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Visão de umbigo
Opinião Sociedade 3 min. 24.11.2020

Visão de umbigo

Visão de umbigo

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 24.11.2020

Visão de umbigo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Já não há paciência para quem não sabe que a maior liberdade de todas é a de poder estar fora de um caixão.

Ontem vi um exemplar da forma de comunicação mais poderosa do nosso tempo: um meme. Um meme é curto, grosso, irónico, engraçado, visual, lapidar. É quase imbatível, mesmo que não passe de uma deturpação grosseira, o que era o caso deste: por baixo de uma gravura de Patrick Henry (um personagem da guerra de independência americana) aparecia a frase "Dêem-me a liberdade ou dêem-me a morte!". E depois continuava: "a não ser que apareça aí um vírus com uma taxa de recuperação de 99%; nesse caso levem-me as liberdades, o emprego e os meus direitos constitucionais, e ponham-me em prisão domiciliária". 

A narrativa era comum a muitos destes que "têm uma perspectiva diferente" daquilo que todos estamos a passar, os mesmos que dia sim dia não têm algo a criticar na actuação das autoridades sanitárias. São aqueles chicos-espertos negacionistas do vírus que depois de engolir as patranhas de qualquer charlatão no Facebook sabem mais que cientistas, médicos, peritos e governantes, todos juntos.

Na verdade, a taxa de recuperação conhecida da doença (e não do vírus) aproxima-se neste momento dos 97%. E se isso lhe parece uma percentagem tão alta que vale a pena correr o risco, talvez seja útil lembrar que também significa que 3% dos infectados conhecidos já morreram – 1 milhão e 400 mil óbitos. Sem quaisquer medidas sanitárias, sem suspensão temporária das liberdades, toda a população mundial acabaria por ficar infectada – e mesmo que só 1% efectivamente morresse da doença, isso significaria 6138 pessoas no Luxemburgo; 103 000 em Portugal; mais de 5 milhões de europeus; 80 milhões em todo o mundo. Tudo antes de sequer considerar as sequelas dos sobreviventes, sobre as quais ainda sabemos pouco (e o que sabemos não é reconfortante).

Isto seria insustentável, e é indefensável por qualquer ser humano com um mínimo de consciência e empatia. Afinal, a historinha do cowboy solitário que passa pela vida só com um cigarro e uma pistola ainda vende nos EUA, mas é uma grande treta: se há algo que o vírus veio provar é que "isto anda tudo ligado". Vivemos em sociedade, todos no mesmo planeta, interdependentes. Todos no mesmo barco. Está provado que o bater das asas de um morcego na China pode desencadear uma tremenda tempestade em Paris.

Por coincidência ou não, ao lado daquele meme estava um artigo interessantíssimo que evoca o momento nos anos 80 quando a ciência “resolveu” o problema da epidemia de sida, ao descobrir que o vírus era maior que os orifícios do latex dos preservativos, e logo a doença deixaria de se propagar e acabaria por desaparecer se as pessoas usassem preservativo durante as relações sexuais. Havia uma solução que funcionava para o global da população – só que individualmente era inconveniente (ou ofensiva). E a sida continua a existir nos nossos dias.

O factor humano, aqui traduzido por irresponsabilidade e egoísmo, continua a fazer descarrilar soluções comprovadas propostas pela ciência. Existem aplicações de telemóvel que permitem rastrear os contágios? "Ah, mas o governo não tem nada que saber onde eu ando, então não as uso". O uso correcto da máscara permite evitar muitos contágios? "Talvez, mas é desconfortável, e não são totalmente eficazes, e além disso ninguém manda em mim, por isso não levo máscara". As vacinas têm 90% de eficácia e o potencial de nos tirar a todos deste buraco? "Ah, mas não estão comprovadas, e é tudo um grande negócio, e se calhar isto não passa de uma conspiração chinesa". Já não há paciência para quem não sabe que a maior liberdade de todas é a de poder estar fora de um caixão.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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