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As tias avós ou como evitar ser um velho rabugento
Opinião Viver 9 min. 29.07.2022
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As tias avós ou como evitar ser um velho rabugento

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Como sexagenário, ando preocupado com a percepção que possam vir a ter de mim os meus sobrinhos, bem como os seus filhos. Guardo na memória a imagem das minhas tias velhas. Mas será que terei a capacidade de passar aos meus sobrinhos algum testemunho, valor ou afecto?

No fim de semana passado, fui à festa dos setenta anos de um bom amigo. Setenta convidados, mas podiam ter sido muitos mais, comoveram-se com o evento. Felizmente, houve quem organizasse, depois do almoço, o presente colectivo: um concerto no qual se recriou o encontro que o pianista Mário Laginha gravou, há já uns anos, com Tcheka, grande cantor cabo-verdiano. Na beleza daquele momento, todos os convidados partilharam o afecto sentido pelo septuagenário e a sua família mais chegada. 

Dizer que os novos setentas se equiparam, hoje, aos antigos quarentas claro que tem foros de banalidade assumida. Mas o facto é que o meu amigo, com quem há três anos quase me afoguei no mar da Costa Alentejana, por pura temeridade e excesso de confiança, não parece a idade que tem. A sua frescura é, aliás, proporcional à sua sabedoria de médico e à sua generosidade para com todos os que o conhecem. Pessoalmente, ajudou-me muito, quando mais precisava e sem ter de lhe pedir. 

Não resisto a elencar tudo isto, relativo à festa e a uma personalidade de excepção, porque há momentos e pessoas que nos devolvem sentido e vontade de viver. E que, por isso mesmo, nos permitem ultrapassar desgostos e agruras dos nossos quotidianos apertados, bem como pôr de lado as lamúrias em que tantas vezes nos deixamos enredar. 

Mas há uma outra razão que me levou a desvendar, aqui, algo que é mais do foro privado – dos afectos, das amizades e da intimidade da família. Refiro-me à percepção que os mais novos têm de nós, sexagenários e septuagenários, sobretudo no âmbito familiar. Pelo menos, para mim, foi quase sempre neste âmbito restrito que fui tomando contacto com os mais velhos, sobretudo com as minhas tias-avós. 

A minha percepção das tias velhas não faz parte de nenhum quadro pessimista e nostálgico. Neste ponto, a minha experiência é diferente da de Jorge Calado que, nas suas memórias recentes, traçou um retrato quase apocalíptico do fim das relações familiares. Antigamente, a família alargada, composta por várias gerações não só existia, como parecia ser uma coisa boa. O contraste é, pois, grande com o que se passa agora, em que os velhos são postos em lares e as crianças alternam pelas casas dos pais divorciados (Mocidade Portuguesa, Imprensa Nacional, 2022, p. 21). Um horror, no seu entender! 

Ao contrário de uma tal percepção, penso que assistimos, hoje, a uma maior sinceridade e riqueza afectiva no quadro das famílias. Na sua base, está uma maior proximidade entre as várias gerações. Mais: em muitas casas existe, até, um excesso de intimidade que destruiu a distância entre as diferentes idades e o respeitinho hierárquico, que considero totalmente inútil. Por sua vez, a eliminação da distância implicou uma maior exigência afectiva e emocional. 

Dito isto, longe de mim argumentar que os nossos tempos são melhores do que os do passado. Pretendo apenas sugerir que há diferenças que dificultam a comparação. E que, da mesma forma que guardo memórias das minhas tias-avós, reconheço que os meus sobrinhos-netos têm de mim uma percepção que talvez não corresponda à relação que procuro estabelecer com eles. 

Mas vamos ao que mais interessa, ou seja, às memórias que tenho das tias velhas. Por exemplo, a minha tia-avó que mais me marcou era irmã do meu avô materno. Tinha ficado viúva, com três filhos muito cedo. O marido, com um nome inglês pouco comum e que suscitava apreensão da parte mais tradicional da minha família, era oficial de Marinha. Quando foi alvo de uma sindicância, segundo rumor familiar, por ter sido apanhado com um marujo, suicidou-se. 

A herança paterna, constituída por uma série de prédios na Baixa de Lisboa, fizera da minha tia uma mulher rica. Aliás, enquanto ela e uma irmã herdaram os bens imóveis, o outro irmão – o meu avô, que também morreu cedo – ficou com a casa e o negócio familiar, que acabou por ir à falência. Uma diferença de monta, que se veio a revelar desastrosa, do ponto de vista patrimonial, para o ramo a que pertenço. É que as manas, com o seu património imobiliário, acabaram por sair beneficiadas depois da Crise de 1929, que teve pesados efeitos nos investimentos familiares na Bolsa de Londres. Nessa altura, o Palácio da Cova da Moura teve de ser alienado e o seu recheio de obras de arte vendido em leilão. 

Mais tarde, quando a minha mãe ficou viúva e com cinco filhos, em minha casa, a situação financeira era débil, tendo essa mesma tia-avó passado a ajudar-nos. Tenho, por isso, em relação a ela uma enorme dívida de gratidão. Mas sei bem que o seu poder financeiro funcionava como uma espécie de moeda de troca. Em câmbio do que dava, recebia o reconhecimento que a minha mãe, sua sobrinha dilecta, tanto quanto eu e os meus irmãos, seus sobrinhos-netos, lhe manifestávamos. Convidávamo-la, sempre, para as nossas festas de anos. No Natal, íamos a sua casa prestar-lhe homenagem. Quando nós os cinco irmãos começámos a receber dela uma mesada, passámos também a ter de a aturar durante alguns dias de férias em nossa casa, com o seu cabaz de compras que fazia questão em nos trazer. 

A sua generosidade, proporcional ao seu poder financeiro, era uma prática exercida no dia-a-dia. Respondíamos com respeito, deferência e sinais de uma certa vassalagem. O jogo das trocas era claro e, embora, não incluísse manifestações de afecto de espécie alguma – uma festinha que fosse – todos nós, incluindo a minha mãe, pelo menos, sabíamos que escapávamos aos seus ódios de estimação. Estes estavam concentrados, antes de mais, no desprezo que tinha pelas empregadas domésticas. A este propósito, ouvi dela algumas das frases mais violentas de toda a minha vida: que elas, vulgo as “criadas”, eram umas porcas e, noutra ocasião, “oh filha, elas são uns autênticos cães que temos de ter dentro de casa”... 

Mas, à época, o que mais me chocava era o ódio que a mesma tia nutria em relação aos meus primos, que eram outros dos seus sobrinhos-netos. A razão estaria no simples facto de estes não dependerem dela, como sucedia connosco, devido ao meu pai ter partido tão cedo. Será que era, precisamente, por essa mesma razão, ou seja, pelo facto de não precisarem da sua ajuda, logo, de não ter com eles uma relação de poder, que os odiava? Ou o que explicava esse seu desprezo devia-se, simplesmente, à necessidade que tinha de odiar alguém, caindo o ónus nos desgraçados dos meus primos? Talvez esta última seja a pergunta mais pertinente, porque capaz de estabelecer uma relação de correspondência entre o seu ódio e a infelicidade de ter ficado viúva aos trinta e três anos. A que se seguiu ter sido socialmente castrada, sem nunca mais ter sequer concebido a possibilidade de estabelecer uma outra relação. No fundo, anulou-se como mulher. A este respeito, acrescente-se que devo ter conhecido esta tia nos seus cinquentas, mas sempre como uma velha de bengala e de uma fealdade proverbial. 

Se as memórias que guardo dessa minha tia-avó – generosa, mas sem afectos e com uma capacidade inusitada para odiar – não me devolvem qualquer tipo de serenidade projectada no passado, não me queixo das outras minhas tias-avós. Em especial de uma delas, pelo lado paterno, que vivia sozinha em casa de província, guardo saudades pela sua irreverência. Não foi só a sua aparente falta de maneiras que me impressionou, o que mais me atraiu nela foi a sua capacidade para provocar e odiar a sua irmã, a minha avó com quem vivíamos, sempre tão contida e disciplinada nos seus sofrimentos. 

Doutra das minhas tias-avós, rodeada de uma prole de dezenas de netos, tendo ao seu lado o marido, um general entrevado, lembro a sua capacidade de me prestar atenção. E, no meio de tanta gente, por mais insignificante que eu pudesse ser, em cada visita, tinha comigo um mimo, quando me dava à socapa um pacote de bolachas compradas na Manutenção Militar. 

Recordo uma última tia, meia-irmã do meu avô paterno: uma mulher de beleza hollywoodesca, sem filhos, com marido vinte anos mais novo, o qual tinha sempre umas amásias clandestinas. Aos sessenta anos já estava demente, e era com ela que passávamos as festas do Natal, Ano Novo e Páscoa. As viagens ao estrangeiro que fazia e as histórias que delas contava iam muito para além do mundo confinado em que vivíamos no centro de Lisboa. Este limitava-se à Rua da Misericórdia, num eixo que ia do Cais do Sodré até ao Rato. As viagens dos meus tios, com amigos, ao volante de um Ford Taunus, último modelo, eram uma autêntica fantasia narrada, que preenchia as tardes de chá com torradas, na casa da minha avó. E foi no mesmo automóvel que fui um dia lanchar a Setúbal, numa pastelaria, onde o meu tio mandou vir para a mesa um prato de bolos sortidos, que nunca tinha visto. 

Ao escrever estas notas acerca das minhas tias-avós, o meu propósito não é etnográfico, nem apocalíptico. Sem pretensões, mais próximo estará dos jogos imaginados por Fernando Pessoa, quando escreveu com uma enorme ambiguidade: “não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso” (Livro do Desassossego, ed. Teresa Sobral Cunha, Presença, 1991, vol. II, p. 26). É que, enquanto sexagenário, ando preocupado com a percepção que possam vir a ter de mim os meus sobrinhos, bem como os seus filhos. Será que terei a capacidade de lhes passar algum testemunho, valor ou afecto? Espero que sim, nem que seja pelo interesse genuíno que tenho pelas suas vidas e o modo como pensam e agem. Se tal conseguir, já me darei por contente.

 *O autor escreve ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico.

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