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Violência doméstica "é equivalente" entre franceses e lusodescendentes

Violência doméstica "é equivalente" entre franceses e lusodescendentes

Foto: Shutterstock
Sociedade 2 min. 07.03.2019

Violência doméstica "é equivalente" entre franceses e lusodescendentes

Em 2017, morreram em França 130 mulheres vítimas da violência por parte dos seus companheiros, um número que aumentou face a 2016 e que levou o Governo francês a tomar medidas.

O psicólogo Manuel dos Santos Jorge considera que a violência doméstica em França terá hoje números equivalentes entre franceses e portugueses, face à emigração de 1960/70, quando dificuldades de adaptação e "relacionamento autoritário" trazido de Portugal "geravam violência". 

Apesar de não existirem números oficiais sobre o flagelo entre as diferentes comunidades de imigrantes em França, o profissional de saúde com mais de 40 anos de experiência de trabalho com as comunidades de língua portuguesa nos arredores de Paris considera que "a percentagem de franceses que sofrem com a violência doméstica deve ser equivalente à percentagem na comunidade portuguesa". 

Em 2017, morreram em França 130 mulheres vítimas da violência por parte dos seus companheiros. Um número que aumentou face a 2016 e que levou o Governo francês a apresentar no final do ano passado um portal online para a denúncia de violências sexuais e de género, de forma a facilitar a interação das vítimas com as autoridades.  

"Penso que houve graves problemas de adaptação na questão da violência nos primeiros 20 anos após a chegada dos portugueses nos anos 60 e 70. [...] A mulher portuguesa adaptava-se muito melhor à maneira de viver em França e o marido ficava numa esfera de vida entre o café, o futebol e era como se vivessem ainda em Portugal", considera à agência Lusa.

Patroas francesas foram relevantes para denunciar abusos

Este início de emancipação da mulher portuguesa em França foi facilitado pelo trabalho com "as patroas francesas que serviam de mediadores na família", acrescenta ainda Manuel dos Santos Jorge. O psicólogo sublinha mesmo a relevância destas mulheres francesas, que impulsionaram as portuguesas a denunciar às autoridades os abusos sofridos por elas e pelos filhos e também a mudar os padrões de relacionamentos trazidos de Portugal.

"Aquele respeito autoritário entre o homem e a mulher que vinham de Portugal, já não existe. A relação hoje é baseada nos costumes franceses", acredita Manuel dos Santos Jorge.

Apesar dos progressos, para Luísa Semedo, coordenadora da Santa Casa da Misericórdia de Paris e antiga presidente da Coordenação das Coletividades Portuguesas em França, as mulheres portuguesas emigradas ainda vivem uma situação de vulnerabilidade. "Estão numa situação de vulnerabilidade maior do que estariam em Portugal porque não têm aqui familiares e estão isoladas. [...] No meu trabalho vejo situações de grande precariedade e algumas são mulheres que sofrem de violência e que vão parar à rua, porque o homem com quem estão é violento e não há estrutura familiar para as apoiar", revela

Ao mesmo tempo, a coordenadora ressalva que já se têm feito alguns progressos. "Já há outra mentalidade e as mulheres têm outra voz e outra força". 

A temática deve ser mais falada junto das associações e dos lugares de encontro privilegiados dos portugueses e lusodescendentes, considera, no entanto. "[Falar sobre a violência doméstica dentro da comunidade] não tem sido uma prioridade, mas é muito importante falar-se mais e é preciso que as pessoas não fiquem isoladas nessas situações". 

Lusa


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