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A história dos historiadores de ofício
Opinião Viver 5 min. 04.03.2022
Viver

A história dos historiadores de ofício

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A história dos historiadores de ofício

Foto: LUSA
Opinião Viver 5 min. 04.03.2022
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A história dos historiadores de ofício

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Desde há uma semana que, em casa, trabalho com a televisão aberta, passei a visitar sites à procura de notícias sobre a Ucrânia onde nunca me tinha ocorrido ir cheirar e só lamento não ter começado a ler mais sobre a Rússia, a União Soviética e a Ucrânia há mais tempo. Sendo claro que me angustia não conseguir compreender uma guerra que ninguém sabe como e quando parará.

Normalmente, escrevo as crónicas na quinta-feira, para as entregar na sexta de manhã. É uma operação que se instalou nas minhas rotinas semanais. Convivo tão bem com elas que dependo delas para a minha tranquilidade. Trata-se de mais uma rotina a acrescentar a outras que preenchem as minhas semanas de trabalho. Divido-as entre as aulas e as consultas na Biblioteca Nacional ou na Torre do Tombo. Confesso que também tenho outras rotinas para os tempos de lazer e, como gosto de cozinhar, procuro organizar jantares para poder conversar à volta da mesa.

A monotonia das rotinas acabadas de mencionar faz-me lembrar uma crítica que ouvi, aos meus amigos franceses, do livro intitulado Ensaios de Ego-História, cuja primeira edição é de 1987.  A respeito desse livro – onde os grandes historiadores da época, como George Duby e outros, contavam as suas próprias trajectórias – , limitaram-se a dizer: vidas sem interesse nenhum, contadas sem qual quer tipo de método. Pierre Bourdieu fora o autor inicial da farpa. Com o seu sarcasmo, também se indignou com a vanglória pós-moderna dos que, por dever de ofício, se sentiram autorizados a narrar as suas vidas irrelevantes e a impingi-las aos seus leitores. Tal como se as suas vidas se pudessem sobrepor às suas obras.

Na sequência de um artigo anterior sobre a invasão da Ucrânia e para que não haja dúvidas, repito: a História não serve para dar lições. E, acrescento, nem, em substituição dessas mesmas lições, os historiadores devem impor as suas próprias vidas. Mais concretamente, a história não dá lições, serve apenas para nos libertar do peso do passado, permitindo escolhas racionais e responsáveis. E as historiadores ou historiadores não se devem centrar em si próprios não só porque as suas vidas são, em geral, de uma monotonia entediante, mas sobretudo porque o peso das realidades, do sofrimento, da violência, dos modos de dominação, da pobreza e das migrações forçadas é tão grande que é urgente explicá-lo, compreendê-lo e fazê-lo compreender aos outros.    

Por exemplo, desde há uma semana que, em casa, trabalho com a televisão aberta, passei a visitar sites à procura de notícias sobre a Ucrânia onde nunca me tinha ocorrido ir cheirar e só lamento não ter começado a ler mais sobre a Rússia, a União Soviética e a Ucrânia há mais tempo. Sinceramente, neste momento, mesmo que quisesse, não conseguiria dar grandes lições, porque estou longe de ter compreendido tanta coisa. Sendo claro que me angustia não conseguir compreender uma guerra que ninguém sabe como e quando parará. 

Sendo claro que me angustia não conseguir compreender uma guerra que ninguém sabe como e quando parará.

O facto é que sem querer, mesmo mostrando que pouco me importa falar de mim, lá fui expondo as minhas limitações, assumindo um estilo mais ou menos desculpatório. Por ironia, sem seguir qualquer tipo de método... Mas também é certo que, em face de todas as rotinas da minha própria vida, e impelido pelo propósito claro de procurar compreender grandes e pequenos processos de mudança, pois é disso que a história trata, a minha manhã de ontem nada teve de monótono, nem de rotineiro. Não resisto a contar.

Tudo começou, quando ia a sair de casa e não encontrei o meu computador portátil. Em pânico, porque não me lembro bem quando fiz a última cópia de segurança, reconstituí durante quase duas horas o trajecto que tinha feito no dia anterior. Desde que saí do carro com o saco das compras, onde pensava ter metido o dito aparelho, até ao momento que subi as escadas. Contudo, em casa, do computador, não havia rasto. Dei voltas e voltas, fui duas vezes ao carro verificar se estava caído em qualquer sítio, até que desisti. 

Quando comecei a mentalizar-me que tinha mesmo desaparecido, com tanta coisa lá dentro que seria incapaz de reconstituir, e que eu não tinha um plano B, recebi um telefonema do Senhor Nuno. Desde há sete anos, que dirige o camião de recolha do lixo na minha rua. De noite, ao dar a sua volta habitual, viu o portátil no tejadilho do meu carro e pensou: melhor levá-lo, porque fará com certeza falta ao seu dono, do que deixá-lo aqui a correr o risco de ser roubado, ainda por cima na Feira da Ladra. Quando chegou a casa, com os seus conhecimentos de informática, bem maiores que os meus, descobriu o meu endereço electrónico e, a partir daí, o telefone da minha morada de trabalho.

Ontem mesmo, à hora de almoço, encontrei-me com o Senhor Nuno num café de Rio de Mouro, perto de sua casa. Senti, logo, a sua satisfação pelo dever cumprido. O meu agradecimento tem o tamanho do meu alívio. Mas o mais importante está nesse gesto de virtude, bondade e justiça de um homem bom. No seu lugar, acho que não hesitaria e faria o mesmo. Mas não sei se o meu contentamento, em face do dever cumprido, seria igual ao que vi estampado nos olhos do Senhor Nuno. Obrigado, Nuno, por me permitir voltar às minhas rotinas de escrita, mas também lhe quero agradecer pelo seu exemplo.

 Uma vida entre académicos e um pequeno meio intelectual que, como dizia Rodrigues Miguéis, mais parecem um alguidar de lacraus, sem esquecer um olho de espectador posto na política partidária, levou-me a descrer naquilo que outrora se chamava a natureza humana. É certo que, de um ponto de vista das construções literárias, tal como nos filmes ou no teatro, me sinto quase sempre mais atraído por figuras marginais e bizarras, sem excluir corruptos e facínoras. Por isso, sem fantasias acerca da simplicidade, mas também sem invadir a esfera íntima de ninguém, o gesto do Senhor Nuno faz-me acreditar – talvez, de novo – na bondade e na virtude. Foi esta a lição que retirei deste episódio...

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