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Condescendência ou violência doméstica
Opinião Viver 10 min. 20.01.2023
Relações

Condescendência ou violência doméstica

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Condescendência ou violência doméstica

Emily Hahn
Opinião Viver 10 min. 20.01.2023
Relações

Condescendência ou violência doméstica

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
O cenário era quase impensável: quatro mulheres emancipadas e com uma enorme maturidade intelectual e afectiva, julgava eu, em uníssono, a protestar acerca da recorrente condescendência de que continuavam a ser alvo.

Maria dos Anjos pertenceu à UEC (União dos Estudantes Comunistas). Depois, perdeu a fé no Partido e não chegou a militante. Mas só falhou a Festa do Avante uma vez, no ano em que esteve a estudar fora. O entusiasmo com que se continuou a referir à festa do Seixal, a excitação juvenil que a lembrança daqueles dias ainda lhe trazem, mais a memória das bebidas cubanas que parece a anestesiaram para o resto da vida só são comparáveis, num sentido diametralmente oposto, ao desprezo que tem pelas minhas crónicas mais sentimentais. 

Até parece que está à coca e, logo que derrapo em algo de mais confessional e lamecha, nesta escrita a pataco que vou conseguindo manter para entreter os leitores, desata a berrar comigo. 

Castiga-me pelo modo de vida burguês que levo. Sempre em jantares bem apaladados e regados com vinhos finos, com lengalengas acerca dos taninos e da mineralidade que traz complexidade na boca ou no nariz, em mesas onde se desenrolam conversas que têm tanto de neurótico, como de aparentemente profundo. Com homens e mulheres que se arrastam numa vida de privilegiados, quase irreal. Num ócio que cria espaço para a reflexão psicanalítica (ou um seu simulacro), os problemas sentimentais e as angustiazinhas sobre o sentido da vida.

Contudo, a atitude de desprezo de Maria dos Anjos em relação ao que escrevo nesses domínios não é um dado isolado. O meu grupo de amigos da Feira da Ladra, seguindo tendências e orientações políticas muito diversas, partilha a mesma posição. Posso melhor com eles do que com ela, pois é fácil perceber que o desprezo destes pelo que escrevo é determinado por um machismo arreigado, progressista e paradoxalmente de esquerda, que os leva a mostrar uma irritação que está latente, mas bem à flor-da-pele. 

Compreendo-os no seu imobilismo, mas sinceramente pouco me ralo com as suas piadinhas. Estas versam quase sempre comparações. Por exemplo, com o Alberoni, com o qual eu quereria competir, mas nem isso consigo, ou com um tal Pedro Chagas Freitas, que nos seus livros aborda temas sentimentais, com certeza, bem melhor do que eu.

Claro que fico a pensar em todas essas críticas, sabendo que há muitos outros amigos que lançam sobre mim um olhar desconfiado, sobretudo, quando reconstruo as conversas que tivemos em jantares. Há os que vêem nestes exercícios uma pura perda de tempo, incompreensível para quem se deveria dedicar, apenas, a assuntos sérios. No fundo, as minhas divagações românticas não passam, para eles, de uma mancha – espécie de retrocesso em relação aos assuntos históricos e sociais que me deveriam ocupar em exclusivo. A minha jaula está na academia, no saber institucionalizado e na língua engravatada, como dizia o Cesariny, não em liberdades ou devaneios sentimentais que, pura e simplesmente, me desqualificam. 

Outro grupo de pessoas, mais difuso, desconfia do que escrevo. Procuram, então, reconstituir o que é a minha vida real, com base nos meus textos, embora ponham em causa essa possibilidade, por reconhecerem que todas essas confissões e evocações sentimentais mais parecem fábulas. Finalmente, há os que se sentem traídos por terem procurado à volta da mesa ser sinceros, abrindo a alma e entabulando uma conversa honesta sobre os aspectos mais íntimos da sua existência, mas acabaram por ver as suas histórias escarrapachadas por mim em público, sempre de forma deturpada. Uma autêntica traição de tagarela, também ela insuportável!

Todo este introito, centrado em questões menores que envolvem a recepção dos textos que escrevo, tem água no bico. Visa preparar os leitores para mais uma historieta que, apesar de não ter grande interesse, serve para enchouriçar umas páginas. Em tempos idos, dir-se-ia, apenas, que a sua utilidade estaria no entretenimento por ela suscitado junto dos leitores, sem ferir e sem se constituir em atentado aos bons costumes. Contudo, nestes tempos de suspeição, em que muitos estão vigilantes em relação a duplos sentidos e ambiguidades, afigura-se mais difícil convencer alguém de que se trata de um acto inocente. 

Muitos são os leitores que pensarão que, atrás de uma conversa relativamente inócua num jantar com pouco mais de meia dúzia de pessoas, se encontra uma mensagem sub-reptícia. Por outras palavras, o que conto não corresponde totalmente ao que são as minhas intenções. Tanto assim é que, tenho a certeza, por mais que procure justificar-me e falar da minha absoluta sinceridade, haverá sempre quem não se conforme e queira ver algum significado recôndito no que me limito a narrar.     

No outro dia, das oito pessoas sentadas à volta da mesa, pelo menos duas delas não conheciam bem as outras, quando a conversa começou. Refiro-me ao assunto sério que versava a condescendência sentida por muitas mulheres em relação aos homens. A denúncia valia tanto no plano profissional, como no plano mais íntimo, ou seja, das relações amorosas. Foi aí que constatei que todas as pessoas presentes tinham estudos e vários diplomas académicos, pertencendo à tal minoria privilegiada apontada a dedo por Maria dos Anjos. Pelo menos duas das mulheres ali sentadas, soube mais tarde, tinham assinatura na temporada anual da Gulbenkian. 

Todas tinham carreiras de sucesso, assim presumo, por mais que esta expressão seja difícil de aceitar a Maria dos Anjos. E, no entanto, ali estavam elas a denunciar a condescendência que em casa ou no trabalho sentiam. Leonor contou, a este respeito, que a gota de água dessa mesma condescendência tinha surgido quando, ao ir buscar uma das filhas ao colégio, a professora comparara o grupo astuto e focado dos rapazes com o das raparigas, consideradas umas autênticas galinhas. Que estupidez, sem mais palavras!

O cenário era quase impensável: quatro mulheres emancipadas e com uma enorme maturidade intelectual e afectiva, julgava eu, a protestar em uníssono acerca da recorrente condescendência de que continuavam a ser alvo. Ainda cheguei a pensar que poderia existir ali uma ponta de vitimização, destinada a chamar a atenção sobre a sorte das mulheres, mas a pouco e pouco fui-me apercebendo de que estava errado na minha suspeição. Era tudo sincero. E Leonor continuou o seu lamento, mostrando uma espécie de linha de continuidade desde a sua família de origem, onde ela e a irmã no meio dos rapazes tinham sido objecto de uma evidente discriminação. 

À partida, não se esperava delas grande coisa, nem se lhes exigira o mesmo que era expectável exigir de um rapaz. Depois, nas relações, namoricos primeiro e relações sérias depois, a mesma condescendência manteve-se, como seria natural esperar. Finalmente, nos seus estudos e locais de trabalho, pouco importando que fossem grandes empresas, escritórios de advogados ou hospitais, a subalternização continuou. Sem nunca revestir a forma de violência doméstica ou de assédio moral e sexual, a condescendência ali estava. Como seria possível, pensei eu, depois de tantas décadas de luta pela igualdade de género, termos de estar a procurar dar sentido ao que o não tinha?  

Maria dos Anjos não estava ali para julgar as minhas relações e a minha participação naquele jantar de domingo à noite. Tão-pouco teria legitimidade para julgar as minhas amigas, que para ela seriam meras representantes de uma burguesia bem instalada e que, por isso mesmo, nada sabia das formas de exploração que pesam sobre o quotidiano da maioria das mulheres sem a mesma educação e, sobretudo, sem as mesmas posses. É que para Maria dos Anjos os problemas que não passam pela luta de classes nem direito têm a constituir-se enquanto reportório.

Frente a tanta denúncia e confissão de subalternidade, ainda tentei argumentar com a ideia de que se tratava de uma forma própria de ver uma questão que era mais geral, ou seja, que afectava tanto as mulheres quanto os homens. É que somos todos seduzidos por quem tem mais poder do que nós. Incluo-me, também, na categoria dos homens que procuram relações com mulheres detentoras de uma enorme capacidade de atracção em diferentes domínios. 

Assim sendo, é normal que procure alguém que exerça sobre mim algum tipo de poder, pois é nele que reside a capacidade de alguém se fazer reconhecer e impor. Coloquei-me, mesmo sem querer, numa posição que é de inferioridade e pudesse ser alvo de um tratamento mais ou menos condescendente. Ninguém ligou patavina ao meu argumento. A minha generalização era demasiado tortuosa. E o que interessava discutir era o facto de continuar a ser evidente que as mulheres eram tratadas com condescendência.  

As figuras dessa condescendência foram-se multiplicando, à medida que a conversa foi avançando. Numa delas, talvez a pior ou que foi objecto da maior denúncia, encontrava-se a necessidade reservada às mulheres de ir à volta, de utilizar uma espécie de tática sub-reptícia destinada a não ceder, mas mantendo uma aparência de submissão decalcada da velha imagem do escravo feliz. 

Tratava-se de uma tática para manter tudo na mesma, à superfície, para depois se ir por trás para procurar ganhar terreno. No fundo, era mais uma forma de condescendência e de subalternidade, mas encapotada. Como se fosse necessário aos que são considerados mais fracos utilizar armas de uma guerrilha camuflada, que nunca se apresenta de forma aberta e frontal. Confesso que fiquei atónito com a necessidade ali existente de declinar o lamento da condescendência em figuras tão sub-reptícias como esta.

Talvez por viver rodeado de mulheres poderosas, independentes, sobretudo, por ver o mesmo nas minhas filhas, em final da adolescência e entrada na vida adulta, sinto dificuldade em me identificar com tais lamentos. O que me preocupa mais é perceber que, por trás de tais lamentos, acaba por estar se calhar uma incapacidade para amar. Explico-me melhor através de uma citação, a que já recorri, de Emily Hahn, a quem tratavam por Mickey, célebre escritora norte-americana, que viveu em Xangai na década de 1930. 

Para ela, aquela era a cidade que estava no centro do mundo, foi lá que se casou com um poeta chinês milionário e experimentou as camas de ópio. Descreveu também, num livro intitulado "China to Me" (1944), o modo como roubou, à sua primeira mulher, o seu segundo marido – o historiador inglês Charles Boxer. Mas, desde muito cedo, revelou a sua independência e total incapacidade para assumir uma posição subalterna, na qual estivesse sujeita a qualquer tipo de condescendência. Por isso, mesmo estando ainda no início de uma nova relação, escreveu:

"Não sei como é que o Charles se sente. Não o compreendo de todo, nem vale a pena tentar, porque isso seria uma impertinência. Fico chocada quando dois amantes se intrometem nas emoções do outro. E se eu me preocupasse em seu nome ou lhe tomasse as dores, acabaria por ser menos feliz do ponto de vista de mim própria. O folclore britânico e a história da família de Charles estão cheios de exemplos de mulheres que eram nobres, que compreenderam os seus maridos e que lhes negaram elas próprias o amor, sempre que tal foi julgado necessário para as carreiras dos seus pares".   

Enfim, quando saí do jantar, vim a pé para casa e dei por mim a pensar que Maria dos Anjos, apesar de ser uma compagne de route que ainda fala do sonho da União Soviética, talvez não estivesse completamente errada. Ao lamento das burguesas, ainda em fase de emancipação, ao menos sempre opôs a denúncia dos privilégios das classes chiques. Resta saber se Maria dos Anjos alguma vez terá lido Emily Hahn...

 (Autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.)

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