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Admite comer carne fabricada em laboratório? Os EUA já disseram 'sim'
Viver 4 min. 18.11.2022
Revolução na comida

Admite comer carne fabricada em laboratório? Os EUA já disseram 'sim'

Até agora, só o governo de Singapura tinha dado esse passo, fazendo deste território o único sítio do mundo onde se come carne de galinha que não é criada nem ao ar livre, nem em aviários, mas num processo laboratorial.
Revolução na comida

Admite comer carne fabricada em laboratório? Os EUA já disseram 'sim'

Até agora, só o governo de Singapura tinha dado esse passo, fazendo deste território o único sítio do mundo onde se come carne de galinha que não é criada nem ao ar livre, nem em aviários, mas num processo laboratorial.
Foto: Eat Just
Viver 4 min. 18.11.2022
Revolução na comida

Admite comer carne fabricada em laboratório? Os EUA já disseram 'sim'

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
As autoridades norte-americanas deram luz verde a uma empresa para criar carne de galinha a partir de células estaminais do animal. Na Europa ainda não há 'ok', mas está a ser construída a maior “fábrica” de carne de vaca do mundo.

Os EUA acabam de autorizar, pela primeira vez, uma empresa a produzir carne de galinha em laboratório. A decisão é um marco para esta indústria nascente, porque traz o selo de segurança de uma entidade exigente para a carne de laboratório, assim considerada apropriada para consumo humano. Até agora, só o governo de Singapura tinha dado esse passo, fazendo deste território o único sítio do mundo onde se come carne de galinha que não é criada nem ao ar livre, nem em aviários, mas num processo laboratorial, em biorreatores.

A autoridade que fornece as autorizações de venda a comida e medicamentos, a FDA, deu à californiana Upside Foods luz verde para produzir carne de galinha através da recolha de células de um animal vivo e depois reproduzi-la em grande escala através de processos laboratoriais. Além desta primeira avaliação, a Upside Foods, irá sofrer as inspeções nas suas instalações para certificar que todo o processo é seguro. O fornecimento da carne a supermercados, ou a mercados de nicho, levará, por isso, ainda alguns meses, pelo menos.


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A revolução alimentar em curso

No site da FDA (Food and Drug Administration), o responsável pela autorização, Robert Califf, escreveu que “o mundo está a viver uma revolução alimentar e a FDA está empenhada em apoiar a inovação na cadeia alimentar”. No comunicado, refere-se ainda que a autoridade norte-americana está preparada para responder aos pedidos de outras empresas para permitir a venda de carne de laboratório das várias espécies animais correntemente usadas como comida para humanos. Isto inclui não só os animais terrestres, como os marinhos.

Na tentativa de acelerar essa revolução, a FDA sustenta: “Continuamos a encorajar as empresas a entrar em diálogo connosco e logo desde a sua fase inicial de desenvolvimento, muito antes de submeter o pedido de aprovação”.

Nos EUA, e sobretudo na área de São Francisco, concentram-se várias empresas que estão há anos a desenvolver pesquisas para produzir carne de laboratório em grande escala e segura para consumo. 

A Finless Fish, por exemplo, está concentrada em produzir proteína de peixe, sobretudo atum, enquanto vários lóbis, como o Good Food Institute, têm promovido a aceitação dos consumidores e o avanço das técnicas e da lei para permitir comer animais sem os matar.

Mesmo antes das autorizações serem publicadas, a indústria tem vindo a expandir-se nos últimos anos. Segundo o Good Food Institute, haverá mais de 150 empresas no mundo inteiro na corrida pelo mercado de carne de laboratório.

Comer a vaca sem a matar

Um bife de vaca verdadeira (que obriga ao abate do animal) é biologicamente igual ao bife produzido em laboratório, segundo dizem os cientistas. E recolhendo células estaminais do músculo de um único animal vivo é possível produzir vários quilos de carne.

Na base da proposta de substituição da carne “verdadeira” pela carne feita em laboratório estão preocupações éticas com o bem-estar animal – neste momento calcula-se que 75 milhões de animais vivam enclausurados em sofrimento e sejam sacrificados todos os anos para se transformarem em comida nos pratos dos humanos. Além disso, há a preocupação de ajudar a resolver o grande desafio de baixar as emissões e evitar o colapso climático.

Apelidado muitas vezes de “carne Frankstein”, o mundo da carne cultivada tem vindo a crescer e a tornar-se cada vez mais aceitável. A consciência de que o setor da alimentação é responsável por um terço das emissões de gases com efeito de estufa, de que a pegada ambiental da criação de gado bovino, se contabilizada como um país, seria o terceiro país mais poluente, tem feito avançar a agenda e a promoção. 

Em 2013, em Londres, foi apresentado e dado a provar o primeiro hamburger criado em laboratório. O feito foi alcançado pela Mosa Meet, sediada na cidade holandesa de Maastricht, e desde então o panorama da carne cultivada mudou. Nessa altura, o hamburger teve um custo calculado de 250 mil euros. O preço agora, depois dessa fase de pesquisa& desenvolvimento, será já aceitável para o mercado.


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Baixar o preço, garantir impactos ambientais reduzidos (Os primeiros biorreatores de teste onde foram cultivadas as células consumiam demasiada energia, logo produziam grandes emissões) tem sido a grande corrida destas empresas. E, também, garantir as autorizações das agências para poder vender o produto. 

Na União Europeia essa autorização é dada de acordo com a legislação de 2018 Novel Foods (Novas Comidas), mas até ao momento ainda não foi dada nenhuma em solo europeu. A avaliação feita esta quarta-feira pela americana FDA poderá ser o ponto de viragem também na Europa, não só por abrir caminho aos reguladores, como também por aumentar a confiança dos consumidores.

Mosa Meat. Do hamburger de 250 euros ao nível industrial

Há um mês, a Mosa Meat - que produziu o seu primeiro hamburger, em 2013, no gabinete de um cientista, Mark Post, na Universidade de Maastricht - anunciou a expansão das suas instalações para uma área de mais de 7 mil metros quadrados. Com esta escalada “torna-se assim o maior campus de carne cultivada no mundo e fornecendo uma base sólida para os nossos objetivos de comercialização a nível europeu e global”, disse Maarten Bosch, presidente da Mosa Meat.  

A Mosa Meat emprega de momento 160 pessoas, dos quais mais de metade são cientistas. A missão da empresa de Maastricht é, segundo promete Maarten Bosch, “refazer o sistema alimentar global”.

 

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