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Vêm aí a onda da renovação de casas
Opinião Sociedade 3 min. 17.11.2020

Vêm aí a onda da renovação de casas

Vêm aí a onda da renovação de casas

Foto: Shutterstock
Opinião Sociedade 3 min. 17.11.2020

Vêm aí a onda da renovação de casas

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Costuma sentir frio dentro de casa, sobretudo quando passa o Natal em Portugal? Procura emprego? Está preocupado com a depressão económica latente e com os danos que a actividade humana está a causar ao planeta?

É muito provável que a sua resposta a pelo menos uma destas questões seja "sim", e então este texto, inspirado por três notícias relativamente recentes, é capaz de lhe interessar. Mas vamos por partes. A primeira não é novidade para nós portugueses vivendo na Europa do Norte: todos os edifícios construídos antes de 2016 em Portugal obtêm a categoria IV de conforto térmico – ou seja, a mais baixa de todas. Isto significa que são demasiado quentes ou, na esmagadora maior parte dos casos, demasiado frios em mais (por vezes muito mais) de 5% do tempo. 

Nas casas mais antigas e em zonas com clima mais severo, as temperaturas mínimas interiores podem atingir com frequência valores abaixo dos 10 °C; obviamente, este frio permanente tem efeitos nefastos na saúde dos ocupantes, sobretudo com toda a gente confinada em casa... e, no entanto, instalar janelas de vidros duplos e isolar as coberturas e as fachadas já seria suficiente para permitir a dois terços do total das habitações subir de escalão de conforto, atingindo temperaturas aceitáveis!

A pobreza energética – traduzida por frio dentro de casa – afecta a pelo menos 34 milhões de europeus.

Entra a segunda notícia. "Bruxelas" acaba de apresentar um gigantesco plano para ajudar a resolver este problema, e não apenas em Portugal – os números totais europeus são impressionantes: só 15% dos edifícios foram construídos a partir de 2001, o que significa que nada menos que 220 milhões de habitações foram construídas no(s) século(s) passados; mas as renovações para eficiência só abrangem actualmente 1% destes... e logo, a pobreza energética afecta pelo menos 34 milhões de cidadã(o)s. Ao mesmo tempo, num continente que está na vanguarda da luta às alterações climáticas, o tema é crucial pois os edifícios consomem 40% de toda a energia produzida – e são responsáveis por 36% das emissões de gases.

Uma tarefa titânica, portanto. Mas também o potencial para um enorme impacto: obras de renovação requerem muita mão-de-obra, e a Comissão Europeia calcula que 160 mil postos de trabalho "verdes" podem ser criados na área da construção civil, com a vantagem de estes novos empregos serem bem distribuídos, já que assentam em investimentos e oportunidades locais. Na verdade, calcula-se que por cada milhão de euros investidos esta área de actividade crie em média 15 postos de trabalho, e muitos desses milhões virão directa ou indirectamente (ao facilitar o financiamento privado) da UE: o programa, com a duração de 10 anos, chama-se "Vaga de Renovação".

E aqui chegamos à terceira notícia – a reabertura da Gare Maritime, uma enorme (40 000 m2) e admirável estação de comboios de mercadorias que serviu para abastecer a cidade de Bruxelas de 1907 até 1980. Abandonada desde então, acaba de reabrir em plena pandemia, completamente renovada como espaço de trabalho, compras, lazer e eventos públicos, uma joia arquitectónica no que é também um dos mais avançados edifícios da Europa: não usa qualquer petróleo ou gás pois produz a sua própria energia (solar e geotérmica), aproveita ao máximo a chuva para refrigeração e a luz solar para iluminação e aquecimento, reciclou materiais antigos e inclui 3000 m2 de jardins dentro do próprio complexo.

Um passo enorme no sentido da absolutamente necessária transição energética; chama-se a isto liderar pelo exemplo.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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