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Violação ou violência ginecológica? Secretária de Estado francesa acusada por antigas pacientes
Sociedade 7 min. 24.06.2022
Justiça

Violação ou violência ginecológica? Secretária de Estado francesa acusada por antigas pacientes

Chrysoula Zacharopoulou
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Violação ou violência ginecológica? Secretária de Estado francesa acusada por antigas pacientes

Chrysoula Zacharopoulou
Foto: AFP
Sociedade 7 min. 24.06.2022
Justiça

Violação ou violência ginecológica? Secretária de Estado francesa acusada por antigas pacientes

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A governante que trabalhava como ginecologista antes de ser nomeada para o governo francês enfrenta, pelo menos, três queixas relativas a procedimentos médicos abusivos. Acusações estão a relançar o debate sobre violência ginecológica em França.

É mais um escândalo a assombrar o governo francês, mas é também um caso que está a mexer com as práticas de parte da classe médica.

A Secretário de Estado do Desenvolvimento, Chrysoula Zacharopoulou, enfrenta queixas de violação por parte de antigas pacientes do seu consultório de ginecologia.

Segundo noticiou a AFP, esta quarta-feira, foi aberta uma investigação após duas queixas de violação contra a governante, acusada por antigas doentes de as ter obrigado a determinados atos nos tempos em que foi ginecologista. 

 A primeira queixa a alegar violação foi apresentada a 25 de maio e a investigação foi aberta dois dias mais tarde. Na quarta-feira, o Ministério Público de Paris disse ter sido apresentada uma segunda queixa, a 16 de junho pelo mesmo tipo de factos.

De acordo com o semanário Marianne, que revelou as queixas, os factos alegados contra Chrysoula Zacharopoulou foram cometidos no contexto da sua profissão como ginecologista. Na sequência da reportagem, houve uma terceira mulher a lançar o mesmo tipo de acusação à atual governante. 

A mulher agora com 26 anos e a viver na região parisiense, disse à AFP na quarta-feira que tinha consultado Zacharopoulou por problemas de endometriose, em que a ginecologista franco-grega de 46 anos é especializada. A consulta, que foi feita com a atual secretária de Estado pela sua reputação e especificamente por ser mulher, aconteceu no final de 2016, na presença de um médico estagiário masculino. Segundo o relato desta antiga paciente, a ginecologista "obrigou o seu estagiário" a examiná-la. 


Ginecologista condenado em França exercia no Luxemburgo
Em 2018, o que seria um procedimento médico relativamente normal em França tornou-se o pesadelo de uma vida para Verónique Scheins. Uma investigação da RTL conta toda a história do ginecologista alemão que no início de 2022 estava registado na Ordem dos Médicos luxemburguesa.

Quando os pés do paciente estavam nos estribos, o médico "sentiu que eu não estava nada confortável, ele também não estava nada confortável, o meu corpo estava fechado, bloqueado, ele sentiu-o", descreveu ela. Depois foi a vez de Zacharopoulou, prosseguiu a mulher de 26 anos "Ela disse-me: 'vais ter de abrir. Eu não sou ele'. Ela tentou e tentou, não estava nada contente, e eu estava muito nervosa, tensa e bloqueada", contou. 

A jovem mulher disse não se lembrar se o ginecologista tinha pedido o seu consentimento antes de a examinar, como faz hoje um número crescente de profissionais.  Mas lembra-se de ter vivido o momento "pelo menos como uma agressão sexual". Na altura não apresentou queixa. Atualmente, considera que há outra forma de ver estas práticas médicas. "Disse a mim mesma que ninguém acreditaria em mim, mas hoje é diferente", afirmou, acrescentando, contudo, ter estado "hesitante" em fazê-lo. 

Organização recebeu mais queixas por violência obstétrica e ginecológica 

Sonia Bisch, fundadora do Stop Violences Obstétricales et Gynécologiques - StopVOGfr, coletivo contra a violência obstétrica e ginecológica,  disse à AFP que o organismo tinha "recebido três testemunhos" contra Chrysoula Zacharopoulou, datados de 2013, 2016 e 2020, referindo-se à "violência ginecológica (...) em três outros pacientes que não apresentaram queixa". 

Nascida em Esparta, Grécia, Zacharopoulou estudou em Itália antes de exercer ginecologia em França, no hospital militar Bégin em Saint-Mandé (Val-de-Marne) e depois nos Hospitais de Paris (AP-HP), nomeadamente em Tenon no departamento do Professor Émile Darai, que está sob investigação por acusações de violação. 

Contactados pela AFP, o grupo hospitalar AP-HP afirmou que "nunca teve conhecimento de qualquer queixa ou relatório relativo à Dra. Chrysoula Zacharopoulou". "O hospital universitário criou uma comissão de inquérito no final de setembro de 2021, na sequência das acusações relativas ao Professor Émile Darai", um renomado ginecologista parisiense que é alvo de várias queixas, e "foi dada particular atenção à escalada e ao tratamento das queixas dos pacientes", afirmou o AP-HP. 

Crime ou más práticas?

 O desafio para os tribunais será ver se estes atos médicos não consensuais podem ser classificados como criminosos. No caso de Émile Darai, foi aberto um inquérito judicial por violência por parte de uma pessoa encarregada de uma missão de serviço público. 

Joëlle Beaisch Allart, presidente do Colégio Nacional Francês de Ginecologistas e Obstetras, disse à AFP estar "muito preocupada com o uso atual da palavra violação para descrever exames médicos, particularmente ginecológicos, sem a menor intenção sexual". 

Com as recentes acusações de violação contra ginecologistas proeminentes, incluindo a secretária de Estado toda a profissão se sente "apanhada pela sociedade" e há uma crescente exigência de consentimento e benevolência por parte das mulheres, refere a mesma agência.

Aqueles que denunciam a violência ginecológica e obstétrica falam, contudo, em "total impunidade dos médicos".

O StopVOGfr afirma receber quase 200 testemunhos todos os meses. "Trata-se do desrespeito dos direitos dos doentes em ginecologia ou obstetrícia. São as más práticas médicas que conduzem a complicações", acusa Sonia Bisch, em declarações ao órgão de informação Le Bien Public. 

Esta violência, segundo a ativista pode manifestar-se através da "pressão, palavras, discriminação, sexismo, atos médicos ou cesarianas, desrespeito pela dor das mulheres, particularmente em casos de endometriose ou durante o parto. E vai até à violação, que a lei define como penetração sem consentimento de qualquer forma, mesmo com um objeto", considera.

De acordo com um relatório de 2018 do Alto Conselho para a Igualdade, citado por este órgão, estas são situações generalizadas em França.


Abuso nas maternidades portuguesas. "Se isto correr mal, tem outro"
Cerca de 30% das mulheres diz ter sido vítima de violência obstétrica em Portugal, que é um dos países europeus com mais elevadas taxas de intervenção no parto.

Em Portugal, cerca de 30% das mulheres diz ter sido vítima de violência obstétrica. O país é um dos Estados europeus com mais elevadas taxas de intervenção no parto, o que levou o parlamento a aprovar em 2021 uma recomendação para que o Governo ponha fim a práticas consideradas abusivas e, em muitos casos, desnecessárias, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Um dos exemplos, praticado amplamente em Portugal, é a episiotomia, um corte no períneo da grávida de modo facilitar a passagem do bebé que, no entanto, é desaconselhado pela OMS.

Como conta a reportagem publicada no Contacto em julho de 2021 sobre violência obstétrica, e que ouviu testemunhos de várias mulheres, "Portugal é um dos países europeus com mais altas taxas de intervenção no parto, como o caso da elevada taxa de episiotomias ou de cesarianas. Outros dados não estão ainda quantificados, tais as taxas de indução de parto ou da aplicação da manobra de Kristeller (aplicação de pressão no fundo do útero), mas o consenso é que são amplamente utilizados. Para além de desaconselhadas, tais práticas são, por vezes, realizadas contra o direito consentimento informado ou até contra a vontade explícita das mães".

No Luxemburgo, em 2019, quase 23% das mulheres parturiente sofriam "corte" no períneo durante o parto.

Acusações "inaceitáveis"

Esta sexta-feira, Chrysoula Zacharopoulou reagiu às acusações de violação, por parte das suas antigas pacientes, considerando-as "inaceitáveis".

"As graves acusações contra mim, relativas aos exames clínicos realizados para diagnosticar e tratar as doenças dos meus pacientes, são inaceitáveis e revoltantes",  afirma a secretária de Estado numa declaração enviada pelo seu advogado à AFP.

 Chrysoula Zacharopoulou, que foi eleita em 2019 para o Parlamento Europeu, onde foi membro do Comité dos Direitos da Mulher, é médica ginecologista especializada em endometriose, tendo, no ano passado, apresentado um relatório sobre a doença ao governo francês. 

Em maio deste ano juntou-se ao executivo francês como secretária de Estado para o Desenvolvimento, Francofonia e Parcerias Internacionais, sob a alçada do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

As queixas contra a governante surgem numa altura em que vários ministros em funções estão acusados de violência sexual, incluindo o ministro do Interior, Gérald Darmanin, que foi alvo de uma queixa de violação, inicialmente arquivada e depois reaberta, e para a qual o Ministério Público solicitou a sua demissão no início de 2022. Mais recentemente, também o ministro da Solidariedade, Damien Abad, foi acusado de violação.

(Com AFP)

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