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Viver com um único frigorífico, que horror
Opinião Sociedade 3 min. 23.11.2021
Consumismo

Viver com um único frigorífico, que horror

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Viver com um único frigorífico, que horror

Foto: Reuters
Opinião Sociedade 3 min. 23.11.2021
Consumismo

Viver com um único frigorífico, que horror

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O título do artigo que desencadeou uma guerra transatlântica em linha, publicado no sítio web económico Bloomberg, deixava antever que se tratava de uma armadilha para incautos: "Os americanos têm de aprender a viver mais como os europeus".

Notícia bombástica para jornalistas e escritores: foi descoberta a fórmula para chamar a atenção e obter cliques, comentários e polémica. O truque é tocar nos botões nacionalistas dos/das leitores/as insinuando que o seu estilo de vida é atrasado, embrulhando tudo num pacote de números e publicando o texto em jornal com nome sonante (esta última parte também é importante).

O título do artigo que desencadeou uma guerra transatlântica em linha, publicado no sítio web económico Bloomberg, deixava antever que se tratava de uma armadilha para incautos: "Os americanos têm de aprender a viver mais como os europeus". Com uma vírgula adicional, podia ser um texto factual e aborrecido sobre esperança de vida - e é verdade que na Europa a vida é mais longa (por exemplo no Luxemburgo cada habitante vive em média quatro anos adicionais que uma pessoa nos EUA). Em vez disso, tratava-se de um manifesto dirigido aos instintos mais básicos de inveja e concorrência com os nossos vizinhos; claro que eu fui logo ler o artigo.

A autora, Allison Schrager, mostra logo ao que vem no primeiro parágrafo. "De repente, nós americanos já não conseguimos consumir como de costume. As prateleiras estão a esvaziar-se, e pode levar meses para conseguir comprar um carro, frigorífico ou sofá. Se isto continua, podemos ter de aprender a sobreviver com pouco - e, horror dos horrores, viver como os europeus".

Horror? Os europeus têm, grosso modo, condições materiais muito confortáveis e luxuosas, são até uns mimados.

Horror? Os europeus têm, grosso modo, condições materiais muito confortáveis e luxuosas, são até uns mimados. Muito longe das cores de "sociedade-socialista-vivendo-Grande-Depressão" com que os americanos gostam de nos pintar, aqui encontram-se sofás de todas as cores e feitios, e os carros ou electrodomésticos são de superior qualidade aos do outro lado do Atlântico (mesmo se actualmente também é preciso esperar bastante para os obter).

Mas é certo que a sociedade americana reina incontestada no topo do consumismo, e o artigo oferece alguns dados que o descrevem bem. Dois terços da economia dos EUA dependem de consumo privado das famílias, e este também subiu 67% em apenas 25 anos. Ali quase metade dos lares tem três ou mais TVs, e um terço das casas tem dois frigoríficos. Compra-se cinco vezes mais roupa que há 40 anos - e cada peça de roupa só é usada em média sete vezes antes de ser deitada ao lixo. Nem é preciso invocar o tema dos carros e da gasolina para entender que espartano isto não é; sustentável muito menos. Entredentes, a autora lá acaba por admitir que "aprender a prescindir" poderia até, quem, sabe, não ser mau de todo.

Sim, prefiro viver à europeia - não tenho uso para três TV, dois frigoríficos e uma casa nos subúrbios a várias autoestradas do emprego, e quando a vida se torna ocasionalmente amarga prefiro ir dar uma volta de bicicleta a meter-me num shopping a afogar as mágoas em sacos de compras. Mas ao orgulhar-me disto, do alto do meu eurocentrismo, não faço mais do que replicar a mesma arrogância cultural que aparece naquele artigo. De facto, a pegada ecológica dos EUA é tão brutal que, se todos os humanos tivessem o mesmo estilo de vida, seriam necessários mais de três planetas para sustentar a Humanidade; mas se todos vivessem "regradamente" à europeia… ainda assim seriam necessárias duas Terras. Somos menos criminosos mas continuamos a sê-lo. Aliás, só há um país no globo que consegue atingir a quadratura do círculo de obter um alto índice de desenvolvimento humano (IDH) ao mesmo tempo que deixa uma pegada ecológica leve e sustentável. E esse sim, é mesmo uma sociedade socialista em depressão: Cuba.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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