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Antirracismo e negritude
Opinião Viver 7 min. 06.05.2022
Universidades

Antirracismo e negritude

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Foto: AFP
Opinião Viver 7 min. 06.05.2022
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Antirracismo e negritude

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Sob a capa de conhecimento pós-colonial, emancipado, existe uma aparente razão universal em que se baseia o imperialismo exercido pelas grandes universidades anglo- americanas. Estas apropriaram-se dos discursos acerca da subalternidade, para continuar a exercer os seus modos de dominação sobre todos aqueles que o reproduzem fazendo economia do trabalho analítico sobre configurações concretas.

Muitas das discussões actuais sobre racismo, identidades africanas e afirmação negra ignoram trabalhos anteriores de escritores e investigadores interessados na afirmação da negritude. A atitude mais comum a que se assiste, nos dias de hoje, encontra-se bem sintetizada na tradução de um livro, que ainda não tem dez anos, da autoria de Grada Kilomba. Esta afigura-se tributária sobretudo do ensaísmo pós-colonial anglo-americano da década de 1990, a ponto de o seu livro surgir como o equivalente de um estado da arte no domínio das identidades africanas, no seu cruzamento com as questões de género e das diferenças sexuais. 

Outros trabalhos, como aconteceu com a reedição do jornal O Negro, por Cristina Roldão et al., revelam um evidente desconhecimento dos argumentos, dos contextos e dos autores que tomam por objecto. Foi o que sucedeu com Rui Ulrich, o jurista e integralista que colaborou naquele jornal de inícios do século XX. Assim sendo, o activismo de Grada Kilomba e Cristina Roldão, se se aproveita dos contributos da teoria pós-colonial tal como esta se apresenta nos principais campos académicos anglo-americanos, procura genuinamente instalar rupturas. Contudo, estas não tomam em linha de conta configurações anteriores, bem pertinentes na defesa da negritude, ou nem sequer aprofundam o estudo dessas mesmas configurações, construídas em torno das identidades negras e de movimentos anti-coloniais. 

Será o activismo incompatível com o estudo isento das diferentes configurações de afirmação da negritude? Creio que não, na condição de nos prepararmos tanto para respostas que não possam ser postas ao serviço das causas actuais, como para aprendermos a lidar com os percursos sinuosos de muitas figuras. Por exemplo, o angolano Mário António Fernandes de Oliveira – autor de um conto que foi ilustrado por Luandino, cujas ideias sobre crioulismo se acabaram por ajustar ao lusotropicalismo partilhado por Adriano Moreira e os seus colaboradores, tendo acabado por ser um dos primeiros a organizar um estudo colectivo sobre os retornados – chamou a atenção para a efervescência intelectual vivida em Luanda, nas duas últimas décadas do século XIX. 

Ou seja, num período anterior aos projectos de colonização de Paiva Couceiro e Norton de Matos, um conjunto de autores maioritariamente negros procurou, sobretudo na imprensa, afirmar a sua identidade. O seu reportório de temas, argumentos e lutas foi, também, anterior aos escritos antirracistas – de denúncia das formas de trabalho escravo ou forçado, e contendo reivindicações de autonomia ou independência africana – de Mário Domingues, os quais foram recentemente reunidos por José Luís Garcia. 

Nessa perspectiva, os escritos de Domingues, em lugar de serem uma novidade, deverão ser tidos como um ponto de chegada que aconteceu na metrópole, já depois de um silenciamento das vozes que se tinham afirmado, pelo menos, em Luanda. A ponto de Mário António ter sustentado que, de 1910 a 1940, se tinha aberto um período de quase não literatura angolana. 

De facto, existe toda uma questão periodológica no que respeita à afirmação das ideias acerca da negritude, na língua portuguesa. Pires Laranjeira, por exemplo, identificou uma tradição associativa dos africanos, cívica e cultural, que recua à geração da década de 1880, em Angola, ou remonta pelo menos à Liga dos Africanos da década de 1920, em Lisboa, e ao Centro Associativo dos Negros de Moçambique e Associação dos Naturais de Angola. 

O associativismo desenvolveu-se a par da denominada imprensa livre de finais do século XIX, com Alfredo Troni, Cordeiro da Mata e Assis Júnior, “todos com obra muito franzina”. Mesmo admitindo que este primeiro momento não tivesse formado uma “ilha crioula”, como pensava Mário António, Laranjeira atribuiu-lhe o estatuto de momento fundador. 

Já Alfredo Margarido datava a negritude de 1942, com o aparecimento do livro de Francisco José Tenreiro, Ilha de Nome Santo. Ou, talvez, tal só tivesse sucedido em 1949, quando entrou em Portugal a Anthologie de Senghor. Por sua vez, Manuel Ferreira datava a emergência da negritude de 1922, com Marcelo Veiga, tido como o primeiro negritudinista. Nesta perspectiva, o movimento da negritude revelou uma consciência da raça, da classe e do território, constituindo-se num “primeiro esboço do sentimento patriótico”. Todavia, a linha de demarcação estabelecida com mais nitidez é a da década de 1940, com Tenreiro e, depois, com Terra morta (1949) de Castro Soromenho e o conto “Negritude” de Alexandre Cabral. 

Laranjeira discutiu não só a cronologia, mas também o sentido do que pode ser considerado literário. Isto porque tanto no século XIX, como na década de 1940, as literaturas negras ou africanas também incluíam no seu horizonte o conjunto das literaturas orais, “com uma intenção de documentar etno-literaturas, para servir o gosto europeu pelos devaneios da literatura e do exotismo”. Aliás, era o que se notava em a Literatura africana (1944) de José Osório de Oliveira, um intelectual orgânico do Estado Novo a quem foi atribuído um espírito genuinamente fascista, que se inspirou na Anthologie négre de Blaise de Cendrars. 

Que não fique, também, esquecido o peso dessa quantidade de outras ligações ao pan-africanismo do princípio do século XX, ao primitivismo modernista, ao denominado Renascimento do Harlem com Langston Hughes e tantos outros, às literaturas latino- americanas com Palés Matos ou Nicolás Guillen, e às perspectivas etnográficas de Fernando Ortiz ou de Frobenius. Tudo isto segundo Laranjeira, que detectou um sentido pioneiro de revolta da literatura angolana, primeiro, na história da rapariga escrava Nga Mutúri (publicada em folhetins na imprensa de Lisboa, em 1882) de Alfredo Troni, que passa depois por O Segredo da Morta de António de Assis Júnior (1929), para culminar em Terra Morta de Castro Soromenho. 

Um dos momentos caracterizado como sendo de imprensa livre, nos finais, do século XIX, foi protagonizado pelo advogado Alfredo Troni, que assumiu a direcção de O Jornal de Loanda (1878-1882) e de O Makuarimi (1888). Antes dele Ernesto Marecos fundara a revista Aurora (1855) e Cordeiro da Matta colaborara no Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro. A imprensa, através do jornal, começou a configurar uma comunidade imaginada de leitura, tal como cerca de um século antes tinha acontecido na América espanhola. 

Assim, em 1893, Troni escreveu, em panfleto de polémica, que já por diversas vezes se tinha sentido injuriado pela imprensa. Mas que, agora, o caso mudava de figura, pois sentira-se vilipendiado, ele mais a memória de seu pai, por um juiz de Direito que o atacara devido ao caso de uma herança familiar e respectivo auto de partilhas. Neste quadro, pôs na boca de um amigo, tido como conceituado alto funcionário: “devemos convencer-nos de que é indispensável fazer escrupulosa escolha para certos cargos de homens de educação”. Ao que acrescentou que “um militar, por exemplo, num posto elevado, se não mostrar educação, não passará de um tarimbeiro”. De forma bem localizada, a crítica à organização do Estado colonial era evidente.  

O contributo de muitos outros escritores e investigadores de literaturas coloniais – tais como Luís Kandjimbo, Bonavena (pseudónimo), David Mestre, Ana Mafalda Leite, Inocência Mata, Carlos Pacheco, Isabel Castro Henriques, etc. – também necessita de ser tido em conta, se não quisermos cair nos riscos de simples adopção de uma razão universal. Sob a capa de conhecimento pós-colonial, emancipado, esta última reveste, muitas vezes, a forma de imperialismo exercido pelas grandes universidades anglo-americanas que se apropriaram dos discursos acerca da subalternidade, para continuar a exercer os seus modos de dominação sobre todos aqueles que o reproduzem fazendo economia do trabalho analítico sobre configurações concretas.

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