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Como explicar a guerra às crianças
Opinião Viver 6 min. 05.03.2022
Dicas/Educação

Como explicar a guerra às crianças

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Como explicar a guerra às crianças

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Viver 6 min. 05.03.2022
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Como explicar a guerra às crianças

Ana Cristina LOPES BARBOSA
Ana Cristina LOPES BARBOSA
Não vale a pena isolar os mais pequenos, "temos de as incluir na conversa, obviamente à medida do seu entendimento, com a consciência de que esta também é a sua realidade." As dicas de uma psicóloga portuguesa no Luxemburgo.

(Ana Cristina Barbosa, psicóloga e Alexandra Brito, professora)

Os últimos dias têm sido pesados e assustadores para todos nós. Os noticiários, as redes sociais e as conversas estão inundados de imagens de um sofrimento incompreensível e esmagador. Há uma guerra a acontecer. Uma guerra na Europa, aqui ao lado, e com ela há destruição de patrimónios civilizacionais, mas muito mais do que isso, há milhares de vítimas inocentes: homens, mulheres, crianças, animais. Os olhares e palavras de desespero e de pedido de ajuda entram-nos casa e coração a dentro. Mesmo nós adultos temos dificuldade em compreender toda a dimensão do que se está a passar e, portanto, conversar sobre isto com filhos torna-se muito complicado.

A primeira questão que se coloca e que é discutida entre pais e escolas será sempre:

  • Deve-se ou não falar com as crianças sobre a guerra e o sofrimento? 

Ora, importa antes de mais ter noção que as crianças ouvem (têm radares para as conversas dos adultos), por muito cuidado que se tenha, as crianças acabam por ver na TV ou noutras plataformas digitais, as crianças falam entre si… e com todos os retalhos de informação que vão recolhendo, se não forem orientadas pelos adultos, vão construindo sozinhas ideias distorcidas e potencialmente ainda mais assustadoras do que se está a passar. Quem trabalha com crianças neste momento facilmente consegue observar este tema vertido em “brincadeiras”, partilhas espantadas e em interações nem sempre positivas. Portanto aqui só há uma resposta possível - temos de as incluir na conversa, obviamente à medida do seu entendimento, com a consciência de que esta também é a sua realidade. 

  • E como se deve começar esta conversa? 

Sempre com uma pergunta aberta… “Já ouviste falar sobre a guerra que está a acontecer?” Antes de se começar a falar ou a explicar o que quer que seja, devemos sempre ouvir com muita atenção. Devemos ouvir o que sabem ou acham que sabem, ouvir as suas dúvidas e questões, ouvir o que estão a achar ou a sentir de tudo isto.  É importante fazê-lo de mente e coração aberto, sem nos precipitarmos a contrariar ou nos indignarmos com o que nos dizem. Algumas crianças vão demonstrar fascínio pelo aparato e pela fantasia bélica, outras poderão evidenciar medo que algo de similar lhes aconteça, muitas poderão ter pouco interesse no assunto…todas estas e outras reações são possíveis e naturais.

  • Quais devem ser os pontos principais da ou das conversas?

Em primeiro lugar, esclarecer dúvidas sempre com verdade ( mas sem toda a angústia e dúvidas existenciais dos adultos), e para isso também devemos estar informados. Servirá para falar da guerra e do seu impacto sempre negativo, com destruição, pobreza, com vítimas e milhares de refugiados - valorizando a empatia com todos os seres em sofrimento. Depois servirá igualmente para tranquilizar crianças e adolescentes que estejam mais ansiosos, transmitindo-lhes confiança nas instituições, países, nas pessoas que estão a tentar intervir para resolver o conflito em favor da paz. Isto não significa desvalorizar ou minimizar o que está a acontecer com um empurrar para debaixo do tapete e ensinar a olhar para o lado quando há sofrimento - porque isso significaria ensinar a desumanizar… 

  • Mas devem ter acesso à informação veiculada nos media? 

Ressalve-se que, apesar de se dever falar também, com as crianças do pré-escolar ou reconhecidamente mais sensíveis deve-se evitar ao máximo expô-las a imagens de guerra ou às conversas com os medos adultos. A partir dos 7, 8 anos, deve-se perguntar se querem ver, de forma acompanhada, antecipando-se com detalhe o tipo de imagens que vão ver e explicando que podem mudar de opinião a qualquer momento. Se a opção for por ver, vê-se de forma controlada e homeopática - o suficiente para contextualizar a conversa, sem permitir que as crianças sejam imersas nas vagas diárias e repetidas de sofrimento bélico, que mesmo nós temos dificuldade de ultrapassar. No caso dos adolescentes, é importantíssimo para além de tudo o mais discutir, com exemplos práticos, plataformas fidedignas e não fidedignas de informação, ajudando-os a desenvolver espírito crítico nos acessos autónomos  que possam  fazer.

  • Não são demasiado pequenas para entender questões políticas?

No que diz respeito à dificuldade das questões políticas, a verdade é que tudo se consegue resumir e explicar de forma bem próxima da realidade infantil - afinal trata-se de um conflito, em que duas partes têm opiniões e posições diferentes e em que foi começada uma luta por isso. A ironia disto é clara e é uma das primeiras perguntas que as crianças nos colocam:

- “Mas vocês (adultos) costumam dizer que com lutas não se resolve nada, que devemos usar as palavras para resolver os problemas, porque é que estão a lutar?”    

E é um facto, é contraditório com tudo o que ensinamos e é o momento para uma verdade importante: Os adultos também erram, os adultos também fazem asneiras e algumas muito graves. Os exércitos, na europa moderna, existiriam para defender a paz, não para atacar. Neste caso há uma guerra e, como nas lutas, ninguém vai vencer, vão acabar todos pior e muito magoados. A via diplomática e a paz são sempre o melhor caminho.


Aprender a escolher
Será que hoje em dia se pode falar numa profissão certa? E qual é o papel do psicólogo e dos testes vocacionais neste processo de escolha de uma futura profissão?

Independentemente das razões apresentadas, neste caso houve a invasão de um país soberano, a Ucrânia, que está, e bem, a ser condenada internacionalmente. Educar para a paz significa educar as crianças para a solidariedade para com as e os Ucranianos, que estão a ter de se defender de um Golias e de abandonar o seu país para procurar segurança. Mas educar para a paz significa também explicar às crianças que não se deve associar todo o povo russo aos erros cometidos pelo seu governo, pois muitíssimos russos estão a manifestar-se contra a guerra (mesmo a risco próprio), e também o povo russo sofrerá com a guerra.

Nesta horrível situação, resta uma importante questão:

  • O que podemos fazer? Como podemos ajudar? 

 Face a uma situação  de sofrimento e injustiça, é importante que as crianças (como os adultos) não desenvolvam sensação de impotência ou dessensibilização. Se algo está errado, denunciamos, se alguém está a sofrer, fazemos o que podemos para ajudar. Neste caso, mobilizar as crianças para a ação - participando em concentrações pela paz, em recolhas de bens para apoio às vítimas, escrevendo para entidades responsáveis, etc - significa devolver-lhes esperança na ação coletiva pelo Bem, ajudando a que se sintam parte de um movimento maior que pode ajudar a melhorar o mundo.

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