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Viragem: Igreja Católica pode aceitar padres casados
Sociedade 4 min. 19.06.2019

Viragem: Igreja Católica pode aceitar padres casados

Viragem: Igreja Católica pode aceitar padres casados

Foto:AFP
Sociedade 4 min. 19.06.2019

Viragem: Igreja Católica pode aceitar padres casados

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O Vaticano abre a "possibilidade de ordenação sacerdotal para anciãos, preferencialmente indígenas (...) mesmo que já tenham família constituída e estável" e propõe "papéis de liderança" das mulheres na Igreja Amazónica, segundo o documento do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia.

Para muitos esta é uma revolução na Igreja Católica levada a cabo pelo Papa Francisco: autorizar que homens casados se tornem padres. Mas não só. Também as mulheres devem ter papéis de  liderança na Igreja. Mas, por agora, estas mudanças só poderão vir a ser implantadas na Amazónia, e sob certas condições. Uma realidade que poderá acontecer já a partir de outubro, mas que devido à falta de padres não tardará a estender-se ao resto do mundo católico, acreditam os padres portugueses.

A notícia chegou pelo Vaticano, através do documento preparatório para o Sínodo Especial dos Bispos sobre a Amazónia que decorrerá, na Santa Sé, de 6 a 27 de outubro, e em que se discutirá a evangelização dos povos nativos.

“Afirmando que o celibato é um dom para a Igreja, solicita-se que, para as áreas mais remotas da região seja estudada a possibilidade de ordenação sacerdotal para anciãos, preferencialmente indígenas, respeitados e aceites pela sua comunidade, mesmo que já tenham família constituída e estável, a fim de garantir os sacramentos que acompanham e sustentam a vida cristã”, lê-se no documento de trabalho para o Sínodo. É nesta assembleia especial, convocada pelo Sumo Pontífice, que se irá votar as novas medidas propostas pelo Vaticano para combater ,com urgência, a falta de sacerdotes na Amazónia.

“Por isso, ao invés de deixar as comunidades sem eucaristia, devem ser mudados os critérios de seleção e preparação de ministros autorizados a celebrá-la”, refere o texto do Vaticano.

A intenção do Papa Francisco é a da Igreja poder ordenar os ‘viri probati’, isto é, homens casados, de fé comprovada e capazes de administrar espiritualmente uma comunidade de fiéis. Isto na Amazónia. Para Já.

A “astúcia brilhante” do Papa Francisco

Para frei Bento Domingues esta é uma forma muito inteligente do Papa Francisco fazer cair “um muro” da Igreja Católica, como declarou ao Público: “sob o pretexto da Amazónia” consegue assim contornar as resistências do lado mais conservador da Igreja e avesso à ordenação dos ‘viri probati’.

“Ao apelar às necessidades específicas da região, o Papa revela uma astúcia brilhante, porque o que está ali em causa é o direito dos cristãos à eucaristia, a qual que ninguém pode dizer que não. Mas, a crise de falta de padres é global e, estando quebrado este muro, as pessoas um pouco por todo o lado vão começar a dizer, e com razão, que a situação em que vivem é igual à da Amazónia”. Por isso, acredita frei Bento Domingues que, não só a proposta vai ser aprovada no Sínodo como vai ser rapidamente alargada a toda a Igreja.

Também o padre Anselmo Borges não tem dúvidas. É "absolutamente claro" que nesta assembleia na Santa Sé estará em cima da mesa a ordenação de homens casados pela Igreja Católica, frisa ao Diário de Notícias. Anselmo Borges que é também professor de filosofia recorda que há pouco tempo, o cardeal Walter Kasper, um teólogo respeitado pelo Papa, declarou numa entrevista ao jornal alemão Frankfurter Rundschau que “o celibato não é um dogma, uma prática inalterável”, e que se os bispos concordarem em ordenar “homens casados”, na opinião de Kasper, o Sumo Pontífice “aceitaria essa posição”.

Este padre português recorda àquele diário que a questão do celibato só aparece no segundo milénio do cristianismo. “Jesus não impôs essa lei, não se pode impor aquilo que Jesus entregou como opção”. E, deixa no ar a questão: “Hoje sabemos que o celibato não é cumprido por quantos?”

Maior liderança para as mulheres

Há ainda outro “muro” que o Papa Francisco quer quebrar dentro da sua Igreja, e que também pode começar pela Amazónia e pela aprovação dos representantes deste Sínodo. O da “liderança” das mulheres na Igreja. Aqui não se faz referência explícita ao diaconado feminino, mas à necessidade de “identificar que tipo de ministério pode vir a ser conferido à mulher nativa, tendo em conta o papel central que elas desenvolvem na Igreja Amazónica”.

Tanto homens como mulheres nativas contribuem para “dar impulso a uma autêntica evangelização do ponto de vista indígena, segundo seus hábitos e costumes”, lê-se no documento. Por isso, propõe que as mulheres tenham “papéis de liderança” e “espaços cada vez mais amplos e relevantes na área da formação: teologia, catequese, liturgia e escolas de fé e política”.

O padre Anselmo Borges acredita que no Sínodo se irá debater e pressionar para se ordenar diaconisas na Amazónia, mas que não se chegará sequer a falar da ordenação sacerdotal das mulheres, considerou ao Diário de Notícias. Isso ainda levará muito tempo. Mas, tal deveria acontecer porque “Jesus queria que fossem constituídas comunidades de discípulos e discípulas”.

“Creio que estamos aqui a falar de uma espécie de ‘cavalo de Tróia’ para introduzir as mulheres no sacramento da Ordem”, classificou, por seu turno, frei Bento Domingues ao Público.

 O Sínodo da Amazónia sob o tema "Amazónia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral" irá reunir representantes católicos do Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Venezuela e Suriname. Uma assembleia (consultiva) que poderá marcar o início de uma viragem na Igreja Católica.

 

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