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Acompanhamento ao estudo contrariado
Opinião Viver 4 min. 29.09.2021
Educação

Acompanhamento ao estudo contrariado

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Acompanhamento ao estudo contrariado

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Viver 4 min. 29.09.2021
Educação

Acompanhamento ao estudo contrariado

Redação
Redação
Vamo-nos centrar nos factos e na realidade das famílias: quando existem Trabalhos para Casa (TPC), têm que ser feitos!

(Alexandra Brito (professora) e Ana Barbosa (psicóloga)  

Há algo em que todas as gerações concordam unanimemente, quando por lá passam: os TPC são uma espécie de tortura para crianças! Hão-de contar-se pelos dedos o número de estudantes que, ao longo dos extensos anos de escolaridade obrigatória, gostam de os fazer e/ou sentem, na altura, que estes lhes são úteis. Haverá os (poucos) que os fazem sem grande contestação, resignados, porque o que tem que ser tem muita força, e os que resistem e se batem heroicamente contra esta forma de opressão dos adultos invejosos do tempo livre que poderiam ter as crianças. Mas podendo ou tendo escolha, depois de um dia de aulas, mais ou menos carregado com atividades extra-escolares, as crianças e jovens optariam por não ter mais nada para fazer e… descansar

Poderíamos aqui partilhar o debate professora versus psicóloga com os argumentos pró e contra os TPC, que é algo que está em discussão alargada na sociedade - para que servem? como é que estão a ser utilizados? qual é a sua importância para o sucesso académico? qual é o seu impacto na saúde mental das crianças? Mas isto daria um ensaio! Há quem seja terminantemente contra, há quem ache que quanto mais melhor e há os apologistas da razoabilidade (mas o entendimento de razoabilidade varia muito). Todavia, neste momento, até que mais investigações permitam decisões educativas apoiadas na ciência e menos em opiniões avulsas, vamo-nos centrar nos factos e na realidade das famílias: quando existem TPC, têm que ser feitos! 

Este é, no entanto, uma das alturas de maior tensão e até conflito nas famílias. Para as e os pequenos, este é um momento de real sacrifício, ora porque estão cansados após um dia cheio, ora porque estão saturados do mesmo tipo de tarefas, ou porque sentem que são muitas tarefas, ou porque antecipam dificuldades a fazê-las… ponhamo-nos no lugar deles, mesmo enquanto adultos, quão agradável é, depois de um dia a trabalhar, trazer trabalho para acabar em casa? Não é! É terrível, é injusto e também faríamos birras se tivéssemos tempo para isso! Toda esta contrariedade é sentida pelos mais novos, mas sem que tenham já a maturidade neurológica e emocional para a gerir “com responsabilidade”. Portanto, vão manifestar a sua contrariedade cada qual à sua maneira, mais passiva ou mais ativamente, esquecendo-se do que há a fazer ou do material, procrastinando até à última, sendo muitíssimo lentos, levantando-se a cada minuto (para ir beber água, para ir à casa de banho, para comer, para ir dizer algo a alguém, etc, etc, etc), ou fazendo guerra aberta, com recusa declarada entre resmunguices, prantos e outras formas de birra! 


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E agora temos nós, mães e pais, de acompanhar esta contrariedade, que é um trabalho extra, que dispensaríamos bem depois de um dia de trabalho! - “Não podem fazer sozinhos? Autonomia não é isso? Que irritação, não podemos ter sossego nem em casa?!”. Esta é a ironia por trás disto tudo, crianças e adultos querem exatamente o mesmo, relaxar ao fim do dia em família, e a irritabilidade de ambos os lados só faz avolumar o problema. Adultos apresentam argumentos de adultos, que habitualmente caem em orelhas moucas no sentir das crianças e, face à resistência, vão escalando em avisos, ameaças, entre outros… frequentemente perdemos a calma e damos voz e corpo à frustração, o que é na verdade fazer uma birra também. A ironia é que esperamos que as crianças giram bem as suas frustrações e contrariedades (como o são os TPC, à sua medida) quando nem nós adultos o conseguimos fazer sempre bem - é mais uma do tipo olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço! 

 Como já vamos longas nesta missiva, ficamos todos e todas, para já, a marinar no assunto, com o convite à auto-observação. 

 Na próxima crónica iremos retomar o tema com dicas práticas para ajudar nesta empreitada. Tentaremos perceber como poderemos contornar algumas das dificuldades, isto porque, sendo nós os adultos, é importante sermos bons modelos nisto de gerir coisas que nos são impostas e nos exasperam, para que os fins de dia não se transformem em batalhas campais.

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