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Vocês não têm frio?
Opinião Sociedade 4 min. 27.01.2022
Preços da energia

Vocês não têm frio?

Preços da energia

Vocês não têm frio?

Foto: Shutterstock
Opinião Sociedade 4 min. 27.01.2022
Preços da energia

Vocês não têm frio?

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Os portugueses vivem em austeridade térmica. Na verdade somos apenas pobres. Baixar o IVA da electricidade e do gás é urgente.

Um amigo que vivera na Nova Zelândia dizia-me que pouco sabia de Portugal, senão que era dos países do mundo com maior índice de pobreza energética. Ele sabia-o porque a Nova Zelândia vinha logo ali nos números bem perto de Portugal. No caso do país dos mares do Sul, explicava, além da construção das casas ser uma cópia das habitações inglesas do século XIX, o país pagava o alto preço da privatização da energia e do "mercado livre". Na Nova Zelândia, mais de 65.000 casas estão em condição de pobreza energética, cerca de 47% da população.

Portugal é o quinto país da UE onde as pessoas têm menos condições económicas para manter as casas aquecidas: 19% dos portugueses vivem em pobreza energética. Atrás de Portugal só a Bulgária, Lituânia, Grécia e Chipre.

Lembro-me disto porque ligo o aquecedor enquanto escrevo esta crónica. É de manhã, normalmente evito ligá-lo, não porque não precise do conforto mas porque aguardo com expectativa a conta da luz. Estas baixas temperaturas, os tectos altos, as janelas que têm muito charme mas não são duplas, fazem com que, por vezes, veja o meu próprio bafo quando atravesso o corredor, perdão, uma quase Sibéria, para ir do quarto à cozinha.

O frio enrijece, mas também mata. Em 2021, os 24% de excesso de mortes, mesmo em período pandémico, foram atribuídos ao frio, segundo o Instituto Ricardo Jorge.

Sempre cresci com a ideia de que o frio enrijece, numa espécie de austeridade térmica. Em todas as casas em que vivi só as salas eram aquecidas e a noite era enfrentar o sono num quarto onde se ficava com dor de garganta por causa do contraste térmico entre o cobertor e o ar gelado da habitação.

Só quando estudei em Espanha, em 2001, é que soube o que era o aquecimento central. A minha irmã, que estudou entre Faro e Bergen, na Noruega, conta que nunca passou tanto frio como na sua casa no Algarve, fria, húmida, paredes finas, a região mais quente e com mais exposição solar de Portugal continental. Claro que o que nos foi imposto como austeridade térmica era apenas pobreza energética: os meus pais diziam que o frio formava carácter, mas era mesmo porque não podiam pagar a conta. O frio enrijece, mas também mata. Em 2021, os 24% de excesso de mortes, mesmo em período pandémico, foram atribuídos ao frio, segundo o Instituto Ricardo Jorge.

Vem isto a propósito do IVA da electricidade e da regulação dos preços do gás. Observo os debates na Assembleia ou, agora, nas televisões com os candidatos às legislativas. Tirando o BE e o PCP, com propostas concretas para a descida do IVA da luz para 6% (isto é a reposição para os valores de 2011, anteriores ao memorando da troika), de forma universal e sem condicionamentos ou excepções, do actual primeiro-ministro do Partido Socialista até ao buraco escuro onde se senta o último deputado à sua direita, pergunto-me: mas eles não têm frio? Indago como serão as suas casas. 

Presumo que têm aquecimento central, só pode. Se tivessem um aquecedor a gás, certamente já tinham reparado que no ano passado a botija custava 28 euros e este ano 32. Quatro euros de diferença. Se calhar só usam para "aquecer a sala". Mas há famílias inteiras que vivem do gás de botija para cozinhar, tomar banho, lavar, aquecer. Se a isto acrescentarmos o teletrabalho, os confinamentos, os isolamentos, uma botija por mês nem chega. É fazer as contas.

A energia é um bem essencial e um direito. Esse dinheiro vai direitinho para o bolso das empresas do sector energético que continuam a acumular lucros como num grande bacanal de fim de festa, sobretudo aquelas que estavam na esfera do Estado e agora estão nas mãos de privados (e capital estrangeiro), bem protegidas e financiadas por todos nós. Sabemos que os combustíveis fósseis terão eventualmente os dias contados, a transição energética está aí, mas eles não se vão retirar sem grandes extravagâncias, como meninos privilegiados que sempre tiveram quem lhes pagasse a conta da luz: nós.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

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