Escolha as suas informações

Acabar com as tretas e começar a viver. O conselho do 'guru' francês da meditação
Viver 8 min. 23.10.2022
Livros

Acabar com as tretas e começar a viver. O conselho do 'guru' francês da meditação

Fabrice Midal.
Livros

Acabar com as tretas e começar a viver. O conselho do 'guru' francês da meditação

Fabrice Midal.
Foto: Rodrigo Cabrita
Viver 8 min. 23.10.2022
Livros

Acabar com as tretas e começar a viver. O conselho do 'guru' francês da meditação

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
Em entrevista ao Contacto, Fabrice Midal fala do livro que acaba de lançar em português e onde nos desafia a libertarmo-nos das ideias feitas.

Fabrice Midal é professor de meditação há mais de 25 anos. Fundou a Escola Ocidental de Meditação e introduziu em França o conceito de mindfulness. Para primeiro capítulo do seu livro, "Deixe-se de merdas e comece a viver", que acaba de ter edição portuguesa pela Planeta – "Foutez-vous la paix! Et commencez à vivre", na edição em francês – escolheu, no entanto, uma ideia que pode confundir quem entende a meditação de acordo com as suas premissas mais comuns atualmente. 'Deixe de meditar, não faça nada' é a primeira de várias ideias a que estamos arreigados e que Frabrice Midal se propõe desmontar ao longo de mais de uma centena de páginas, onde confronta o leitor com o paradoxo da obsessão do ser humano em responder a todas as pressões, ao mesmo tempo que se tenta libertar, usando muitas vezes meditação para isso, mas somando novas pressões na busca desse propósito.

"Eu tento que o meu livro seja o mais confuso possível, que cada capítulo mude todas as ideias feitas que as pessoas têm", afirma em entrevista ao Contacto, numa passagem por Lisboa, cidade que não visitava há cerca de uma década.

Fabrice Midal nota a mudança que a capital portuguesa sofreu nestes últimos anos. Lisboa é hoje uma das cidades mais 'instagramáveis’ do mundo e não há visitante, e até local, que não documente cada passo pelas suas ruas, miradouros e demais imagens de postal. Uma tentação que também é outra autoimposição com que cada vez mais vivemos.

"Há demasiada pressão para tudo, até para as férias, para ter de colocar as fotos no Instagram", exemplifica Midal. Daí a opção pelo desafio em jeito de dicotomia que lança no seu livro. "'Pare de meditar, não faça nada', 'Deixe de estar calmo, esteja em paz', 'Deixe de querer ser perfeito, aceite as intempéries'...Por que é que faço isto? Porque me apercebo que cada vez que tentamos fazer as coisas bem, adicionamos mais pressão, tentando ser perfeitos. E o ser humano não o é."

A própria meditação, que marca o arranque da discussão, ou confusão, que o francês pretende provocar na consciência do leitor, degenerou no oposto daquilo que deveria ser. "A meditação é a arte milenar de descobrirmos quem somos e de aceitarmos aquilo que estamos a sentir, mas na sociedade atual tornou-se num novo desafio que toda a gente vai falhar", diz o autor que há cerca de 15 anos começou a trabalhar numa nova forma de pensar a vida e o seu quotidiano, num diálogo entre a filosofia e disciplinas das ciências humanas e a meditação, enquanto exploração da própria experiência. 

"Achamos que a meditação é estarmos calmos a toda a hora, não ter emoções, não ter stress e isso não é a nossa vida. Por isso, ela tornou-se mais uma forma de nos sentirmos mais culpados", defende.

Fabrice Midal, em Lisboa.
Fabrice Midal, em Lisboa.
Foto: Rodrigo Cabrita

Em muitos casos, a meditação passou a ser uma tarefa que deveria servir para atingir um determinado fim.

Achamos que a meditação é estarmos calmos a toda a hora, não ter emoções, não ter stress e isso não é a nossa vida. Por isso, ela tornou-se mais uma forma de nos sentirmos mais culpados.”

A abordagem que Fabrice Midal procura ter neste livro é a que tem vindo a desenvolver nos últimos anos: romper com a conceção dominante que instrumentaliza e culpabiliza o ser humano num sem fim de tarefas, aspirações e luta pela perfeição.

A tirania do 'fazer' sobre o 'ser'

O autor concorda que há uma supremacia do 'fazer' que se impõe em relação ao 'ser', no campo do desenvolvimento pessoal, mas admite que ao mesmo tempo gosta do verbo 'fazer', se entendido como sinónimo de ação, de aproveitar as experiências e de explorar os sentimentos. "O 'fazer' devia ser uma forma de chegar ao 'ser' e não uma forma de nos desligarmos deste. Acho que este é um dos principais problemas, fazemos coisas como se fossem um desafio penoso e com o medo de não sermos bem sucedidos, de não sermos bons o suficiente. Esse medo retrai-nos e tira-nos a nossa energia."

"Deixe-se de Merdas e comece a viver" é o título da edição portuguesa do best-seller "Foutez-vous la paix ! et commencez à vivre", de Fabrice Midal.
"Deixe-se de Merdas e comece a viver" é o título da edição portuguesa do best-seller "Foutez-vous la paix ! et commencez à vivre", de Fabrice Midal.
Foto: Rodrigo Cabrita

Apesar de defender a necessidade de nos libertarmos de barreiras sociais e daquilo que nos prende, Fabrice Midal não defende que se abandonem as normas necessárias a viver em sociedade ou com os outros. "O problema não são as regras, o problema é a pressão", sublinha. A pressão de assumir como próprias solicitações e imposições exteriores, a de “ter de fazer sempre mais” ou a de tentar conciliar aspetos muita vezes paradoxais e impossíveis de conjugar. "Na nossa sociedade isso acontece frequentemente: temos de consumir mais para que a economia funcione e temos de parar de consumir para salvar o planeta. Temos muitos inputs paradoxais", o que, segundo o francês, leva a encruzilhadas geradoras de situações de stress e até de burnout.

No livro, desafia o leitor a encontrar soluções que não contemplava antes.

Calmo não é estar em paz

Fabrice Midal desconstrói o significado de algumas palavras ou conceitos que frequentemente são aplicados como sinónimos ou complementares, como quando escreve 'Deixe de estar calmo, esteja em paz' ou 'Deixe de ser passivo, saiba esperar'. Para o autor, não se trata de uma questão de vocabulário, mas antes de ajudar o leitor a relacionar-se de maneira real e profunda consigo próprio. "Calmo significa que não há nenhuma grande emoção, nenhuma ação. Quando o mar está calmo, o barco não se consegue mover. Por outro lado, pode-se estar em paz mesmo estando de luto, mesmo que nem tudo esteja perfeito. É muito importante fazer essa distinção, porque as pessoas não permanecem calmas, mas podem estar em paz", diz, dando como exemplo figuras como o Dalai Lama, que conheceu.

Temos de consumir mais para que a economia funcione e temos de parar de consumir para salvar o planeta. Temos muitos inputs paradoxais.

Midal lembra também que a chave de qualquer terapia não é fazer com que nos acalmemos ou que tentemos escapar dos problemas, pelo contrário, é encontrar uma maneira de os abordar e de nos libertarmos deles. "Não é negar o que estamos a sentir, e todas as técnicas para nos acalmarmos, para tentar respirarmos são inúteis", afirma. Emoções como a raiva, desde que não se tornem autodestrutivas e violentas, podem ser impulso de partida para ajudar a resolver uma situação, exemplifica. Para o autor e filósofo todas as emoções, positivas ou negativas, devem ser reconhecidas e trabalhadas.

Ser benevolente e não tentar amar toda a gente

Num dos capítulos, intitulado 'Deixe de tentar amar, seja gentil', o autor fala da importância de se usar mais a palavra benevolência do que a palavra amor, muitas vezes banalizada na sua expressão em vez de sentida. "A ideia de amar carrega tanta pressão. Como posso amar toda a gente? Mas ser benevolente é algo terra a terra", explica, acrescentando que "muitas vezes aquilo que almejamos ser ou conseguir é tão abstrato que não tem relação com a nossa vida quotidiana". 

O filósofo defende uma abordagem real e descomplexada da meditação e da forma de vivermos.
O filósofo defende uma abordagem real e descomplexada da meditação e da forma de vivermos.
Foto: Rodrigo Cabrita

"No meu dia a dia, eu não quero saber se o meu colega me ama, mas quero saber se ele é benevolente comigo, se é gentil, se tem a disponibilidade para ouvir aquilo que tenho para dizer."

Fabrice Midal afirma que, desde que nasce, o ser humano é julgado, avaliado e lançado "numa competição louca", que começa logo na escola. "Até certo ponto, esse processo enraizado na nossa mente faz-nos perder a nossa força própria. Os seres humanos podem fazer o melhor que souberem e conseguirem, mas isso não é serem perfeitos", reitera.


Não ter vergonha de ser humano

Mais do que um livro sobre a meditação, "Deixe-se de merdas e comece a viver" é uma viagem que Fabrice Midal convida o leitor a fazer "para ser livre". "O meu primeiro capítulo é realmente sobre a meditação, mas o meu objetivo é, em cada capítulo, mostrar como a pessoa pode encontrar alívio por se permitir a entrar em contacto com os seus próprios pontos fortes. É 'como aceitar que somos seres humanos'? Temos tanta vergonha de ser humanos". 

A ideia de amar carrega tanta pressão. Como posso amar toda a gente? Mas ser benevolente é algo terra a terra.”

Nessa busca de aceitação e de voltar ao que é simples e básico na natureza humana, a meditação pode tomar formas muito diferentes. Cozinhar, jardinar ou correr é o equivalente para algumas pessoas. "Não há uma única meditação tal como não há um único tipo de filme". O importante, defende, é que ela não nos coloque como uma ferramenta para atingir algo. "As pessoas não têm burnout porque não fizeram meditação, porque não fizeram as coisas bem, as pessoas têm burnout porque quererem tanto fazer tudo bem", lembra. 

Fabrice Midal assume que atualmente, o que vê em cada país "é que a maneira como a meditação se apresenta é mais prejudicial do que benéfica". "Ela pode ser uma forma de estarmos em paz ou uma maneira de nos usarmos como ferramentas ou de escapar aos nossos problemas. Depende da abordagem." A sua é a de que não é preciso fugir do que somos para nos libertarmos.

O Contacto tem uma nova aplicação móvel de notícias. Descarregue aqui para Android e iOS. Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.