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As cegonhas também vão ao ginásio
Viver 3 5 min. 19.09.2021
Gravidez

As cegonhas também vão ao ginásio

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As cegonhas também vão ao ginásio

Foto: António Pires
Viver 3 5 min. 19.09.2021
Gravidez

As cegonhas também vão ao ginásio

Vanessa CASTANHEIRA
Vanessa CASTANHEIRA
Franca, forte e determinada, sente-se feliz por cuidar dos outros. As duas mãos com que pega na barra olímpica, são as mesmas que tratam um paciente, abraçam a família. E em breve embalarão o Salvador.

A sua figura fez-se notar não só pelo longo cabelo comprido e equipamento de treino, mas sobretudo pelo corpo, que denuncia um estado avançado de gravidez. E mesmo assim levantou os 75kgs em peso morto. Roubou para si vários olhares de admiração e outros tantos de respeito.

Às 35 semanas de gestação e 32 anos de idade, Nádia Penacho Oliveira mantém o seu plano de treino. "Faço quatro treinos de força e dois a três de cardio moderado por semana." Os 92 centímetros de perímetro abdominal não lhe servem como desculpa para parar. "Parar não, abrandar sim. Nas últimas duas semanas sinto maior necessidade de repouso, mas desde que me sinta bem, posso continuar. E sinto."

O exercício com que se sente bem é weightlifting, uma modalidade onde existe alguma falácia e desconhecimento, talvez mesmo preconceito, principalmente quando as praticantes são do sexo feminino. Nádia não tem medo. Tem tido uma postura determinada e obstinada. "Sou acompanhada por um treinador muito profissional. Adaptámos os treinos e hoje não faço agachamento com barra livre, mas na Smith. Também deixei de executar exercícios como hip thrusts. A gravidez não é condicionante para parar, mas condiciona alguns movimentos que deixam de ser confortáveis. É preferivel ter um plano adaptado e seguro."

Nádia levanta 75 kgs em peso morto, onde antes atingia os 110. "Sinto-me muito feliz com a gravidez, mas sinto que a condição anula-me não apenas no treino como também no quotidiano". Como carregar as compras para o terceiro andar. "A meio já tenho de parar e respirar". Mas continua a subir as escadas e a levar os sacos todos de uma só vez. Certo é que só vai parar quando "não conseguir mais", diz.

Se durante toda a gravidez mantém os seus treinos e coloca em causa os mitos da gestação, há outra questão que se coloca no pós-parto. "Tenho para mim que ao fim de três a quatro semanas poderei regressar. Desde que me sinta confortável, não há motivo para não fazer." Acompanhada por um treinador e pela obstetra, Nádia mostra que a gravidez não é limitante e desafia mitos e crenças.

A enfermeira, que desafiou as normas ao praticar weightlifting sem receios de ficar com "corpo de homem", como diz o senso comum, sempre foi apaixonada por desporto. Praticou várias modalidades desde a infância como natação e futsal, tendo mesmo sido atleta federada e ter praticado futsal universitário em Coimbra, cidade onde se formou em enfermagem. Depois enveredou pela vida de ginásio. Foi no Luxemburgo que se dedicou mais para "matar saudades da família e abstrair de estar longe de casa", disse.

Foto: António Pires

Determinada e prática, a sua chegada ao Luxemburgo deu-se "em 2012, o ano da crise" confessa. "Se isto não der, eu vou" disse a um amigo da família quando estava a terminar o curso. Estávamos em maio de 2012. Chegou ao Luxemburgo a 29 de setembro desse mesmo ano e teve a primeira entrevista de trabalho a 18 de outubro na unidade onde é hoje enfermeira. A entrevista correu bem, menos o facto de não falar corretamente o francês.

Os recursos humanos pediram-lhe para definir-se e deu-se o momento mais insólito da entrevista. "Teimosa, persistente e emotiva". Como não conseguia dizer mais nenhum adjetivo em francês, tirou o dicionário da mala e continuou. Não se lembra do que disse. Lembra-se que ficaram admirados pela singularidade e forma sui generis de resolver a situação.

Vinha fresquinha da faculdade e achava que ali não exercia enfermagem a sério. Ao longo do tempo apercebi-me, que o simples facto de dar a mão no momento certo, é cuidar.

Nádia Oliveira

Foi aconselhada a aprender francês em seis meses. "Vamos ler 'Les Miserábles' de Victor Hugo e trabalhar", disse ao chegar a casa ao primo por afinidade. Tinha prometido a si mesma que o dinheiro para a vinda seria o último que os pais lhe davam. "Mesmo o último." Trabalhou num bar, aprendeu francês, inscreveu-se no exame para a certificação linguística B2 e chumbou por "não ter frequentado o curso", explicou. Repetiu o exame e começou a trabalhar como enfermeira a 15 de junho de 2015. Até hoje.


A menina que aprendeu a voar nas asas do sonho
Na infância foi atropelada por um sonho. E não descansou enquanto não se fez bailarina. O amor trouxe-a até ao Luxemburgo. Em 2015 criou uma companhia de bailado com o marido. E deu à luz uma Matilda.

Agora é enfermeira numa unidade de Cuidados Continuados (Maison de Soins, em francês). Trata sobretudo de pacientes em estado vegetativo, lesionados medulares conscientes e dependentes e ainda portadores de doença mental. É também como enfermeira que se conhece outra faceta. Ali, a mulher determinada abre portas a uma cuidadora sensível. Que chora. "Acabamos por ser a família de cada um deles. É difícil distanciarmo-nos. Quando o ciclo se fecha, somos nós que lá estamos. É difícil e também apaziguador quando deixamos e ajudamos alguém a partir em paz." Há oito anos que pratica ali enfermagem, um período que se prolongou e que não estava nos seus planos. "Vinha fresquinha da faculdade e achava que ali não exercia enfermagem a sério. Ao longo do tempo apercebi-me, que o simples facto de dar a mão no momento certo, é cuidar."

A par da enfermagem "por vocação", Nádia é viajante por paixão. "E por ter mais dias de férias". Nos últimos oito anos faz uma média de duas a três viagens por ano. Até 2012 a única viagem feita foi aquela em que chegou ao Luxemburgo. Nem aterrou porque veio de carro. Com o marido ou com os irmão gémeos todos os países são bons destinos. Planeou correr mundo e ter histórias para contar.

Mas o próximo grande capítulo da sua vida tem nome. Chama-se Salvador, o filho que nascerá em outubro. Ela não diz mas sabe que a mais bela viagem da sua vida está prestes a começar.

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