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Nossa Senhora de Fátima
Opinião Sociedade 3 min. 05.06.2021
Wiltz

Nossa Senhora de Fátima

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Foto: Lex Kleren
Opinião Sociedade 3 min. 05.06.2021
Wiltz

Nossa Senhora de Fátima

António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
António Raúl VAZ PINTO DA CUNHA REIS
A crónica semanal de Raúl Reis.

Havia um gajo lá no armazém que andava armado em parvo. Mais do que uma vez, o Manel tinha feito de conta que não ouviu quando o patrão, homem exigente como são os empresários do norte de Portugal, pediu alguém para ir fazer uma entrega a Wiltz.

Depois da segunda nega, o Zé Carlos foi pedir explicações. Por que raios é que nunca queres ir fazer entregas a Wiltz?

Abra-se aqui um parêntesis para deixar claro que o Zé Carlos nunca seguiu nenhum curso de gestão de conflitos ou de espírito de equipa no local do trabalho. E por isso não sabe que não se devem personalizar as questões.

Segundo esses manuais, o Zé Carlos deveria ter abordado a questão mais de mansinho, por exemplo, aproveitando uma pausa-café para dizer ao Manuel: hoje tenho de ir a Wiltz mas não me apetece nada, não gosto nada daquela estrada.

Aí o Manuel poderia reagir e dizer que ele também não; que, sempre que pode, evita os serviços para aquele lado do Luxemburgo.

Sinceramente, fosse qual fosse a abordagem, o Manuel - parece-me a mim, mero observador - nunca reagiria bem a um remarque, fosse ela segundo os manuais de gestão de recursos humanos ou não. Porque o Manuel é daqueles gajos ressabiados, maldispostos, que sempre que abrem a boca é para mandar vir, quando não é para insultar alguém simplesmente porque esse alguém existe. Para o Manuel isso já é um pecado. Só ele devia existir na face da terra e mais alguns lacaios para lhe fazerem coisas.

Infelizmente para ele, o Manuel não nasceu rico, não teve a oportunidade de estudar, apesar de a professora de português no oitavo ano lhe dizer que todos têm as mesmas oportunidades, ricos ou pobres, e que o que conta é estudar.

Verdade se diga que o Manuel não era muito de estudar. Também não ajudava nada o facto de o Manuel ter de ajudar o pai a tratar os animais antes de ir para a escola. Já chegava lá cansado. Aconteceu mesmo de adormecer e de levar um raspanete da professora: estiveste a jogar na PlayStation até às tantas não foi? E agora não aguentas acordado! Que isto não volte a acontecer.

O Manuel aproveitou o conselho da profe para dizer ao pai que ela não queria que ele se ocupasse dos animais antes de ir para a escola. Ela disse o quê, berrou o Costa que nisso de se zangar era muito bom. Que o diga o vizinho, o Macedo, que já tinha andado à porrada com o pai do Manuel tantas vezes que não se lembravam qual foi a última.

Na verdade o Costa lembrava-se porque perdeu um dente da frente e, a partir daí, decidiu não provocar mais pancadaria que um dente custa um dinheirão e com o falso nunca mais conseguiu comer côdeas.

Mas divagamos da nossa história inicial. O Manuel estava a ouvir o Zé Carlos a dizer: por que raios é que nunca queres ir fazer entregas a Wiltz?

Os dois pensaram nas piores coisas naquele momento. O Zé Carlos arrependeu-se porque achou que o Manuel ia perder as estribeiras e começar aos berros, enquanto que este pensou apenas: e se eu lhe rebentasse a boca?

Mas não aconteceu nada disso. Nesse dia, a Senhora de Fátima de Wiltz, pouco ocupada por não ter peregrinos há dois maios consecutivos, deve ter decidido fazer um milagre.

O Manuel com ar calmo e ponderado disse: porque já tentei lá ir duas vezes e não dei com aquela merda. Quem me valeu foi o meu primo que me disse por telefone para que lado aquilo fica.

Porque não usaste o Waze ou o GPS da carrinha, perguntou o Zé Carlos. Usei, que é que tu achas? Mas nenhum deles sabe onde diabos fica Biltz...

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