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Como apanhei a covid
Opinião Viver 7 min. 17.10.2020

Como apanhei a covid

Como apanhei a covid

Foto: AFP
Opinião Viver 7 min. 17.10.2020

Como apanhei a covid

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
Quem não sabia fica agora a saber: já apanhei a covid-19. Fui buscar o novo coronavírus a Portugal.

Armado com os euros que poupei durante o confinamento, meti-me no carro, fui por aí abaixo disposto a fomentar o turismo português e a ajudar Portugal a combater a crise provocada pela pandemia.

Não posso dizer que tenha sido um grande sacrifício. Primeira boa notícia: havia menos trânsito do que é habitual. Segunda boa notícia: desleixado como sou pude dormir nos hotéis que quis sem me preocupar em fazer reservas antecipadas. Má notícia: os hotéis algarvios, apesar de se queixarem da falta de ingleses para atingirem a ocupação máxima, nem por isso baixaram os preços em julho e agosto.

Por isso pensei na Madeira. Há bons hotéis, mais baratos, e melhores, dizem os meus amigos madeirenses. Mas entre mim e o Funchal colocavam-se dois obstáculos imensos: aterrar no aeroporto Cristiano Ronaldo e fazer o teste covid antes de partir.

Não tenho medo de voar. Apesar de achar que não é natural (se fosse tínhamos asas e bico), acredito que a segurança dos aviões é superior à do elevador de vidro do Grund ou do autocarro que vai da Gare ao aeroporto. Mas o aeroporto da ilha da Madeira sempre me impôs um certo respeito. Talvez por ser curto. Talvez por ser varrido por ventos esquisitos. Talvez porque eu vejo demasiado vídeos de aterragens no YouTube quando tenho insónias e depois fico a pensar que podia ser eu naquele voo Tui que tocou o chão com uma roda para imediatamente acelerar a fundo como se a pista queimasse. Tentou duas vezes e só à terceira é que foi a valer.

O teste PCR já me era familiar pois tinha feito um no Luxemburgo, em junho, mas o método luso é diferente. Enquanto no grão-ducado o cotonete gigante vai esfregar a garganta provocando vómitos, os testes em Portugal são, na sua grande maioria, feitos com penetração nasal. A zaragatoa entra profundamente na narina deixando a impressão, pelo menos a quem observa, que, colados à ponta de algodão vão sair 125 gramas de massa cinzenta. (Abro aqui um parêntesis para citar a minha sobrinha que, quando me ouviu esta observação, comentou que não tenho razões para me preocupar com isso devido ao facto de não ter cérebro. Uma gracinha a nossa Maria Rita!).

Eu e os meus familiares (embora para eles me estivesse a marimbar que já são grandes) marcamos testes covid 36 horas antes da partida para o Funchal. A angústia convidou-se para jantar, mas como eramos só cinco não havia problemas de agrupamento ilegal.

Já passava da meia-noite – que como todos sabemos é a essa hora que em Portugal as casas se animam – a minha irmã aparece na sala com o telemóvel na mão e a gritar. Ninguém percebeu o que ela dizia. Magoou-se? Dei-lhe uma coisinha ruim? Que foi, perguntamos.

Voltou a gritar: “Negativo! Negativo!”. O primeiro a ficar branco foi o meu sobrinho cujo ano escolar não lhe correu lá muito bem e imaginou que tinha chegado uma nota atrasada de Filosofia ou de História. “Podemos ir à Madeira!, eu recebi o resultado do teste e é negativo!”. Ficamos todos aparentemente felizes por ela, mas na verdade o sentimento geral era de inveja. E os nossos resultados do teste?

Corremos todos para os telemóveis para ver os e-mails. “Negativo”, grita um. “Eu também”, diz o outro. Graças a Deus e a São Zeferino e a São Roque e a outros beatos de que me tornei seguidor fiel nessa noite – no meu e-mail também estava uma palavra que me deixou de espírito positivo: “NEGATIVO”.

Não tenho por intuito contar aqui as minhas férias no Funchal que, como todas as vacances só pecam por serem curtas, apesar de a eterna primavera madeirense ser uma treta porque choveu duas ou três vezes quando estávamos na piscina, em pleno mês de agosto (!). Desde que saiu do governo o Alberto João aquilo nunca mais ficou em condições, incluindo o clima que mudou para pior.

Regressados ao Porto decidi fazer um ou outro périplo nacional. Como bom emigrante gosto de ir de carro à terra (além disso o automóvel era novo, os sobrinhos queriam vê-lo, porque senão eu tinha ido para baixo na Ryanair) e aproveitar estar motorizado para ir do norte até à capital do Império e ao Algarve. Se ir a Roma implica uma visita ao Papa, estar em Portugal em agosto obriga a dar um salto ao Algarve.

De repente as férias acabaram. Foi assim mesmo, de repente. Estava a almoçar com uns amigos num dia de 35 graus à sombra e lembrei-me que dois dias depois tinha de me fazer à estrada. À tristeza da partida obrigatória tinha-se juntado uma dor de cabeça daquelas que só um quartilho de vinho a martelo seguido de muita aguardente conseguem provocar-me. Eu explico: não sou daquelas pessoas que sofrem de enxaquecas ou dores de cabeça por dá cá aquela palha, mas esta dor era especial. Era uma dor topo de gama. Uma dor Chanel ou Louis Vuitton, ou Prada para os mais sóbrios. Falei sobre isso com a minha mãe e manifestei-lhe a minha preocupação por ter de conduzir, agarrado à regueifa, durante dois mil quilómetros com uma dor de cornos inédita (desculpem o termo mas à medida que o tempo avançava a dor aumentava e já não me restam melhores formas de a descrever sem recorrer a estas violências linguísticas).

A minha mãe, que é um amor, tentou deitar as culpas ao tempo canicular e ao facto de “meu filho, tu já és meio luxemburguês e já não estás habituado aos calores de Portugal”.

Pensei que as mães têm sempre razão, pelo menos na culinária, mas decidi convencer-me de que se calhar era mesmo o calor aliado às duas refeições diárias com vinho a rodos que me estavam a perturbar a massa encefálica.

No dia da partida fiz de conta que estava tudo bem e, saindo depois de almoço do Porto, pensei que seria uma boa coisa se conseguisse ir dormir lá para os lados de Bordéus.

Um amigo meu queixa-se de que eu não sei fazer longas viagens de carro. Diz que paro muito, que gosto de fazer jantaradas pelo caminho e que gosto de ver as paisagens. Não será de todo mentira, mas desta vez a dor de cabeça e as dores de olhos – que entretanto começaram a chorar por dá cá aquela pestana – obrigaram-me a fazer a viagem de forma respeitadora de alguns limites de velocidade e com uma paragem em Burgos para comer umas tapas (no hotel Landa que só não recebe a visita de quem não sabe o que ali perde).

Tentei dormir num palacete perto de Bordéus mas tratava-se de um alojamento rural que fazia lembrar alguns filmes de terror situados na Transilvânia. Só adormeci de cansaço e depois de enviar uma fotografia do local a amigos, informando-os onde estava e que, se eu morresse, tudo aquilo que tenho (um carro) fica para o meu sobrinho, mas só quando ele conduzir com mais cuidado do que nos kartings do Cabo do Mundo.

Feliz por acordar sem marcas de dentes no pescoço, segui rapidamente viagem até ao Luxemburgo quase sem parar e sem fazer o meu habitual desvio por Paris. Há quem pare em Fátima sempre que faz a A1 (eu também) mas admito que é muito mais divertido (Deus me perdoe) parar em Paris quando se fazem os últimos mil quilómetros entre Portugal e o Luxemburgo.

Para a semana, neste mesmo espaço, prometo contar como não morri de covid e como podia ter sido pior...

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