das organizações antirracistas. Tal como se Marx nunca tivesse existido e a história social pudesse ser feita com base nas instituições, em lugar de ser explicada a partir das práticas concretas de grupos e indivíduos...  

Com base no mesmo quadro, há ainda razões de sobra para se pôr, mais uma vez, em causa o imperialismo de uma certa razão universal. Refiro-me, concretamente, ao título do livro da jornalista britânica Reni Eddo-Lodge, Porque deixei de falar com brancos sobre raça (Edições 70). Trata-se de um livro onde há muito para aprender acerca de como na sociedade britânica existem tantos modos de racismo estrutural e institucional. Este último está bem enraizado, por exemplo, nas forças policiais. Destaco, sobretudo, os casos empíricos que a autora analisa, sobre os quais pretende oferecer uma pequena história, bem como o modo como concilia as suas análises com o relato de experiências mais pessoais, sobre as quais revela um olhar bem reflexivo. Um exemplo interessante a seguir para o caso português e que não pode ser subsumido no britânico, tal como este se pretende diferenciar do que sucedeu nos Estados Unidos. 

O que me parece inadmissível é o próprio título. Mesmo reconhecendo que a sua força não passa de uma simples provocação, porventura comercial, que não corresponde à experiência da autora, que chega a confessar não ter praticado o que promete. E mesmo que se perceba que as raízes dessa mesma provocação estão no incitamento à violência, há muito suscitado por Fanon em contexto de luta anticolonial, sendo este último erguido ao estatuto de herói intelectual e de autoridade indisputável. O certo é que, à mensagem contida no título, só se pode responder de uma maneira, isto é, sendo tolerante com os intolerantes. Logo, continuando a conversar. Declaro-o, mesmo admitindo, como dizia a minha amiga alentejana, que os meus amigos não alinham uma conversa de jeito...         


 

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.