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Como apanhei a covid (parte 2)
Opinião Viver 6 min. 23.10.2020

Como apanhei a covid (parte 2)

Como apanhei a covid (parte 2)

Foto: Gerry Huberty
Opinião Viver 6 min. 23.10.2020

Como apanhei a covid (parte 2)

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Na semana passada revelei aqui um segredo: que já tinha sido infetado pelo novo coronavírus. Também afirmei que fui buscar o SARS-CoV-2 a Portugal.

Na semana passada revelei aqui um segredo: que já tinha sido infetado pelo novo coronavírus. Também afirmei que fui buscar o SARS-CoV-2 a Portugal.

Contei que comecei a sofrer de dores de cabeça muito (mas mesmo muito) violentas e que regressei ao Luxemburgo, depois de uma viagem de carro, em estado lastimável: cansado, com os olhos irritados e, sobretudo, com as tais dores de cabeça. Nada de original aliás: todos aqueles que já fizeram a viagem de carro sabem que o regresso é sempre cansativo. Curiosamente, a ida a Portugal de carro não provoca tal canseira. Talvez por ser a descer? Talvez porque ganhamos uma hora na passagem da fronteira?

O regresso não é nada disto: chega-se a Chaves ou a Vilar Formoso e já perdemos uma hora no trajeto! Apetece logo voltar para trás. Depois nunca mais se chega a Burgos... e a San Sebastián nem se fala! E o pior é quando se chega a França e se descobre, como se fosse a primeira vez, que aquele país é mesmo grande...

Mas as minhas maleitas não tinham origem apenas na violência da viagem. O mal-estar tinha mesmo tomado conta de mim e, por isso, lá fui eu ao site oficial luxemburguês da covid inscrever-me para fazer um teste. Ainda por cima gratuito.

Fazer o teste covid no grão-ducado é mais fácil do que marcar uma renovação do cartão do cidadão no consulado: depois de inscrito no site vai-se ao centro de testes escolhido no dia e hora marcada levar um esfreganço na garganta.

Para mim foi extremamente prático porque tenho a sorte de viver junto a um dos primeiros centros de teste covid do Luxemburgo e, ainda por cima, em fórmula ‘drive-in’.

Como a maioria dos portugueses da minha geração, eu acho que nada se compara a coisas que a gente possa fazer com o carro. Os melhores restaurantes, toda a gente sabe, são aqueles que têm parque de estacionamento à porta. E ninguém iria aos shoppings se não pudesse parar por baixo das lojas, mesmo junto à escada rolante ou ao elevador.

Fazer o teste covid num ‘drive-in’ é por isso algo de natural, é como ir ao McDonalds só que não engolimos nada, a não ser em seco.

Fui fazer o teste à hora de almoço, numa altura pouco concorrida. Ao chegar vi as duas tendas onde se fazem as recolhas e aproximei-me devagar, preparando-me para mostrar o código que o sistema me tinha atribuído. Fico parado dentro do carro junto a uma senhora que pensei que trabalhasse ali. Como o meu carro é híbrido, e por isso silencioso, ela não se apercebeu da minha presença. “Excusez-moi”, digo eu com voz projetada e no meu melhor francês. A senhora virou-se imediatamente e pareceu sorrir debaixo da máscara azul explicando-me que não trabalhava ali e que também estava à espera de fazer o teste.

Pedi-lhe imensa desculpa. Admiti ter pensado que se tratava exclusivamente de um drive-in e pedi desculpa porque, por pouco, a tinha atropelado. Ela explicou que, quando reservou, não se apercebeu de que os vistantes deste centro de testes ali se deslocam de carro mas, pelos vistos, também atendem quem se apresente a pé.

No país de um carro por habitante encontrei uma pessoa que não tem nenhum. Deve ser a quota desta senhora que estou a utilizar porque eu tenho dois...

Feito o teste fui à minha vida almoçar calmamente num restaurante português do Kirchberg. Nesse dia não pensei mais no teste covid, nem no dia seguinte, e 48 horas depois já tinha esquecido o teste mas não a dor de cabeça. De repente, pela tardinha, recebi um SMS (que ainda não apaguei) e que dizia o seguinte: “Résultat test Covid19 positif”.

Tive de o reler para perceber melhor. Espera lá, positivo é o que não devia ser não é? Entrei em considerações filosóficas sobre se positivo era bom ou mau. De um ponto de vista

utilitarista as coisas não são tão claras e se perguntarmos a qualquer aluno de liceu, ele dirá que positivo é que é bom. Por isso hesitei. Fui ver o SMS que tinha recebido em junho: era negativo.

É oficial: apanhei a covid-19!

E agora? Vou morrer? E quando? E quem vai morrer comigo?

Como sou naturalmente altruísta (e intrinsecamente generoso) comecei a pensar em quem é que podia ter infetado.

No Luxemburgo pouca gente: só tive relações não protegidas com duas pessoas. Andei por vários restaurantes e comércios do burgo desde o regresso de Portugal, mas sempre com máscara e todos os gestos-barreira que se impõem. Pensei, mesmo assim, nos restaurantes onde espalhei vírus e nas prateleiras de supermercado onde tenha talvez depositado forte teor de micróbios...

E em Portugal? Eu já não andava bem durante as férias por isso talvez tivesse contaminado a família toda! Dei beijos e abraços até à hora da partida, além de ter jantado e almoçado com amigos. Telefonei a todos e mandei-os fazer o teste. Pedi-lhes desculpa como se os tivesse condenado à morte, como se tivesse insultado as suas mães, como se lhes tivesse roubado as mulheres ou os maridos.

Nos dias que se seguiram fui descobrindo, um a um, que não contaminei ninguém! Como é que isso é possível? Será que sou um falso positivo? Há uns senhores no Facebook a dizerem que há uma grande percentagem de falsos positivos; e até há quem diga que a covid-19 não existe. Será que sou mais uma vítima desta conspiração mundial orquestrada pelo Soros e transmitida pela 5G graças às vacinas do Bill Gates? Ou são as vacinas do Soros que são ativadas pelo Bill Gates que inventou a 5G para os chineses mandarem em nós?

Poupo-vos a história dos dias do isolamento que nunca mais acabavam, os telefonemas do médico do trabalho e dos serviços de acompanhamento luxemburgueses (que foram muito boa companhia, apesar de por vezes me terem acordado às 10 da manhã) e as séries manhosas que vi na Netflix. Mas uma coisa é certa: não foi uma gripezinha. A covid-19 é uma doença matreira. De manhã podia sentir-me bem e pensar que o pior já tinha passado quando, a meio da tarde, caia o carmo e a trindade, vinham as dores de cabeça e os olhos teimavam em não ver. E isto durante quase quatro semanas. Havia momentos em que não conseguia acompanhar sequer uma série simples como a espanhola “Vis a vis” sem ser obrigado a puxar atrás o peisódio para perceber o que se estava a passar (sobretudo nas cenas em que a Maggie Civantos tirava a roupa).

Nesta história há duas questões importantes. Uma está resolvida, enquanto que à outra a medicina não sabe responder: quais são as sequelas da covid-19?

A primeira dúvida era se eu teria ou não desenvolvido anticorpos e se estaria imunizado. O resultado do teste chegou quando eu estava sentado numa esplanada e toda a gente deve ter pensado que ganhei o Euromilhões. Positivo!

Mais uma vez o resultado foi positivo, mas desta vez positivo era bom (isto da Medicina é mesmo uma disciplina complicada). Estou imunizado, mas – avisou-me o meu otorrino – não posso andar por aí a lamber maçanetas de portas porque ninguém sabe se a imunidade é a toda a prova, nem quanto tempo vai durar.

Apesar disso, durante alguns dias até me esqueci da máscara e só me faltou andar por aí armado em Trump a dizer que sou o maior e que a covid-19 é uma gripezinha

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