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Acompanhamento ao estudo contrariado II
Opinião Viver 6 min. 06.10.2021
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Acompanhamento ao estudo contrariado II

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Acompanhamento ao estudo contrariado II

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Viver 6 min. 06.10.2021
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Acompanhamento ao estudo contrariado II

Na semana passada começámos a escrever sobre os trabalhos de casa e a irritabilidade que geram em miúdos e graúdos, com a promessa de que hoje retomaríamos com dicas para ajudar os adultos a ajudar as crianças. Mas se calhar, antes de mais, convém percebermos o que pode ou deve ser isto do ajudar as crianças.

Alexandra Brito (professora) e Ana Barbosa (psicóloga)    

À partida, os TPC serão tarefas de treino e consolidação de coisas explicadas e trabalhadas em aula (se não forem, "algo vai muito mal no reino da Dinamarca"). Naturalmente haverá crianças que estarão mais e outras menos à vontade nas matérias, mas nenhuma boa escola esperará que um pai ou uma mãe possam corrigir ou re-explicar em casa o que não foi compreendido em sede própria. Ajudar nos TPC não deverá passar nem por corrigir nem por ensinar, essa é uma pressão, quase culpa, sentida frequentemente por mães e pais que importa aqui parar. Temos muitos papéis e funções importantíssimas, mas esta não é uma delas!

Importa perceber que, mesmo sendo eventualmente áreas do nosso conhecimento: o facto de termos sido alunos, não significa que possamos ou saibamos ser professores; o facto de até do-minarmos bem uma matéria e podermos mesmo ser especialistas nela, não significa que sejamos capazes de a "desmontar" para o nível de raciocínio, compreensão e desenvolvimento de crianças ou adolescentes e, finalmente, que os métodos e estratégias com que nos ensinaram há décadas atrás, muito provavelmente estarão também desatualizados face aos conhecimentos pedagógicos atuais. É bom relembrar que se estuda anos para aprender a ensinar! Portanto, mesmo que com a melhor das intenções, podemos muito possível e inadvertidamente estar a criar mais ruído na aprendizagem e até introduzir mais conflitos -"como é que não entendes? já te expliquei mil vezes, agora tens de ser tu a fazer!".

Por outro lado, por muito que queiramos assumir também este papel, hão-de sempre haver áreas ou chegar a níveis em que estamos completamente fora da nossa zona de conforto, o que não tem mal nenhum! Pais e mães emigrados cujos filhos frequentam escolas locais, com ensino em línguas que não dominam, têm esta sensação de impotência de forma mais angustiante e generalizada. Nestas situações é comum sentirem que não conseguem ajudar, porque precisariam primeiro de entender para explicar ou corrigir - e estamos perante uma situação de pescadinha de rabo na boca…

Mas e se ajudar nos TPC não for explicar nem corrigir, haverá algo a fazer? Nós dizemos que sim.

-Seria ideal que, para além do dever, as crianças começassem aos poucos a desenvolver alguma motivação e prazer na realização dos TPC - a aprendizagem, como os trabalhos, não tem que ser monótona e séria (os adultos trabalham melhor com prazer e as crianças aprendem e trabalham melhor e muito mais se estiverem relaxadas e divertidas). Ser resiliente é também a arte de ser capaz de transformar algo que poderia ser um martírio em algo menos negativo e até agradável. Nós podemos ensinar-lhes estratégias para isso: se houver um quadro e giz, as mesmas tarefas passam a ser muito mais divertidas se se estiver a brincar aos professores, com adultos e crianças a alternar os papéis e a rir com as caricaturas e "erros" dados (é delicioso ver o sorriso maroto dos pequenos a explicar aos pais que estão errados e porquê). Usar a imaginação e brincar a aprender é muito importante.

- Os ecrãs competem com a atenção, têm de estar desligados, mas a música pode ser bem eficaz para ajudar à boa energia durante as tarefas.

-Depois, como seres sociais que são, poucas crianças gostam de estar sozinhas num quarto, muito menos a fazer algo que sentem como sacrifício. Assim, obrigar a criança à priori a sentar-se sozinha na escrivaninha do quarto é a primeira guerra completamente contraproducente a comprar. A maioria das crianças prefere a mesa da cozinha ou da sala, ou até ficar estendida num tapete a trabalhar e não vem daqui nenhum mal ao mundo.

- É importante ter consciência de que "os bichos carpinteiros" das crianças são uma necessidade fisiológica e, parece contra-intuitivo para os adultos, mas o movimento, no caso delas, ajuda à concentração. A última coisa de que precisam é de estar mais tempo sentados e quietos, pelo que se estiverem a balançar ou com as pernas em cima da cadeira, não devem ser chateados pela postura e podem encontrar-se algumas alternativas (como uma bola de yoga em vez da cadeira, ou com elásticos nas pernas da cadeira para balançar os pés, por exemplo). No mesmo sentido, devem fazer pausas pequenas, mas frequentes e fisicamente ativas - a cada tarefa feita podem por exemplo fazer mini-desafios de pé-coxinho, tentar malabarismo, fazer pinos ou rodas, fazer uma coreografia, etc.


Acompanhamento ao estudo contrariado
Vamo-nos centrar nos factos e na realidade das famílias: quando existem Trabalhos para Casa (TPC), têm que ser feitos!

- Outra coisa que deve ser tida em conta é que não deve haver a ansiedade da correção do erro, nem estes devem ser sentidos por miúdos e graúdos como falha - são antes oportunidades de aprendizagem e a borracha é a nossa melhor amiga! Aprender é um processo dinâmico e perceber a razão dos erros é fulcral. Levar dúvidas e mesmo erros para os professores pode ser importantíssimo e deve ser valorizado por todos!

- Podemos e devemos abdicar cedo do mito da suma-sapiência adulta e partilhar com as crianças a importância do "só sei que nada sei" - não saber não é um problema, é antes um desafio, vamos tentar descobrir em conjunto? Vamos perguntar, vamos pesquisar? - e assim estamos, com o nosso exemplo, a ensinar das competências mais importantes para a vida.

- Deve-se ensinar a gerir tempo e esforço, experimentando opções diferentes e ajudando a criança a chegar às suas próprias conclusões, analisando vantagens e desvantagens de fazer tudo junto ou dividir por diferentes dias, fazer logo que chegam a casa ou depois de uma pausa, etc.

Uma das coisas mais importantes será sermos bons modelos na gestão da irritabilidade, transmitirmos nós calma e bom humor quando estiverem os pequenos à beira de um ataque de nervos. Mais do que um sermão sobre o que tem que ser, parar 10 minutos para uns mimos, umas cócegas ou umas gargalhadas pode fazer-nos ganhar horas de finca pé - "Yupiii tens TPC! O que é que me vais ensinar hoje?"

Se não conseguirmos, com toda a humildade e serenidade, é preciso reconhecer que, às vezes, santos da casa não fazem milagres e quando um pai ou uma mãe ou ambos têm dificuldade reiterada em gerir estes difíceis momentos, se impacientam com o ritmo, com os raciocínios, erros ou repetição das dificuldades, mais vale pedir ajuda ou deixar com o que gere melhor.

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