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O senhor Manuel
Opinião Viver 3 min. 18.06.2021
Crónica

O senhor Manuel

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O senhor Manuel

Opinião Viver 3 min. 18.06.2021
Crónica

O senhor Manuel

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Esta semana lembrei-me do senhor Manuel por causa de Cristiano Ronaldo. O nosso herói nacional arrumou para o lado as garrafas de Coca-Cola, sabe Deus porquê, e fez-me lembrar o senhor Manuel.

O senhor Manuel trabalhava na casa da minha avó há muitos anos. Sempre conheci o senhor Manuel. Não sei que idade tinha o senhor Manuel. Pelos meus 12 ou 13 anos o senhor Manuel andava sempre por ali. Podava as vinhas, desbastava o mato, plantava as cebolas e enquanto fazia isso gostava muito de fazer aquilo que agora se chama um coffee break a meio da manhã: pão com marmelada e vinho tinto.

No verão, durante as férias grandes (as minhas, que o senhor Manuel nunca teve), eu andava pela quinta a passear de bicicleta ou acompanhado pela minha cadela, a Kelly, e mais tarde ou mais cedo lá ia conversar com o senhor Manuel.

Ele encostava-se à enxada (que na minha terra se chama sachola) – naquele gesto que parece estereótipo no cinema mas que é real porque quem trabalha com ela e também graças a ela descansa – e conversava comigo. Não me recordo dos temas que abordávamos. Nem sequer consigo imaginar o que tínhamos em comum. Mas falávamos bastante.

Lembro-me muito bem que o senhor Manuel não gostava de água. Eu gostava. Ia buscá-la à bica do tanque antes das refeições ou depois de jogar ténis ou futebol. Por vezes, o senhor Manuel estava junto ao tanque e queixava-se. “Ó menino não faça isso que a água faz crescer rãs na barriga” ou “quem bebe água não é filho do Senhor”.

A minha avó dizia que o senhor Manuel gostava muito de vinho e dava instruções para que não se lhe desse demasiado durante os coffee breaks “senão depois não trabalha nada”.

Nunca vi o senhor Manuel bêbedo, com exceção de um fim de dia de vindima. Já deviam ser umas 8 da tarde do final de setembro e o senhor Manuel ria-se mais do que era costume. E oferecia vinho a todos os outros homens e mulheres que tinham participado na faina. Todos diziam que não e que ele também não devia beber. Eu achei-lhe graça. Nunca vi o senhor Manuel tão bem disposto e a dizer coisas que nunca dizia. Ele, que até era ponderado e falava devagar, com o vinho parecia uma pessoa diferente daquela com quem eu almoçava tantas vezes.

Na cozinha, o senhor Manuel comia a sopa com garfo e bebia um pequeno copo de vinho. “Quem a meio do caldo não bebe, não sabe o que perde”, dizia com sabedoria. Depois comia bacalhau ou um frango de cabidela e lá voltava para o campo. No verão o calor era muito, eu perdia três ou quatro quilos numa tarde de ténis, imagino o que custava ao senhor Manuel trabalhar de pá e enxada ou, com sorte, de tesoura de poda.

Esta semana lembrei-me do senhor Manuel por causa de Cristiano Ronaldo. O nosso herói nacional arrumou para o lado as garrafas de Coca-Cola, sabe Deus porquê, e fez-me lembrar o senhor Manuel.

Sempre que almoçávamos ao mesmo tempo – o que não acontecia sempre porque na quinta havia muitos comensais e muitos horários – o senhor Manuel ficava manifestamente incomodado com a presença da minha caneca de água em cima da mesa. Eu colocava-a sempre num determinado ponto da mesa da cozinha (já na altura tinha tiques e toques) e o senhor Manuel, discretamente, ou às vezes de forma mais óbvia, afastava a enorme caneca cheia de água para longe de si, tal como fez CR7 com as colas.

Nunca percebi se a presença da água o perturbava, se o distraía ou se simplesmente o senhor Manuel tinha medo de apanhar alguma doença pela simples proximidade de tal líquido portador de riscos para a saúde. A razão nunca a conhecerei porque, como podem imaginar, o senhor Manuel já morreu há muitos anos e – shame on me – nem sequer me lembro quando nos deixou. Felizmente está por cá o Cristiano Ronaldo para me recordar o senhor Manuel da minha infância.

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