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As avós não são segundas mães
Opinião Viver 2 min. 13.05.2022
Diário de uma mãe imigrante a mil

As avós não são segundas mães

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As avós não são segundas mães

Foto: Shutterstock
Opinião Viver 2 min. 13.05.2022
Diário de uma mãe imigrante a mil

As avós não são segundas mães

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
As mães estão lá para as regras, as rotinas, os legumes. As avós estão lá para as maluqueiras, fazem coisas que nunca fizeram enquanto mães ou até que não o permitiram enquanto mães.

Há uns meses dei ao meu filho um livro: a "Avó Z". A avó Z é uma senhora na casa dos 60, cabelo cor-de-laranja, super cool. E que conduz uma mota. Na história, surpreende o neto com a melhor festa de anos de sempre. Viajam de mota pela floresta, vão à feira popular, andam na montanha-russa. E no fim há uma grande festa de anos com um bolo de três chocolates.

A avó Z é a avó que eu nunca tive, mas que gostava de ter tido. Aquela avó que ouve sem julgar, que sabe mais do que o que pensamos. Que nos troca o pão integral pelo pão branco, que nos deixa ir para lá dos limites estabelecidos pelos pais. E que ainda nos surpreende apesar das artroses nos joelhos.

É por isso que acho que as avós não são segundas mães. As mães estão lá para as regras, as rotinas, os legumes, a roupa a combinar, a ajuda nos trabalhos de casa. O "eu bem te disse". É certo que também brincam, mas são as avós que estão lá para as maluqueiras. 

Fazem coisas que nunca fizeram enquanto mães ou até que não o permitiram enquanto mães. Quebram a rotina, estão lá para o "shhhhhh…. eu não digo a ninguém", para os doces, para o deixá-los fazer o que lhes apetece. 

As minhas avós nunca foram muito ligadas a mim e aos netos no geral. Não as censuro, o tempo em que viveram não foi particularmente bom para elas. Mas é a verdade. E eu só queria uma avó para tomar chá e contar-lhe sobre os meus namoricos da escola, ou para me levar ao teatro ou à dança.

Sempre me surpreendo quando alguém fala dos avós com grande admiração. Quem os senta orgulhosamente no melhor lugar da mesa, quem lhes telefona até mais do que aos próprios pais. Quem lhes confidencia os segredos ou lhes pede conselhos.

Hoje quando olho para o meu filho a brincar com eles o meu coração aperta. Fico amarga e amargurada. Invejo em segredo aquilo que eu nunca tive e que já não vou a tempo de ter.

Recentemente aproveitei a visita dos avós ao Luxemburgo para tirar uma noite para 18+. No dia a seguir, num churrasco com amigos – ainda sem ele - comecei a sentir bichos de carpinteiro, estava agitada. Com saudades. Queria ir para casa, estar com ele.

Quando me preparava para sair, um dos pais presentes disse-me: "olha pensa assim, como era quando ficavas com os teus avós? Espetacular! Por isso tens a certeza de que ele também está bem".

Confesso que nunca soube o que isso era. Mas, ao contrário de mim, o Martim tem uma avó Z. 

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