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Violência doméstica. Os maridos que são agredidos pelas mulheres
Sociedade 8 min. 29.01.2020 Do nosso arquivo online

Violência doméstica. Os maridos que são agredidos pelas mulheres

Violência doméstica. Os maridos que são agredidos pelas mulheres

Sociedade 8 min. 29.01.2020 Do nosso arquivo online

Violência doméstica. Os maridos que são agredidos pelas mulheres

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
As mulheres são de facto as grandes vítimas desta violência. Mas também há agressoras. No Luxemburgo, em 2018, houve 313 mulheres a agredir companheiros e filhos. Os homens foram 712. Especialistas explicam as razões que levam a esta troca de papéis, a "vergonha" sentida pelos homens vítima e como ajudar ambas as partes.

Tatiana D., de 47 anos, foi condenada a 15 anos de prisão, por ter matado o companheiro com três facadas, em Mertert, em 2015. Na semana passada, alegou no Tribunal de Recurso do Luxemburgo, que o esfaqueou em legítima defesa. Tatiana está a recorrer da sentença de homicídio voluntário, e de uma pena de prisão de 15 anos, proferida em abril de 2019. O novo veredito será lido dia 12 de fevereiro.

Em Bonnevoie, depois de uma discussão acesa entre o casal de namorados, no sábado à noite de 4 de janeiro passado, a mulher entrou no seu automóvel, pô-lo em marcha e atropelou o namorado. A vítima ficou com ferimentos ligeiros e ela foi detida.


CSV quer pulseira eletrónica para agressores expulsos de casa
Françoise Hetto-Gaasch, do CSV, questionou recentemente o executivo sobre a eficácia do apoio às vítimas que existe atualmente no Grão-Ducado. De acordo com um estudo recente, 117 crianças portuguesas sofreram abusos e maus tratos às mãos de adultos.

Outra discussão entre um casal, na sua casa em Bigonville, terminou com a mulher a esfaquear o marido no peito, em junho úlimo. O homem salvou-se, mas a mulher foi detida. Estes são alguns dos casos de homens vítimas de violência às mãos das mulheres que aconteceram no Luxemburgo e que foram notícia, pela gravidade e pela intervenção da polícia, mas a realidade é que há muitos mais que continuam escondidos entre as quatro paredes. Se para as mulheres vítimas é difícil pedir ajuda, para os homens a vergonha de serem eles as vítimas, impede-os ainda mais de procurar auxílio.

Maioria dos casos acontece entre casais

Na violência doméstica, a maioria dos casos ocorre entre casais e as vítimas são quase sempre as mulheres. Os companheiros, os agressores. Contudo, também há casos em que estes papéis estão trocados.

No Luxemburgo, as mulheres constituem 30% dos autores de violência, psicológica e/ou física. Os dados são revelados pelo último relatório sobre violência doméstica no Grão-Ducado, de 2018, em que nas 739 intervenções policiais no país, foram identificados 1025 autores de agressões, 712 do sexo masculino (69,46%), e 313 do sexo feminino (30,54%). Em 2017, o número de homens agressores foi menor (68,60%), e o das mulheres maior (31,40%).

Na faixa etária entre os 14 e os 18 anos, o número de agressoras (13) é o dobro do dos homens (6), em 2018. Entre os 30 e os 50 anos, as agressões são cometidas quase em igualdade pelos dois sexos, com sexo masculino a deter o valor mais alto.


Violência doméstica. Portugueses ficam mal no retrato luxemburguês
A comunidade portuguesa possui o maior número de vítimas de violência doméstica no Grão-Ducado, voltam a indicar os novos dados, de 2018, a que o Contacto teve acesso. Acresce a isto, uma percentagem bastante superior nos agressores em relação ao seu peso na população residente. Serão os portugueses mais violentos do que os outros povos? Fomos escutar a opinião dos especialistas.

Contudo, entre os 30-35 (115 homens e 60 mulheres) e 35-40 (100 homens e 54 mulheres), a fatia das autoras representa ligeiramente mais de metade do dos homens. As grandes diferenças, onde o sexo masculino predomina na violência perpetrada é entre os 18-21 (39 homens e 8 mulheres) e a partir dos 50 anos (168 homens e 44 mulheres).

No país também há casos em que o tribunal decide expulsar as mulheres de casa e condená-las a penas de prisão, como o caso de Tatiana D. Em 2018, 33 mulheres (8%) receberam ordem de expulsão, por crimes cometidos por violência doméstica, contra 376 homens (92%), revela o mesmo relatório. Nesse ano, entre as vítimas 66,1% foram do sexo feminino e 33,9% do sexo masculino.


Mães condenadas e expulsas por baterem nos filhos
Em 2018, houve 17 mães a quem os tribunais da cidade do Luxemburgo e Diekirch ordenaram a expulsão de casa por terem cometido atos de agressão contra os seus filhos.

As mulheres não cometem apenas atos de violência contra os companheiros. Também a exercem contra os próprios filhos. O Luxemburgo não é caso único. Longe disso. Por toda e Europa e mundo existem mulheres que cometem atos de violência contra os seus namorados, maridos, companheiros, ex-maridos e filhos. Lentamente, estes casos começam a ser mais visíveis.

Sociedade minimiza agressões no feminino

Numa sociedade ainda caracterizada de machista e onde a violência doméstica "feminizou-se", ou seja, concebe que apenas as mulheres são vítimas, o que as leva a elas agredirem física ou psicologicamente os companheiros ou filhos? Vários especialistas explicaram as razões ao Contacto desta realidade ainda tão pouco estudada.

“Nas mulheres, a violência física é banalizada, considera-se que o homem é mais forte do que a mulher, que ela não tem força suficiente para usar de violência”, diz ao Contacto Daniela Cabete, psicóloga no serviço Riicht Eraus, da Croix Rouge, no Luxemburgo, que dá apoio aos autores de violência doméstica.

Quando é uma mulher a ser condenada por violência doméstica, ela é obrigada a cumprir a totalidade da pena de prisão, enquanto o homem não.

Daniel Cotrim, psicólogo da APAV

O termo “feminização” foi usado por Daniel Cotrim, psicólogo da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima de Violência Doméstica (APAV). “Naturalizou-se de tal forma que as vítimas desta violência são apenas mulheres que quando elas se tornam as agressoras se torna uma bizarria”, declara ao Contacto este responsável.

E essa “bizarria” é visível nas penas de prisão. “Quando é uma mulher a ser condenada por violência doméstica, ela é obrigada a cumprir a totalidade da pena de prisão, enquanto o homem não”, refere este psicólogo. Em muitos casos, as mulheres cometem estes crimes e matam em “legítima defesa”.


Violência doméstica cresceu em 2018 no Luxemburgo
Pela primeira vez, nos últimos cinco anos, o número de casos de violência doméstica aumentou no Grão-Ducado.

Em 2018, em Portugal registaram-se 26 483 participações de casos de violência doméstica, e do total dos autores 14% eram do sexo feminino e 16% das vítimas do sexo masculino, segundo o Relatório Anual de Monotorização de Violência Doméstica, em Portugal, em 2018, do Ministério da Administração Interna. A larga maioria das vítimas foram mulheres.

"Uma questão de poder"

Os números da APAV demonstram a mesma realidade. “Entre 2013 a 2018 das 40 mil pessoas vítimas de violência doméstica que chegaram até nós, 37 mil são mulheres e 3 mil são homens”, diz Daniel Cotrim.

Para este psicólogo esta violência no feminino tem a ver com a questão do poder. “A mulher sentir que exerce o poder sobre o homem, e muitas vezes na forma de violência psicológica”. No fundo, está ligado à “desigualdade de género”, pois a intenção da mulher é “pôr em causa a masculinidade”, diz Daniel Contrim. 

A mesma opinião tem Isabelle Schmoetten, responsável pelos projetos sociopolíticos da associação CID Femmes et Genre. “Do ponto de vista estrutural, cada ato de violência está diretamente ligado a uma demonstração de poder e hierarquia, como a perda de poder, restabelecimento do poder ou manutenção do poder”.

Cada ato de violência está diretamente ligado a uma demonstração de poder e hierarquia.

Daniel Cotrim, psicólogo da APAV


Casamentos "tóxicos"

Depois há ainda o desgaste das relações. Os “casamentos tóxicos” como lhe chama Anne-Marie Antoine, psicóloga do Planning Familial, no Grão-Ducado que apoia vítimas desta violência.

“Nos casamentos tóxicos muitas vezes chega-se a uma situação de desespero e geram-se situações de violência, nalguns casos também por parte das mulheres”, explica.

Daniela Cabete, do Riicht Eraus volta à tal “feminização” para explicar que por vezes, é “mais difícil as mulheres autoras sentirem-se responsáveis pelos atos e a sua gravidade” do que os homens agressores.


APAV apoiou mais de 43.000 vítimas de violência doméstica em cinco anos
No Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, a APAV lembra que registou um total de 43.456 processos de apoio a pessoas vítimas de violência doméstica, o que se traduz num total de 104.729 crimes.

No entanto, a agressão tem a mesma gravidade. Por isso, há que mudar as mentalidades, levar a sociedade a perceber que existem agressões cometidas no feminino e que também há homens vítimas de violência doméstica, alertam esta psicóloga do Riicht Eraus e Daniel Cotrim da APAV. Há que “derrubar o tabu”.

Para que as mulheres autoras e os homens vítimas possam ser apoiados e ajudados.

A “vergonha” das vítimas homens

Os especialistas são unânimes ao referir a “vergonha” que as vítimas homens sentem e os impede de denunciar a situação. “É muito difícil os homens chamarem a polícia ou procurarem ajuda”, frisa Anne-Marie Antoine. E acrescenta: Eles pensam: ‘Se eu chamar a polícia, vão pensar que eu não valho nada, que não presto”.

Daniel Cotrim concorda e fala de uma “masculinidade tóxica” que existe na sociedade e que molda a imagem do homem, o macho poderoso e superior. Por isso, a ridicularização desta masculinidade, é uma das formas da violência psicológica das mulheres: “não és bom na cama”, “não és homem”.

 “O que vejo hoje nos homens é o que assistia nos primeiros anos em que as mulheres começaram a ganhar coragem e a chegar a APAV a pedir ajuda. As justificações e desculpas sobre os agressores são as mesmas”, diz Daniel Cotrim.

Daniela Cabete considera urgente falar-se mais realidade da mulher agressora e do homem vítima. Tornar este “fenómeno visível”, sensibilizar a sociedade. “Para as mulheres que agridem companheiros e filhos e que sofrem por estar a cometer estes atos saibam que existem locais onde podem ter apoio”, diz esta psicóloga do Riicht Eraus que recebe e dá apoio psicológico também às autoras de agressões. Quem desejar pode informar-se junto do Riicht Eraus .

 “Também está na hora das vítimas masculinas abrirem caminho e defenderem os seus direitos”, sublinha esta psicóloga recordando que eles também têm locais onde pedir ajuda. “A lei sobre a violência doméstica é neutra, é igual para todos os seres humanos, protege homens e mulheres”, lembra.

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