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Quantos braços tem uma mãe?
Opinião Viver 2 min. 25.03.2022
Diário de uma mãe imigrante a mil

Quantos braços tem uma mãe?

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Quantos braços tem uma mãe?

Opinião Viver 2 min. 25.03.2022
Diário de uma mãe imigrante a mil

Quantos braços tem uma mãe?

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
O que faz uma mãe perante o que já está feito? Arranja sempre mais qualquer coisa para fazer antes de colar o rabo ao sofá.

O estado de graça com que a gravidez me presenteou devia durar para sempre. Durante nove meses fui invencível. A maior. Exibia orgulhosamente a minha barriga, sentia que podia voar. Nunca fora tão zen em toda a minha existência.

Com a criança cá fora, uma tempestade imensa abalroa a minha vida sempre que fico sozinha durante semanas com o Martim (o trabalho do pai assim o obriga). Passei a ser uma mãe robô. Tenho cinco braços, faço sempre pelo menos duas coisas ao mesmo tempo. A minha mente só pára para dormir (e quando não sonho). Sou uma executadora de tarefas com uma checklist mental que vou assinalando ao longo do dia.

Enviei o mail para a creche? Será que lhe vesti pouca roupa e ele vai morrer de frio? Descongelei as almôndegas? Será que preciso de lhe comprar mais roupa? Que receita nova lhe vou cozinhar hoje? Será que tenho comida suficiente em casa? Desliguei o fogão? Tirei a roupa da máquina?... É isto. A toda a hora.

Quando chego ao fim do dia só peço 10 minutos no sofá (o tempo máximo que eu demoro acordada), com a criança já a dormir. A luz apagada, o silêncio na casa.

Antes disso, maratonas da casa para creche, creche para o trabalho, trabalho para a creche, creche para o supermercado, supermercado para o parque, parque para casa. Sem contar todas as que faço entre portas atrás dele. Céus, como é que 95 centímetros de gente têm tanta energia?!

Às vezes estou tão cansada que apetece atirar-me para o chão e chorar. Chorar apenas, vivendo ali por uns segundos no lodo da minha depressão. Sobretudo quando estou prestes a ter os meus 10 minutos de serenidade e o universo (Martim) conspira contra mim.

Ou ele cai e bate com os dentes nalgum sítio, ou se lembra de fazer do seu pijama a sua própria tela de canetas de filtro, espalha o arroz pelo chão, berra porque não quer lavar os dentes. Espalha todo os legos pela sala que acabei de arrumar, enquanto me olha com olhar desafiador.

E o relógio a contar, e o jantar por fazer, e a roupa para organizar… e o sofá ali tão perto.

Eu fico num pranto. Berro, esperneio, queixo-me e logo me arrependo. Miraculosamente, passado uns segundos recomponho-me. A racionalidade suspende a minha drama queen e sigo em frente no que tem de ser feito. Porque tenho um pequeno ser que depende de mim e que de racional tem muito pouco, para já.

Ele, coitadinho, fica ali especado a olhar para mim enquanto me volto a erguer e sigo a vida. "Quem é esta louca?!"

Momentos depois, o universo volta a alinhar-se. Criança a dormir, cozinha arrumada, casa só para mim, pijama vestido. E o que faz uma mãe perante o que já está feito? Arranja sempre mais qualquer coisa para fazer antes de colar o rabo ao sofá.

De onde vem esta força? Não sei, mas por causa dela eu sinto-me imbatível (quase) todos os dias.

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